JORNALEGO
ANO III - Nº 98, em 30 de
Março de 2005.
Crônica
IL PAPA
SCHIAVO
(O Papa Escravo)
João Paulo II e a americana Terri Schindler
Schiavo são escravos dos pobres e podres poderes deste mundo e de mentalidades
retrógradas e ultrapassadas.
Sua Santidade, doente, tem sido
joguete da estrutura de poder da Igreja que o utiliza como fantoche a desfilar
por Roma, aparecer em sua janela saudando e abençoando a multidão; nem mesmo a
sua próxima viagem à Alemanha foi ainda desmarcada oficialmente. Logicamente que
o Papa colabora com esse estado de coisas, com a sua forte personalidade,
carisma e estoicismo.
A medicina moderna, com seus
grandes avanços, ao lado de curar muitas doenças e preservar a vida de tantas
pessoas, em alguns casos, na realidade, tem é prolongado a hora da morte. O
Papa não está moribundo mas visivelmente incapaz de cumprir suas funções. Seria
conveniente admitir sua aposentadoria e substituição, dadas as precárias
condições de saúde, evitando essas exposições midiáticas, urbi et orbi,
de sua fragilidade.
Essa mesma Igreja que ainda se atém
a concepções ultrapassadas é a que defende, juntamente com os outros
fundamentalistas religiosos, a manutenção da vida de Terri Schiavo, há quinze
anos vegetando numa cama de hospital, sem possibilidade de melhora, depois de um
acidente vascular.
Não saberia julgar o posicionamento
contraditório dos familiares da doente, dando razão ao marido ou aos pais, na
falta de uma vontade explícita da própria vítima. Critico a posição inflexível
dos grupos já citados em favor da manutenção da vida nas piores condições, até
mesmo quando a vontade lúcida da própria pessoa é expressa.
A Igreja Católica ainda peca por
suas posições retrógradas sobre a contracepção, divórcio e outros temas
semelhantes já ultrapassados pela sociedade contemporânea. Seus porta-vozes e
seguidores não argumentam, reproduzem discursos prontos e dogmáticos, sem
considerar os novos tempos e os casos particulares.
Dois filmes em exibição nas telas
do país tratam da eutanásia: Menina de Ouro e Mar Adentro. Duas cenas são
fundamentais para compreender a eutanásia. No primeiro filme a tentativa de
suicídio da personagem ao morder a língua, tentando se asfixiar da única maneira
possível. Clara evidência de sua vontade, já expressada ao seu treinador. No
segundo quando contestado sobre o desejo dos tetraplégicos, o personagem real
responde: – “Não estou a falar em nome dos tetraplégicos (ele próprio um deles)
e sim em meu nome, Ramón Sampedro.” Vinte e cinco anos, inerte, em cima de uma
cama.
A imprensa às vezes confunde o
público ao colocar a questão de forma simplista e maniqueísta entre estar a
favor ou contra o aborto ou a eutanásia. Não é bem assim. Ninguém, em sã
consciência, é favorável a matar um feto ou uma pessoa doente. Isso beira a
fascismo. O que se discute é a autonomia de uma pessoa – grávida ou doente – em
optar pelo aborto ou pela eutanásia. Não se admite que, sabedora de uma grave
deformidade do feto ou de uma geração/gestação indesejável, à dona do corpo
gerador não lhe seja permitido abortar. Nem tampouco que ao moribundo em estado
terminal, desenganado, tetraplégico ou vivente vegetativo não lhe seja permitido
morrer.
Conheço uma senhora muito distinta
que costuma dizer sem rodeios: – “Quando não for mais capaz de fazer minha
própria higiene prefiro a morte”. Nada mais justo. Viver não é uma obrigação,
trata-se de um direito. Como também é direito querer morrer com dignidade quando
não se pode viver com dignidade.
Nos Estados Unidos, a maioria do
povo já se apercebeu da manobra do seu Presidente e de lideranças republicanas
conservadoras com finalidades meramente políticas. No Vaticano algo idêntico
pode estar acontecendo.