JORNALEGO
ANO III - Nº 85, em 20 de
Outubro de 2004.
Continuação da série Vida e
Mote (III)
“A
banalidade do cotidiano é, nela mesma, um acontecimento surrealista”.
A VIAGEM
À
cata de personagens o autor sai em andança. Não quer confiar exclusivamente em
sua mente no processo de criação dessas figuras ficcionais para que os amigos
não as associem a pessoas conhecidas. Não sei se notaram, também quer
estabelecer distinções claras entre ele e o narrador. Tem horror à síndrome de
Zuckerman, denominação dada por Rubem Fonseca à confusão que geralmente se faz
do autor com o narrador ou com um dos personagens. Ele acha, por fim que, o
leitor, como participante ativo do fenômeno literário – pois também é criador –
passa a ser parcialmente responsável pelas interpretações do texto lido.
Assim, ele, o autor, sai para a caçada direto
por Brasília, depois Belo Horizonte, a seguir Goiânia. Dali vislumbra a pequena
Niterói. Num pulo alcança Goiás, passa por Santa Catarina e chega a São Paulo.
A partir daí, nesta ordem, cruza Rio Grande do Norte, Bahia, Pará, Maranhão,
Pernambuco, Piauí e Ceará. Sempre atento volta pelo litoral.
O que vê nesse périplo pelas ruas de seu
bairro? Inicialmente, uma menininha caprichosamente vestida para a aula de balé.
Faltam alguns minutos para as dez da manhã. Muito bem penteada, os cabelos
puxados e enrolados num coque atrás da cabeça, presos por uma rede. Usa malha
escura, meias-calças transparentemente leitosas e nos pés as indefectíveis
sapatilhas. Está a andar de patinete na calçada de piso irregular de pedras
portuguesas enquanto espera a mãe que, aflita, surge da garagem subterrânea do
prédio e apressa a filha para entrar no carro. A menina vem carregando o seu
brinquedo. Agora é a patinete a andar de menina. Caminhando em passos lentos, o
autor as encontra novamente na próxima rua, paradas em frente a um prédio
esperando uma coleguinha. As mulheres estão sempre atrasadas! A mãe motorista
buzina nervosamente. A outra mãe ainda não chegou à portaria do prédio com sua
filha. Por certo já teria sido avisada por telefone. Chega agora quando ele
dobra a esquina para outra rua. O carro sai em disparada.
A primeira menina é cheinha de
corpo com as barras da calcinha saindo por sobre a meia-calça, por sob a malha
colante. Tem um ar distraído. Ela tem cara de Pryscilla, com ipsilone e dois
eles. Sentou-se no banco da frente e não coloca o cinto de segurança. Sinto
muito. Dupla infração. A segunda, a coleguinha, é magrinha de pernas finas, ar
esperto, registra a passagem do senhor careca com alguns poucos cabelos brancos,
bermudas e chapéu. Ela não sabe que ele é careca, o chapéu cobre-lhe o cocoruto!
Recebeu dele um sorriso e um piscar de olhos. Respondeu com um leve movimento
dos lábios, travesso e cúmplice, de quem estava segura de estar chamando a
atenção em sua roupa de dançarina. Poderosa como toda a mulher que se sente
bem-vestida entrando numa festa. Ou envergonhada, sei lá. Lembra Olívia Palito
do Popeye. Senta-se no banco traseiro e também não passou o cinto de segurança.
Seu nome, por certo, é Raphaella, com ph de pharmácia e dois eles.
Como pode ter acontecido essa
troca de olhares, este detalhamento da figura da Raphaella, se o autor já
dobrara a esquina logo que percebeu que ela chegara com sua mãe à calçada do seu
prédio?! Excesso de imaginação, por certo!
Não têm sequer dez anos de idade. São filhas
de família de classe média alta. Estudam num conceituado colégio religioso da
cidade. Seus pais têm boas colocações profissionais. Dos homens, por suposto, um
é engenheiro de uma grande empresa e o outro publicitário. Das mulheres, uma é
juíza a outra dona de casa. Conheceram-se jovens, cursando juntas o mesmo
colégio e o curso de direito. Como se viu, uma delas não leva jeito para
advogar. A primeira, depois de entregar as meninas no balé vai para o trabalho.
A segunda, volta aos afazeres domésticos para depois buscar a filha e a
amiguinha. Por que não?
Os maridos sonham com suas carreiras
profissionais e com as respectivas situações financeiras e patrimoniais. Não
seria novidade se os casais viessem a se separar seja lá por que motivo. Os
casamentos costumam durar por inércia ou costume. Pelos filhos ou pelo
patrimônio. Pela dependência financeira de uma das partes, geralmente as
mulheres. Como de hábito, agora e sempre. Elas vão fazer plástica de rosto,
possivelmente de busto e de outras protuberâncias. Sonham sempre com o grande
amor de suas vidas, que pode ser inclusive o marido, depois de uma bem-sucedida
discussão da relação. Acabarão se frustrando, caindo possivelmente na armadilha
da depressão. Faz sentido.
Continuando a caminhar pelas ruas do bairro,
na amena manhã nublada de primavera, depara-se com uma moça acompanhando uma
garotinha que acaba de sair da aula de natação. A menina está com ar de quem
sente frio, mas está devidamente protegida com um roupão vermelho que lhe chega
aos pés. Tagarela animadamente de volta para a casa, onde e quando os deveres
escolares vão disputar a atenção com Xuxa e os desenhos animados do Cartoon
Network.
Na beira do calçadão juntam-se no playground
público dois grupos. Um é o das babás, o outro das jovens mães que levam os
bebês para brincar na areia da praia. As babás substituem as mães que exercem
atividades profissionais fora de casa ou simplesmente estão ainda a dormir. As
mamães são donas de casa ou ainda no gozo de licenças de maternidade e
aleitamento.
A vizinhança por onde passa o autor é calma. A
violência existe, mas não está à vista. O centro nervoso, comercial e financeiro
da cidade, está mais afastado. Assim como os bairros de periferia, os de classe
de renda mais baixa. A vida é calma e passa depressa.
Depois de encontrar as crianças e fazer esses
singelos registros, já de volta da caminhada, pensa na possibilidade delas
envelheceram três a quatro décadas, para dar curso às suas pretensões
literárias.
Depois de muito pensar resolveu não mexer com
elas. Vai deixá-las como são e estão, intactas na sua idade. Graciosas.
Dispensando-lhes, como personagens, as turbulências da adolescência e as agruras
da idade adulta. Flagra unicamente o instante.
A vida delas já se sabe como será. Todo idoso,
mais experiente e com alguma lucidez, o que implica ausência de idealismo
romântico, sabe como as vidas são e serão. As variações são mínimas. Não mudam
muito.
Chegou ao fim, neste clima de anticlímax, sua
viagem particular. O autor acaba de dar a volta em seu pequeno mundo, cada vez
menor. Enredou o leitor num enredo sem sentido. Como sem sentido é a própria
viagem. Dispensou a mim, o narrador.
Amanhã é também dia de viajar aos dias vazios
de sempre.
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O mote (em negrito no início do texto) é de
autoria de Wilson Martins, em Momento do Conto, Suplemento Prosa & Verso, de O
Globo de 02.10.2004.