JORNALEGO
ANO III - Nº 93, em 30 de
Janeiro de 2005.
Ficção
BOA CONVIVÊNCIA
Ele,
seguro de si e senhor da situação, tem convicções cristalizadas sobre vários
assuntos que, com autoridade, faz desaguar torrencialmente sobre minha timidez
em nossos freqüentes encontros. Tem rígidos princípios religiosos. Desde a
existência de Deus, eterno criador do Universo, até a certeza da imortalidade da
alma na Sua Santa Glória ou na danação nos quintos dos infernos. Não freqüenta
regularmente a igreja, mas considera muito importante ter uma religião.
Católico, ma non troppo. Tem uma queda pelo
espiritismo. O Allan Kardec, de quem não leu nada, só por ouvir dizer, deu uma
racionalizada na complexidade dos mistérios da vida. “Reencarnação é uma questão
de justiça”, repete o que leu num plástico colocado no pára-brisa de um carro, o
que me parece um tanto contraditório com outros de seus credos. Não confia em
políticos. Considera quase todos corruptos. Preocupam-se mais com os seus
benefícios pessoais, legislando sempre em favor do aumento de seus ganhos e
gratificações e participando de falcatruas e maracutaias. Diz que não vota nunca
mais, embora sempre vote e discuta acaloradamente nos períodos eleitorais.
Escolhe seu candidato sem se preocupar com as plataformas políticas dos partidos
ou a postura partidária. Procura aquele que tenha nível, estampa, fale bem, com
ensino superior, de boa cepa. Embora despreze o papel dos partidos,
coincidentemente sempre vota em candidatos das agremiações de direita. Para o
Brasil, um governo forte seria o ideal. Mas com bons propósitos, é claro. Um
déspota esclarecido; ousei pensar. Nosso Congresso Nacional, essas Assembléias
Legislativas, Câmaras de Vereadores são uma vergonha nacional. Uma corja de
vagabundos. A Justiça também não fica atrás, está cheia de corruptos. Literatura
é coisa para literatos. Ratos de bibliotecas. Não lê contos, poemas, romances. A
rigor não é dado à leitura de livros. Atem-se a informações da mídia escrita e
televisionada. Gosta de fatos, realidade, nada de ficção. Não freqüenta cinemas.
Vê filmes na TV. Prefere os filmes de ação americanos. Não vai a teatros. De vez
em quando assiste a espetáculos musicais. Balé, lógico que não, isso é coisa de
mulher e de viado! No quesito música gostava muito de Chico Buarque na sua fase
inicial e romântica. Depois complicou muito. Caetano? Muito cerebrino. Adora
Jobim, Cartola, Pixinguinha, samba e chorinho, o que mostra um certo bom-gosto.
É saudoso da bossa-nova. Que bom! Não consegue se ligar em música erudita, isso
é coisa para intelectuais. Aliás, esta palavra – intelectual – lhe causa
repulsa. É coisa de malandro. Quem sabe faz, quem não sabe ensina, caga regras.
Considera-se capitalista visceral. Abomina essa corja de sindicalistas e não
quer nem ouvir falar em movimentos populares reivindicatórios. Venera os Estados
Unidos tendo-os como paradigma de humanidade. Derrotaram as pragas do século
passado: o nazifascismo e o comunismo. Elogia a visão de negócios, pragmatismo,
inteligência do povo americano, dos seus líderes e dos seus fundadores. Lá tudo
funciona, a justiça, o trânsito, até a burocracia. Viajou pelos Estados Unidos
de costa a costa, embora do inglês só conheça algumas palavras. Conhece mais a
grande nação do norte do que o Brasil; vangloria-se. Já fez as grandes cidades
da Europa, é claro! Da América Latina conhece Buenos Aires, de passagem para
Bariloche. O Estado é incompetente e principal fonte de corrupção. Embora, como
empresário, tenha enriquecido à sombra dele, eventualmente tendo corrompido
alguns políticos, funcionários públicos ou empregados de estatais. Não se dá
conta de que sua educação – do primário à universitária – foi toda feita em
escolas e faculdades do Estado. De muito bom padrão. O governo deveria se
limitar às suas funções precípuas (!) e deixar de se meter nos negócios e
atividades produtivas. De preferência com baixa carga de impostos. Talvez o
ideal fosse a criação de um imposto único. Sem se preocupar com o quê exatamente
seja isso ou sua viabilidade. O bom mesmo para o país seria um
presidente-empresário, bem-sucedido, um homem empreendedor. Por exemplo: Antônio
Ermírio de Moraes. Antigamente citava o Maluf. Sem explicações mais convincentes
é contra o Mercosul e a favor da Alca. Talvez porque não simpatize com nossos
vizinhos sul-americanos, que alcunha de cucarachos (sic), especialmente os
argentinos. Fala mal da colonização portuguesa. É a favor da pena de morte. A
impunidade é a principal causa da violência. Não acredita em recuperação.
“Bandido bom é bandido morto”. Temos que nos livrar desses contraventores,
seqüestradores, estupradores e que tais. Violência urbana e rural é caso de
polícia. Agora vem o Governo querendo desarmar os do bem e deixar armados os do
mal. Não me venham com essas explicações de cunho sócioeconômico. Coisa de
sociólogos e economistas. Por falar nisso, acha os economistas uma doença
nacional. Ainda bem que colocaram um médico no Ministério da Fazenda. Que anda
cercado de economistas, merda! Apóia as iniciativas americanas em represália ao
terrorismo internacional. Acredita na disseminação da democracia pelo mundo
através dessas iniciativas, que considera corajosas. Uma oportunidade única.
Analisava a política, no final do século passado, de um prisma maniqueísta:
comunistas versus democratas. EUA x URSS. “Esses esquerdinhas deveriam ser
mandados para Cuba, para ver o que é bom pra tosse”. Atualmente, o inferno da
vez é o terrorismo internacional. Homossexualismo é viadagem. Pouca vergonha.
Safadeza. “É de menino que se torce o pepino”. Tá faltando severidade na
educação das crianças. Olha essa epidemia de aids! Sobre lesbianismo arrisca um
comentário machista. Se uma mulher já é uma coisa sensual imagine duas juntas!
Brinca. Gosta de repetir a piada de que seu lado feminino é lésbico. Outra
frescura é essa tal de preservação do meio-ambiente, da flora, da fauna etc.
Reservas florestais é o cacete! Tanto local bonito para explorar o turismo. Ora
pô, pra que tanto animal? Pra que servem os micos-leões dourados? E as
tartarugas marinhas? É por essas e outras que o Brasil não vai pra frente! Quem
nasceu para a esculhambação do fórum social de Porto Alegre nunca chegará à
organização do fórum econômico de Davos!
Eu
ouço e calo.