JORNALEGO
ANO III - Nº 88, em 10 de
Dezembro de 2004.
Verso e Reverso
TRANSBORDAMENTOS
“Ela diz não,
mas depois vem o bom do amor, o talvez, e depois diz que sim, como toda mulher”.
Vinícius de
Moraes
A espinha engasgada cuspiu-se.
A lágrima contida carpiu-se.
O filho gerado pariu-se.
O segredo guardado contou-se.
O grito calado berrou-se.
A dor de ser só finou-se.
A vontade se deu então.
Virou ação.
A poesia se fez em versos.
Virou poema.
Os lábios, em beijos, tocaram-se.
Os braços, em abraços, trocaram-se.
Os corpos, em êxtase, tomaram-se.
O gozo se fez orgasmo.
O amor foi tanto.
O ardor foi tanto.
Que o corpo, portanto, não conteve.
O que a morte, no entanto, não deteve...
... A vida,
transbordando,
transcendendo.
PRESSENTIMENTOS
“Ela
diz sim, mas depois vem o mal do amor, o talvez, e depois diz que não, como toda
mulher”.
Vinícius, ao
espelho.
Pressinto.
Mais que isso, sinto.
Sofro!
Pressinto. Sinto.
A sua partida, lentamente, pouco a pouco.
Como a água que se escoa por entre os dedos das
mãos em concha...
... depois de sorvê-la.
Furtivamente.
Como quem bebeu em fonte alheia.
E conheceu seu sabor.
Sua pureza.
Sua frescura.
Sua beleza.
Bálsamo revitalizante.
Maravilha curativa.
Vinho reconstituinte.
Embalados num corpo de mulher.
Lindo. Linda.
Não vejo como estancar o sangue novo que se
esvai.
Como retê-lo, se o organismo não mais o contem.
Como retribui-lo, se ele exige juventude,
ânimo, mais vida.
E eu só a oferecer minha querência, minha
carência.
Sofro! Como dói!
Encontro algum alívio no refúgio da fantasia e
dos sonhos.
Na imensa lembrança do que passou, numa pequena
nesga de esperança.
A esperança de retê-la mais um pouco.
Como se estivesse querendo conter o tempo.
Porque pressinto, sinto mesmo.
Que depois que ela se for...
... vem o frio.