JORNALEGO
ANO III - Nº 99, em 10 de Abril de 2005.
Artigo
BRAINSTORMING
Uso esse título em inglês
arriscando-me a receber de roldão acerbas críticas. Tempestade cerebral é
uma tradução literal horrível.
Começo lembrando o livro
"Visão do Paraíso" de Sérgio Buarque de Holanda (o pai do Chico), que tem como
subtítulo "Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil".
Edênico de éden, que vem do hebraico, paraíso do grego.
Do livro, muito
mais importante do que a exaustiva apresentação da fantasia, da imaginação e do
idealismo que prevaleceram durante toda a Idade Média, influenciando o
conquistador europeu quando do defloramento da América, foram as ilações
provocadas pela sua leitura, que são a principal razão deste artigo.
As fantasiosas idéias de
então eram originárias e fundamentadas na filosofia prevalecente, de fundo
religioso, quando as Sagradas Escrituras eram usadas para explicar a criação do
mundo e sua evolução. Outro fator importante na base desse pensamento era a
literatura dominante, os romances de cavalaria, que induziram até os mais cultos
cérebros a embarcar numa visão fantástica da geografia terrestre.
Uma das
justificativas para a conquista do Novo Mundo foi a procura do Paraíso
Terrestre. Acreditava-se que Deus teria localizado na própria Terra o paraíso,
onde viveram sem pecado, perturbações, trabalho, intempéries, aflições etc. os
nossos primeiros pais, Adão e Eva, até provarem do "fruto proibido". O Gênese
cita quatro rios que nascendo do éden banhavam as terras do planeta. Assim, o
Gion, o Fison, o Hidequel e o Eufrates foram associados inicialmente ao Nilo,
Ganges, Tigre e ao próprio Eufrates, o que foi o bastante para situar o
paraíso no Oriente.
Com o descobrimento da
América aqueles rios foram identificados com o Madalena, o Orinoco, o Amazonas e
o Prata e o paraíso migrou para o Ocidente. Uma justificativa para tal
seria dada pela esfericidade do planeta, onde, no limite, o Oriente se encontra
com o Ocidente. Afinal, Colombo não teria descoberto as Índias Ocidentais?
A época era de
muitas lendas e histórias mirabolantes que situavam na América serras de ouro e
prata, minas de esmeraldas e diamantes, as amazonas, os animais exóticos e
monstruosos. Entre as lendas, a de São Tomé, um dos apóstolos de Jesus que teria
andado por aqui e no extremo oriente no início da era cristã, pregando a Nova
Doutrina. Corações e mentes, incluindo Colombo, foram influenciados pelas idéias
de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, e pelos poemas de Homero, Ovídio e
Virgílio, entre os vários autores citados no livro. O curioso é que os
portugueses, diferentemente dos castelhanos, não teriam aderido a estas visões,
pelo conhecimento empírico acumulado em suas viagens.
Vigorava neste
final de Idade Média e início da Idade Moderna, época dos grandes
descobrimentos, principalmente da América e do Brasil, bem como da colonização
do Novo Mundo, um "misto de cobiça, piedosa devoção e imaginação desvairada".
Eram explicações sagradas e profanas fazendo a cabeça dos expedicionários.
Apesar de tudo,
nenhuma crítica mais contundente reside neste artigo a esse ideário. Há
necessidade de nos transportarmos para aqueles dias para compreender o que se
passava então. Não é válido empregar raciocínios atuais para criticar o passado.
Afinal, por que Pedro Álvares Cabral não pegou um avião a jato para vir ao
Brasil, tendo preferido as lentas e perigosas caravelas? O absurdo da piada
ilustra o caso.
Aquela
mentalidade delirante durou séculos. Sua mudança foi uma lenta revolução nas
cabeças, no consciente e subconsciente da população mundial, ficando ainda
muitos resquícios deste tipo de pensamento. Haja vista a tentativa atual de se
impor uma visão criacionista, em oposição à teoria da evolução para se explicar
a vida na Terra.
Os religiosos,
que se baseiam em suas escrituras sagradas, doutrinas e crenças para explicar o
mundo, a vida, o após vida, o universo e outras coisas mais, são muito
susceptíveis à idealização. A descoberta de um Novo Mundo jogou por terra toda
uma filosofia de conhecimento, mais teologia do que filosofia, mas, por outro
lado, gerou outras fantasias. O que virá com as viagens a outros planetas? Já
vivemos uma temporada de caça ao fantasioso por conta do que se espera com a
conquista sideral.
A razão humana e
conseqüentemente a sua ciência são limitadíssimas diante dos segredos do
Universo, a despeito dos grandes avanços obtidos. Muita idealização cedeu lugar
à realidade das coisas. Mas ainda assim, o mistério é imenso. Paradoxalmente, a
evolução da ciência criou um campo desconhecido ainda maior do que existia, solo
fértil a ser preenchido pela “imaginação desvairada”.
Muito do que
hoje acreditamos vai ser contestado futuramente, como o que se acreditava caiu
por terra. No simbolismo de Marx: "tudo que é sólido se desmancha no ar".
Contudo, algumas crendices persistirão. Outras surgirão. A postura correta
diante da vida e do desconhecido deve ser a receptividade para as mudanças, a
partir de verdadeiras revoluções na cabeça das pessoas para tentar compreender a
evolução das coisas. Conquanto isso seja difícil na duração de uma única vida,
um exercício intelectual individual deve ser tentado, embora se compreenda a
necessidade da idealização para pessoas que não conseguem suportar certas
cruezas da realidade.
Provocar uma tempestade
cerebral, tornar-se receptivo a novas formas de percepção, é a receita adequada
para se entender o passado e se capacitar minimamente para encarar o futuro.
Essa sim, a visão do
paraíso.