Jornalego
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JORNALEGO ANO III - Nº 96, em 10 de Março de 2005. Novelas mínimas DECAMERÃO Proêmio: Em tempo de peste, crise, guerra, terror ou insegurança – vale dizer: sempre – o homem inventa histórias. Passados mais de 600 anos, os personagens-novelistas de Boccaccio voltam ao proscênio. Jornada Pampinéia: Sobre o que mais deleita a cada um. Robério, filho único de família abastada, depois de uma adolescência conturbada, recebeu de herança um razoável patrimônio. Montou uma confecção de roupas que muito prosperou com o seu jovem tino comercial. Deslumbrou-se com o sucesso e a bajulação. Pensou em altos vôos. Começou a participar de reuniões políticas enaltecendo a necessidade de visão empresarial na administração pública. Engajou-se em campanhas sociais tendo se ligado à igreja evangélica local, engordando a conta bancária do pastor. Gastou uma baba de dinheiro. Filiou-se a um partido de aluguel. Candidatou-se a prefeito da cidade. Confiante na eleição foi para as ruas e urnas. Obteve uma fragorosa derrota diante do candidato do governo, fortemente apoiado pelo carismático e performático pároco da igreja católica. Agora, ao desistir da política, costuma freqüentar seções espíritas confiante em que sua salvação, aqui na Terra, passa pelo sucesso de seus negócios, sem óbolos ou espórtulas a “vagabundo nenhum” e a certeza de sua reencarnação, após a visita da indesejável das gentes. Jornada Filomena: Na qual se fala de quem, perseguido por incontáveis contratempos, alcançou um fim tão feliz, superando as esperanças. Berenice era bem-casada com um expoente do jornalismo e do beletrismo local. Aparentemente, isso bastava para a felicidade da jovem e bela consorte. Mas como Cupido tem as suas manhas, fê-la apaixonar-se por um também jovem alferes, bem apessoado, elegante, de finíssimas maneiras. Passou a relaxar nos seus afazeres domésticos de senhora prendada para encontrar-se com o amante em sua casa no subúrbio. Como também os demônios têm a sua manha, a vizinhança ficou sabendo dos encontros e de quem aquela linda senhora era esposa. A notícia chegou ao conhecimento do marido. A honra manchada precisava ser vingada. A tentativa de lavá-la com sangue foi frustrada. O tiro saiu pela culatra. O experiente militar, familiarizado com as armas, ao defender-se matou o concorrente. Passados alguns poucos anos, julgado e inocentado o amante, os dois vieram a morar juntos e a usufruir galhardamente as delícias de seu amor. Morreram velhinhos, cheios de filhos e netos. Enquanto a libido do festejado escritor estava voltada para a conclusão de sua obra-prima, a mulher fogosa, carente de amor, carinho e atenção, foi satisfazer suas necessidades além-lar. Qualquer semelhança com fatos realmente acontecidos é realmente semelhança, porque cópia descarada da vida pela arte. Jornada Neífile: Em que se cuida de algo que muito se deseja e que se alcança, ou coisa que, sendo muito querida, está perdida e se recupera. O papa é pop. O papa é pós-moderno. O papa é virtual. Graças ao avanço da telemática o papa supera suas humanas fragilidades. Vem aparecendo em vídeos finamente editados, em telões dispostos no altar-mor da Basílica de São Pedro e em locais estratégicos do Vaticano. Sua imagem é reproduzida, em transmissão simultânea urbe et orbe, com mensagens lidas por um competente porta-voz. Enquanto isso, Sua Santidade jaz doente num apartamento hospitalar, dotado de alta tecnologia médica, sem articular palavras e com precário poder de comunicação escrita. Suas aparições televisivas empolgam multidões, com o que ficou mundialmente conhecido como big father. Jornada Filóstrato: Na qual se fala daqueles cujos amores tiveram fim infeliz. Vicentina desde tenra idade tinha sido prometida em casamento a num guapo mancebo descendente de nobre família. Nos devidos tempos casaram-se e tiveram três filhos. Contudo, passado outro tempo, a linda e jovem senhora apaixonou-se por um simpático funcionário do Banco do Brasil recém-chegado à região. Pegaram um ita do norte e foram pro Rio morar. O fato se constituiu num grande acontecimento na pacata cidadezinha