JORNALEGO
ANO III - Nº 89, em 20 de
Dezembro de 2004.
Ensaio
EDUCAÇÃO SENTIMENTAL
O título acima foi tomado de um
livro de Gustave Flaubert que li recentemente. Ao adotá-lo neste ensaio
demonstro como apreciei a leitura do romance. Nesta oportunidade, vou tentar
fazer uma síntese do meu entendimento sobre o tema. Também me motivou uma
pequena e cordial discussão entre amigos sobre política e sociedade.
A rigor, toda educação é emocional.
Nada fica sedimentado em nosso íntimo a não ser através das emoções.
Paradoxalmente, não existe este tipo de educação no sentido restrito do termo,
dado que não se ensina a ninguém a sentir. Educação sentimental é aqui
compreendida como a experiência adquirida ao longo da vida de cada pessoa,
produto de suas emoções, alegrias, prazeres, frustrações, dores, perdas e
ganhos, considerando o pano de fundo do aprendizado escolar e técnico, a
cultura, o meio, enfim tudo aquilo que se cristaliza na maturidade emotiva e
intelectual de cada ser.
O livro de Flaubert versa sobre o
amor e o poder. Nossa procura incessante por esses valores que, freudiana e
etimologicamente, estão imbricados. Haja vista que a palavra potência
freqüenta essas duas faces da felicidade. Mais importante, o livro mostra a
inacessibilidade ou a transitoriedade de tais conquistas. Nesse jogo de lutas,
vitórias e derrotas, é que se forja a educação sentimental das pessoas.
Acredito que esta educação atinge
seu objetivo quando alguém aprende a decodificar as aparências que lhe são
servidas, como também os ensinamentos ministrados ao longo da sua vida. Trata-se
de um processo de separação do joio do trigo.
Ainda me lembro, passados tantos anos, de uma
fala da peça teatral “No Natal a Gente vem te Buscar”, de Naum Alves de Souza. A
personagem era uma velha solteirona e ranzinza, protagonizada por Marieta
Severo, frustrada ao final de sua vida, ironizada pelos sobrinhos. Dizia: –
“Onde errei? Fiz tudo como me ensinaram!”
Durante a vida somos bombardeados
por uma enxurrada de ensinamentos, informações, propagandas, doutrinas,
conselhos, histórias que, na ausência de um melhor descortino, dificultam o
discernimento do que seja a vida em geral e em particular. O idealismo romântico
é um obstáculo a ser transposto. “Pensar positivo; vai dar tudo certo; quando eu
ganhar na loteria”, são posturas que na maioria das vezes frustram seus
seguidores. Quanto maiores forem as ilusões maiores serão as decepções.
Quanto maior a esquizofrenia – aqui
entendida como o afastamento do ideal em relação ao possível e ao real – maiores
as conseqüências danosas ao próprio corpo, dos males físicos até a danada da
depressão.
Outro problema é a visão religiosa
das coisas, a espera de um milagre e da salvação. Nesse particular, destaca-se a
tentativa de driblar a morte com as mais inventivas especulações sobre a
continuação da vida em outras dimensões. A religião pode ser muito importante
como expediente comportamental individual. Pertence ao campo da moralidade e não
serve para solucionar problemas de ordem política, embora seja muito usada para
isso. Aí deve prevalecer a ética. Quando empregada com fins políticos pode gerar
extremismos como a Santa Inquisição e os fundamentalismos cristão, judeu e
islâmico dos nossos dias. A religião serve para auxiliar pessoas que precisam de
apoio. Também não convence para explicar nossa origem e nosso devir.
Nossos problemas políticos e
sociais não se resolvem com evocações religiosas e análises simplistas, como a
atual moda maniqueísta que divide a sociedade em dois lados, o bom e o mau. Os
do bem e os do mal.
São tantos os homens e mulheres
avançados em idade com comportamentos infantis, mentes fantasiosas e atitudes
totalmente lúdicas. Eternos Peter Pans e Cinderelas. Pedros pedreiros
esperando, esperando... Maria, marias à espera do grande amor.
Confiantes em penduricalhos, amuletos, símbolos religiosos, todos a expressão da
mais terrível superstição. Deseducados sentimentalmente.
Afinal, o que será uma pessoa bem
educada nesse campo? Diante dos mistérios inescrutáveis da vida, acredito que
seja aquela que, dispensando a fantasia, tem uma melhor lucidez do fenômeno
humano e de sua inserção no universo, que tenha atingido a humildade de assumir
sua ignorância de que nunca terá respostas completas sobre aqueles mistérios,
tolera (em termos) aqueles que sabem a explicação de tudo e os que, por
características próprias e necessidades especiais, não podem encarar a luz de
frente. E, principalmente, assume sua transitoriedade, sua finitude, sua
insignificância.
O risco que corro nesta
oportunidade é ver este texto tachado de auto-ajuda (ou desajuda?), num
assunto que não comporta, como já disse, ensinamentos prontos. São entendimentos
pessoais (de um assunto complexo que não se presta a análises simplistas e
curtas) que quero compartilhar com meus leitores. Eventualmente discutir com
eles. Talvez, quem sabe, sejam reflexos da ressaca provocada por este temporal
flaubertiano que passou deliciosamente por mim.
Só a vida educa. A literatura ao
nos fazer viver ou testemunhar tão intimamente tantas vidas, além de nos levar a
pensar sobre a própria, faz parte importante desse processo de educação
sentimental.