JORNALEGO
ANO III - Nº 86, em 30 de
Outubro de 2004.
Conto
EROS
& ONÃ
Quando abriu a página central do
suplemento literário do seu jornal de domingo quedou-se estupefato. Uma
fotografia em preto e branco de um rosto de mulher lhe causou profundo impacto.
Ilustrava uma entrevista sobre assunto de especialidade da fotografada.
Um simples rosto em preto em
branco! Nada como fundo. Os limites inferiores da foto não iam além da mostra de
uma nesga de pescoço, sem colar, saindo de uma gola curta de tailleur de cor
clara que cobria parte da nuca. Os braços deveriam estar cobertos por mangas
compridas da vestimenta formal. A foto assim sugeria, pois nem sequer mostrava
os ombros. Enfim, só o belo rosto enquadrado. Sem retratar mais nada. Deduzia-se
a sobriedade da veste que não comportava qualquer veleidade de decote, qualquer
possibilidade de mostrar um colo feminino.
Cabelos escuros e curtos,
penteados com apuro, cobrindo parte da testa alta, presos por trás de lindas e
delicadas orelhas furadas permitindo a exposição de singelos e minúsculos
brincos de ouro. A postura da cabeça revelava o porte altivo. Olhos atentos,
olhar penetrante, nariz de suaves contornos, sobrancelhas naturais e cheias,
pele alvíssima e jovial desde a pequena extensão à mostra do pescoço esguio.
Lábios de Iracema.
Uma senhora donna, na glória dos
seus quarent’anos!
Depois de alguns minutos de
estupefação imaginou-a divorciada, mãe de dois filhos adolescentes, autoridade
em sua profissão, culta, inteligente, admiradora de literatura, cinema e música.
Voz clara, suave, maviosa com um leve sotaque hispânico.
Convidou-a para sentar-se ao seu
lado no sofá da sala declarando-se imediatamente apaixonado. Acionou o controle
remoto do aparelho de som que lhe atendeu com sonatas de Beethoven, executadas
ao piano e violoncelo. Serviu-lhe um sherry gelado.
Conversaram sobre a Amazônia e seu
país de origem. Desviaram o assunto para o inebriante Brasil, sua atual
residência. Passaram rapidamente pela literatura em geral, latino-americana em
particular, as expectativas do novo século e... crianças.
Ao servi-la pela segunda vez tocou
de leve seus longos dedos. Teve uma sensação de choque. Saudou novamente a
visitante. Bebericaram. Pousou seu cálice na mesinha de centro. Fez o mesmo com
o de sua acompanhante, livrando-a assim as mãos, que tomou em seguida.
Seu perfume discreto incentivava a
ousadia. Segredou alguma coisa banal a pretexto de chegar mais perto ao seu
rosto e sentir o cheiro da nuca.
Surpreso, sentiu receptividade.
Deu-lhe um beijo nas faces levemente coradas pelo clima e pelo xerez. Ambos
sorrindo do assunto bobo sussurrado aos ouvidos tocaram suas bocas. Lábios se
abriram num movimento sensual. Ela a lhe entregar a língua úmida. Boca na boca,
mãos viris a afagar cabelos e rosto, assim ficaram por alguns minutos. Numa
ousadia maior levou suas mãos às rijas pernas, sem meias, suspendendo um pouco a
barra da saia justa que já lhe concedera a visão de coxas roliças. Apalpou os
seios por sobre o vestido. Concentração total!
Num rompante, ela se afastou um
pouco de seus braços, desabotoou o casaco deixando à mostra lindos peitos
amparados por um finíssimo e sumário sutiã. Disse cheia do prazer de sentir-se
desejada: “Tomai o meu corpo. Fazei isso em nome da tua paixão.” Abraçando-a
imediatamente, com carinho e destreza livrou-a da fina lingerie que sustentava
seus seios e perdeu-se mergulhado num vale de túmidos relevos e róseos botões.
“Bem-vinda és tu entre as
mulheres”, disse em sussurro aos seus ouvidos enquanto desnudavam-se. Pegou-a
como quem pega a rosa pelas pétalas orvalhadas...
... num prelúdio do pas de deux amoroso.
Suavemente continuaram a se amar em silêncio, entrecortado de respirações
sôfregas e gemidos contidos. Minutos se passaram quando ouviu num idêntico
sussurrar, uma exclamação, quase inaudível, perfeitamente entendida: “Meu deus!”
No que ele imediatamente repetiu: “Meu deus!”
Permaneceram abraçados por um
longo tempo, ambos silentes e imóveis entrelaçados por braços e pernas. Chegaram
a cochilar um pouco num desfalecimento reparador.
Ainda ficou a contemplar a foto no
jornal escancaradamente aberto à sua frente. A seguir, refeito, virou a página
do suplemento e continuou lendo as resenhas dos mais novos lançamentos
editoriais.