JORNALEGO
ANO III - Nº 83, em 20 de Setembro de
2004.
Crônica
MOTE ( I )
[Com este título pretende-se iniciar uma série.
A história é desenvolvida a partir de um verso, uma frase, um acontecimento, uma
idéia original qualquer, registrados em negrito no corpo do texto].
Confessou que eu era o seu único companheiro de
infância com quem ainda mantinha um bom relacionamento e de quem recebia
tratamento amigável. Fiquei bastante lisonjeado, embora discordasse do
merecimento desta afirmação. Ao longo de nossa vida nunca cheguei a ser fiel à
sua amizade, como se notará mais adiante.
Todos se esquivavam dele ou, quando muito,
tangenciavam-no num contato rápido e superficial. Teve e ainda tem várias
amigas, contudo, sem nenhum envolvimento amoroso.
Sempre fora tímido, circunspeto,
reservado, enfim, esquisitão, ou rotulado com um desses horríveis apodos que se
dá a pessoas diferentes da normalidade aceitável.
Não lhe darei um nome; fica assim,
a exemplo do “amor que não ousa dizer seu nome”.
Não sei porquê se abriu comigo, ele
sempre tão calado. Foi no nosso último encontro. Mantínhamos contatos com alguma
freqüência depois que voltei para a nossa cidade natal, aposentado. Senti
necessidade de escrever a seu respeito agora que ele se foi. Morreu há pouco
tempo, solitário, na flor da vida sexagenária, em seu apartamento alugado de
sala e quarto, no centro da cidade, de morte ainda não devidamente esclarecida.
Fomos colegas de colégio até eu
entrar para a universidade, quando fui estudar fora. A partir daí cada um tomou
o seu rumo. Ele participou de espetáculos teatrais sempre como coadjuvante,
ajudante de figurinista e de cenarista ou contra-regra. Nunca chegou ao
proscênio. Mais velho conseguiu usar seus dotes culinários de autodidata como
chefe de cozinha de um restaurante pretensioso de classe média. Jamais saiu da
cozinha.
A não ser bem pequeninos
brincávamos juntos. Logo, nossas brincadeiras nos separaram. Eu nas peladas de
futebol, ele nos folguedos domésticos.
Dispensava-lhe, na nossa adolescência, uma
atenção formal. Nossas famílias eram muito chegadas. Ele não fazia parte dos
meus grupos de amigos. Imagino o quanto tenha sofrido com o nosso desprezo,
colegas de sua própria sala de aula. As piadas e as chacotas, que por certo ele
percebia, eram partilhadas por mim quando estava imbuído do espírito da tribo.
Ele freqüentava as rodinhas das meninas.
Nos últimos meses, solitário, vivia
seus dias de desempregado, sem companhia, amparado em suas poucas necessidades
pela irmã mais velha, às escondidas do marido, um velho gagá que nunca admitiu a
presença dele em sua casa. Sempre muito pacato jamais se revoltou contra nada.
Não tinha ódio, rancor, mágoa de ninguém. Vivia amargurado pela hipocrisia da
sociedade que o rechaçava.
Culto, lúcido, adorava poesia.
Religioso à sua maneira, era fissurado nos mistérios da vida. Seu divertimento
maior era freqüentar cinemas quando lhe sobrava algum dinheiro. Ultimamente,
muitos de nossos papos versavam sobre filmes, geralmente os mais antigos. Vivia
geralmente em casa, recluso, vendo televisão. Lendo e relendo velhos livros.
Escutando velhos discos de vinil.
Sua revolta era contida, sofrida,
introvertida. Nem por isso deixou de externar o que lhe vinha na alma, numa
única e derradeira vez, quando do seu reconhecimento pela minha amizade
discutível.
“Sou assim. Não pedi para ser
assim. Que culpa tenho eu? A ciência, a genética e a psicologia ainda não
chegaram a uma conclusão a respeito. Por que tanta discriminação? Dizem que sou
assim por opção. Por acaso eu optei por ser deste jeito? Jamais faria tal opção.
Essa é uma condição inata ou cultural em que eu fui absorvendo sem ter domínio
sobre o processo. Seja na vida uterina ou na infância”.
“Conheço e aprovo o posicionamento político de
pessoas como eu, assumindo sua condição. Eu não tenho essa coragem. Admiro quem
a tenha e acho que estejam corretas. São mais felizes! Sou assim, covarde, por
certo castrado pela educação que tive dos meus pais, um pai autoritário e uma
mãe religiosa. Não consigo safar-me desse círculo vicioso ou virtuoso,
sei lá, como incutiram na minha cabeça. De um pensamento religioso desumano e
retrógrado”.
Surpreso, ouvi ainda:
“Sinto-me um desgraçado. Gostaria muito de
morrer em paz. Guarde esses versos que recolhi no meio de um poema. São seus;
fique com eles. Servirão como meu epitáfio. Não para ostentá-los numa lápide
fria. Guarde no seu coração. In pectore! Essa é a minha forma de repúdio
à minha vida. Chegou a hora de fazê-lo”.
“Sobreviverei no
esquecimento, na morte inglória, longe da vida eterna” (*).
Morreu também aqui, nesta página
literária de periferia. Assim como nasceu. Da ficção e na ficção. Real como
qualquer um de nós, que poderíamos ser alvos da mesma aleatoriedade da natureza
que o marcou. A da diferença. Uns mais do que outros.
Dedico-lhe esta página como nênia de despedida,
pungente e chorosa, de sentidas desculpas, de reconhecimento tardio por um ser
humano sofrido.
-------------------------------------
(*)
Do poema Lápide, de Nicolas Behr, publicado
recentemente no suplemento literário Pensar, do Correio Braziliense.