do interior. A nobre família mandou ao encalço dos amantes alguns caçadores que, tendo encontrado e identificado o culpado pela desonra e pelo fato de ter manchado o bom nome da família e do lugar, raptaram-no e acabaram com sua existência e sem-vergonhice. Vicentina foi trazida de volta, não para a sua cidade natal, mas para a capital do estado, onde passou a viver com uma dama de companhia contratada pela família do ex-marido o restante de sua vida solitária. Jornada Fiammetta: Na qual são feitas narrativas a respeito do que às pessoas que se tenham amado possa ter acontecido de venturoso, após alguns acontecimentos difíceis e infelizes. Karina, bela, descomprometida e eficiente geóloga brasileira foi trabalhar numa empresa internacional de petróleo. Passou a reparar no seu colega Walter, de nacionalidade americana, de mesma idade e competência, casado com uma patrícia financista do FMI, daí por que sediada em Washington e viajando all over the world. O início do romance foi facilitado por estarem, os enamorados, trabalhando em São Paulo. A atração mútua ficou impossível de conter. As viagens conjuntas eram oportunidades para que fossem degustadas as iguarias do amor. Numa dessas, foram dar com os costados em África, assessorando uma empresa estatal de petróleo. Passaram um mês em Luanda, com incursões aos campos petrolíferos no interior do país. A identificação com os objetivos da empresa foi tão grande que nossos heróis romperam seus compromissos afetivos e profissionais do outro lado do Atlântico. Foram contratados pela estatal e casaram-se. Descobriram um novo mundo no seu campo profissional, um novo conceito de indústria do petróleo, a íntima interligação do seu trabalho a serviço do florescimento de um povo que há pouco se livrou do colonialismo e da guerra civil, os laços sensuais entre essa missão e o grande amor que os unia. Foram felizes para sempre, introjetando uma visão diferente da que até então tinham do mundo e da vida. O sol, todos os fins de tarde, não mais se escondia por detrás das montanhas, mergulhava na imensidão do oceano. Jornada Elisa: Na qual se discorre sobre quem, tentado com alguma frase elegante, consegue salvar-se por meio de resposta rápida, ou mesmo de esperteza, fugindo da perda, de perigo, ou de zombaria. Esta cena se passou há algum tempo em algum lugar da velha Europa. Divinal vestal, infernal sensualidade, Madalena retirou-se para a propriedade rural do seu marido para gozar alguns dias de descanso num verão que se apresentava causticante. O marido continuou na labuta urbana. Admiradora de flores e aves, mantinha em sua chácara belo jardim e um bem-cuidado viveiro de pássaros canoros. Um invejoso vizinho, apreciador de belas mulheres, numa visita à dita senhora, propôs-lhe uma contravisita à sua casa para se deleitarem com o canto de uma cotovia que aparecia todas as manhãs nas trepadeiras da varanda. Por pouco o convite não foi aceito. Precavida, depois de muito pensar, desculpou-se assim a distinta dama: “Senhor, sou forçada a declinar do amável convite que me fez. A cotovia é um pássaro que canta à luz do dia e eu tenho receios de expor a minha alva epiderme aos raios do astro-rei, para apreciar a sua audição. Prefiro a frescura das noites de verão quando me encanta o rouxinol do meu marido”. Jornada Dionéio: Na qual se fala dos enganos que, ou por amor, ou por sua salvação própria, as mulheres já praticaram contra os seus maridos. Kênia e Úrsula eram duas amigas inseparáveis. Desde crianças conviviam lado a lado, vizinhas de parede-meia na rua suburbana da cidade grande. Lindas e sensuais, eram mantidas severamente controladas por seus maridos em seu condomínio fechado, ciumentos que eram das inúmeras possibilidades de infidelidade feminina. Residiam no bairro mais elegante da cidade, depois de casadas com jovens de posses, do outro lado da cidade. Um namoro levou ao outro. Os casamentos se deram na mesma cerimônia, com as noivas vestindo o mesmo modelo. Deslumbrantemente lindas, a mostrarem, em decotes discretos, quatro seios de virgem a arfarem em sintonia. A rígida censura à liberdade das mulheres levou-as a se conhecerem mais