Jornalego
|
|
|
JORNALEGO ANO III - Nº 84, em 30 de Setembro de 2004. Continuação da série doravante denominada Vida e Mote (II) “SOY LOCO POR TI AMERICA” Quando aqui aportou, há pouco mais de quinhentos anos, desencadeou-se uma das maiores revoluções da humanidade. Ave Cristóvão Colombo, nomes incrustados das figuras do Cristo e Paz! Imaginem o que seria desembarcar agora num planeta vivo, habitável, bonito, rico, imenso! Foi quase isso. Logo ali, ao largo d’África. Novo Mundo, disseram bem! O velho, caquético e esclerosado mundo se renovou. As cabeças se abriram como a descobrir uma nova porção encefálica ainda não utilizada. Culturas avançadas – inca, asteca, maia – tribos norte-americanas e centenas de nações indígenas ao sul do continente, seus costumes variados e valiosa sabedoria. Que riquíssima sociodiversidade! Que pujante biodiversidade! Que clarão para a humanidade! Portugal, Espanha e Inglaterra quedaram-se extasiados diante das maravilhas e desafios do mundo desconhecido. Incompetentes para, do outro lado do oceano, administrarem essas terras e seus povos, além de conter a ambição dos vizinhos europeus. Restaram-lhes o povoamento pelo branco europeu e a exploração da natureza, incluindo os ameríndios. Para isso recorreram à importação de negros escravos do outro lado do Atlântico. A metade do tempo transcorrido entre a descoberta e os dias de hoje foi passada nesta condição subalterna aos velhos descobridores e donos do mar. Em meados do século XVIII “o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu do continente nesse instante”. Idéias libertárias e democráticas brotaram nas cabeças dos povos e das novas lideranças que vão deflagrar os movimentos de independência no século seguinte. A jóia das coroas era um país sem nome que levou o seu: América. Os Estados Unidos que o compõem é uma figura jurídica, como República Federativa ou Popular e Confederação. Seu nome era América. O único país do Novo Mundo a incorporar o nome do continente da esperança. Seu povo, o americano! Assim era no imaginário de europeus e orientais. No dos latino-americanos também. Seus destemidos guerreiros, seus grandes pensadores, seu povo – com a grande colaboração dos imigrantes, incluindo os africanos – passaram a se constituir na grande aventura do mundo ocidental. Antes de qualquer nação do novo continente, antes mesmo da grande revolução burguesa da Europa – a francesa de 1789 – este país se torna independente, em 1776, e asperge sobre o mundo a água benta da liberdade, da democracia, da república, da ascensão dos povos sobre cabeças coroadas, oligarquias sedimentadas e líderes tirânicos. God bless America! Todos se voltam para o norte do continente americano na intenção de seguir seus exemplos. Difunde-se um ideal, uma vontade, uma ação. Às guerras de independência, seguem-se as de conquista do outro lado do continente. Ao oeste tomam-se terras ao gentio, ao sul incorporam-se terras dos vizinhos mexicanos. São os alvores do império. O capitalismo nascente, a revolução industrial, o ousado espírito empresarial, a mais nova forma de energia, o petróleo, consolidam seu progresso. Complementares às guerras de conquista, os conflitos mundiais servem para implantar sua hegemonia mundial. Nossas vidas passaram a ser fortemente influenciadas pela cultura norte-americana. Seu idioma. Sua música. Seu cinema. Seus costumes. Sua literatura. Foi imensa a contribuição deles para a arte, a tecnologia, enfim, o progresso da humanidade. Na época de uma indústria incipiente brasileira éramos consumidores de quase tudo “made in USA”. Do camonebói aos automóveis. Da Coca-Cola aos processos industriais de ponta. Siderurgias e refinarias. Torcíamos pelos aliados, pelos soldados americanos, contra o Eixo e suas esdrúxulas doutrinas. Humilde e bravamente, juntamo-nos a eles nos campos de batalha. O espetáculo pirotécnico dos cogumelos atômicos no Japão impôs a paz no Extremo Oriente. A única nação a usar artefatos nucleares contra populações