intimamente e a descobrirem atrações recíprocas que muito as excitavam e as extasiavam. A limitação imposta a elas foi sendo acatada sem oposição. Os homens, por sua vez, foram, com a aquiescência feminina, ganhando mais espaço para suas andanças conjuntas fora de casa. Nenhuma reclamação partia das esposas, cada dia, cada noite, mais livres na bela prisão domiciliar. Todos viveram assim, casados e felizes para sempre, enganando-se mutuamente, encharcados em prazeres do amor. Jornada Laurinha: Na qual se conversa a respeito das burlas que se praticam, todos os dias, ora mulher contra homem, ora homem contra mulher, e às vezes homem contra homem. Atormentada pela rudeza da vida, a frágil Zenaide precisava de um amparo qualquer. Das opções que se apresentaram – a psicoterapia ou a religião – ficou com a última, a que mais desagradava ao marido ateu. Passou a freqüentar a igreja pentecostal mais próxima de sua casa e em pouco tempo sentiu os benefícios de uma espiritualidade que lhe faltava. Encantava-se com as promessas da igreja e as pregações do jovem pastor. Passados alguns meses, Zenaide saiu de casa, abandonou o marido e o filho pelo novo amor eclesiástico, e foi com ele para o interior de Tocantins, onde hoje exerce as funções de missionária. “O Senhor fez em mim maravilhas” comenta em êxtase, agradecendo ao seu Deus o advento daquele homem dotado de tão grande competência. Com dizia minha avó sacana (a outra era piedosa): “O amor é uma flor roxa, que nasce no meio das coxa”. Jornada Emília: Na qual cada um conta, como lhe é mais agradável o que mais lhe apraz. Jovem carola, Macabéa veio do interior do Estado empregando-se em casa de família. Sua grande aspiração era se casar. Nunca tivera um namorado. Nos seus contatos religiosos com o sacristão da igreja matriz fez-lhe essa confissão. O solícito homem propôs-lhe um casamento divino, mais importante que o casamento marital. Em seu quarto, anexo à casa paroquial, recebeu-a toda linda e cheirosa para a cerimônia do casório, em data aprazada. Citando frases latinas (vade retro, et cum espiritu tuo, data venia, dominus vobiscum, in vino veritas, revertere ad locum tuum, similia similibus curantur et coetera) levou-a ao êxtase, seguido de um curto desfalecimento, apesar dos desconfortos iniciais. Quando voltou radiante à casa de sua patroa com uma falsa aliança no dedo, esta começou a desconfiar dos fatos contados. Observou, com o passar do tempo, os seios de sua ingênua ajudante a entumescer e seu ventre a arredondar. Alguns meses depois um anjo foi parido. Jornada Pânfilo: Na qual se fala de quem tenha realizado algo, com liberdade, ou até com magnificência, em relação a casos de amor, ou de outra coisa. Eram três amigos inseparáveis, adolescentes, numa pequena cidade do interior do país. Trocavam idéias filosóficas, discutiam literatura e cinema, declamavam poemas, sempre com a noite entrada em sua inteireza. Acompanhavam-nos uma garrafa de Cinzano e cigarros Continental. Os encontros se davam no alto da barreira da igreja matriz. Chegaram a uma conclusão: só o amor de uma mulher é capaz de mitigar ou superar as dúvidas existenciais, a tragédia humana e a solidão cósmica. Assim viviam, em papos intelectuais, a especular sobre a vida e o depois dela. Eram três tristes tigres infantes, exilados em sua própria cidade, desocupados, desorientados, tendo terminado o curso básico naquela terrinha sem faculdades e nenhum futuro. Fizeram um trato, um pacto. Se, por alguma razão não encontrassem o seu grande amor, seria preferível dar fim à existência. Não sei exatamente se vieram a perder suas namoradas ou se nunca conseguiam chegar às musas eleitas. Quem ganhava as mais belas meninas da cidade eram sempre os filhos de papais-ricos, de boa família, que retornavam da capital, onde cursavam a faculdade, em gozo de férias. Morreu Rigoberto, que pulou da barreira em noite de lua. Findou-se Salustiano, que se envenenou com formicida Tatu. Restou Taumaturgo, que se tornou um afamado novelista de renome nacional. Se non e vero e bene trovato. Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
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