civis. Aproximadamente 200.000 pessoas foram mortas em Hiroshima e Nagasaki, de agosto até o final do ano de 1945. Que ironia! A guerra já terminara no Ocidente em maio do mesmo ano. Foi uma demonstração de força a um novo perigo que se alevantava. Porque no meio do caminho tinha uma pedra. O comunismo emergente da antiga aliada, a União Soviética, e mais tarde da China. As guerras fizeram surgir a potência. Com sua moeda, fiel do sistema financeiro, com o poder colonial a se desfazer no mundo com a ajuda do inimigo comunista, uma nova situação de mando se instaurou. O colonialismo econômico-financeiro-tecnológico. O perigo vermelho equilibrou o poder no contexto mundial, mas, em pouco mais de meio século é sobrepujado ou, alternativamente, de alguma forma cooptado. A potência econômica e financeira, o aparato militar (a despeito de alguns fracassos nos campos de batalha e político – Vietnam e Cuba), a vanguarda tecnológica são as bases do mais novo império, da mais recente hegemonia mundial, como nunca se viu em toda a história da humanidade. A potência tem fome, tem sede de poder. Estende os tentáculos por todas as partes. Intromete-se especialmente no Oriente Médio em busca de petróleo que escasseia nos seus territórios ou em fontes mais confiáveis. Vai à luta. Mata. Fomenta a violência. O império ruge. Em nome dos mais nobres propósitos guerreia: armado dos escudos da liberdade, da democracia, do combate ao narcotráfico e da defesa do meio ambiente mostra suas garras. Por outro lado do discurso não assina o Tratado de constituição da Corte Internacional de Justiça da ONU para julgamento de crimes hediondos contra a humanidade. Transforma-se numa democracia passível de fraudes como a da última eleição presidencial. Maior mercado consumidor de entorpecentes. Nação não-signatária do Protocolo de Kioto contra o aquecimento global. Desenvolve pesquisas tecnológicas na área nuclear e tenta impedir que outros países as façam visando fins pacíficos. Das possíveis reações a este estado de coisas restou o terrorismo, cujo ápice lamentável foi o ataque ao coração do território americano – Nova York e Washington – de 11 de Setembro de 2001. O terrorismo injustificável fez escola no rastro de um autoritarismo exemplar. A Rússia seguiu-lhe os passos. Gerou o morticínio de Beslan. A contrapartida igualmente lamentável foi o cerceamento das liberdades individuais, o alastramento do terrorismo internacional, a perspectiva do apocalipse. As invasões ao Afeganistão e Iraque, sem o consentimento da ONU, desacreditando a instituição. Em qualquer trajetória o apogeu marca o início do declínio. A admiração inicial transforma-se em decepção. O século XXI pode vir a se caracterizar pelo enfraquecimento da multilateralismo sob a égide de uma organização supranacional, a fragilização da autodeterminação dos povos, a quebra das liberdades individuais. A sanha imperial aumentou o poder de fogo do regime econômico-financeiro capitalista institucionalizando o estado neoliberal, difundindo a ferro e fogo o seu conceito de liberdade e de vida, consumista e não solidário. Não há futuro por este caminho unilateralista. Se a população chinesa, com sua economia crescendo como está, vier a ter os mesmos padrões de consumo energético dos americanos, o planeta sucumbirá à poluição ambiental. Num espaço de uma vida, como se deteriorou a esperança! Eu mesmo fui testemunha da aurora de uma nova era. O meu legado pode estar no pessimismo deste final de página. Estamos todos envolvidos com o que acontece no Império. Resta praguejar ao símbolo máximo e atual desse estado de coisas. God damn Bush! -----------------------------------------------------------------------------O mote: “No amor e na guerra, não há juiz”. “Mas há vencedor e vencido”. “Ainda ofegante, eu piso, você cala, eu quero bis”. Do poema “O Pé Sobre o Dorso” de Leandro Wirz, recentemente publicado no Suplemento Literário Pensar, do Correio Braziliense.
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
|
|
|