JORNALEGO
ANO III - Nº 81, em 30 de
Agosto de 2004.
Conto
BIGODE
Seu rigoroso pai fora-lhe enfático: bigode, cavanhaque, costeletas, suíças,
pêra, barba e outros adornos capilares não devem ser usados por homens que se
dão ao respeito. Homem que é homem não usa bigode e outras frescuras do gênero,
por exemplo: cabelos compridos. Mulher é que inventa penteado, corta os cabelos
curtinhos ou deixa-os crescer. Faz tranças, rabo-de-cavalo, franjinha, enrola-os
em cachos, tinge etc.
Wilson nunca tinha usado bigodes. Mesmo assim ao
conhecer Vera, colega de trabalho, fora apelidado carinhosamente por ela de
bigode. Não sei porquê, não me contaram. Deve ser um segredinho deles. A
intuição feminina já prenunciava o que viria a acontecer.
Depois de longo namoro, que contou com a separação do Wilson por
dois anos para um curso de mestrado na capital, casaram-se enfim. Continuaram
morando na cidade grande onde o mercado de trabalho era melhor. Por ali ficaram
até que o Wilson ganhou uma bolsa de estudos para o doutorado na Europa
setentrional. Não vale a pena esmiuçar os detalhes, o curso, o país etc. Mesmo
os nomes dos personagens estão trocados como é de bom-tom fazer nesses textos
pretensiosos.
Nos longes de um frio escandinavo, Wilson, de tez clara
denunciadora de sua ascendência européia, teve necessidade de se passar por
latino. Coisas de latino-americano! Deixou crescer bigodes, escuros como seus
cabelos, destoantes das louras cabeças dos habitantes locais e colegas de curso.
Caía-lhe literalmente bem o bigode. Cheio, compacto, quebrava a
simetria perfeita da cara alvar. Latinizava o rosto de traços bretões. Estilo:
viva Zapata. Os pêlos cobriam-lhe os grandes lábios (opa!) superiores
contornando os cantos da boca.
Durante dois anos do doutorado administrou seus bigodes, obtendo um
ar mais imponente, de pessoa mais velha e com maior experiência, aumentando a
sensação de respeito na sua comunidade acadêmica. “Assim é se lhe parece”. Fazia
jus ao apelido doméstico dos tempos de namoro.
Em sua viagem de volta ao Brasil, de passagem pela península
ibérica, surpreendeu a mulher quando saiu do banheiro numa manhã com a cara
limpa, boca-de-chupa-ovo, como ficam parecendo todos os que de repente
raspam o bigode àqueles com quem se convive mais freqüentemente. Novamente de
cara limpa retornou, dias depois, ao seu patropí natal!
Registre-se, um pouco atrasado, que seu pai falecera bem antes de
sua ida para o exterior. Feito o registro, a que o leitor deve ficar atento,
continuemos.
Aqui voltou a trabalhar na mesma organização. Nasceram-lhe os
filhos. Mais maduro procurou um hobby. Já tinha passado, como todo mundo,
pela poesia, crônica ligeira e agora: que tal a pintura? Comprou cavalete,
telas, tintas e pincéis. Aliás, já comprara lá na Europa um kit com
tintas acrílicas, pincéis vários e aquarela. Só lhe faltavam, para compor o
quadro, o avental, a boina e o lenço com as pontas jogadas sobre os ombros, que
caracterizam a imagem popular do pintor. Dispensou estas frescuras para meter
as mãos na massa.
Autodidata, sem saber pintar pessoas ou paisagens, começou a pintar figuras
geométricas representativas dos temas escolhidos. Um dos seus primeiros quadros
intitulou de “Crusto”. Esboçou um Cristo pregado à Cruz, sem estabelecer limites
precisos entre as duas figuras, numa simbiose que imaginava perfeita. Do Cristo,
com a cabeça pendente, não se lhe viam as feições (difíceis de pintar), somente
a coroa de espinhos (geometricamente fácil de representar). A cruz tinha na sua
haste horizontal dois dentes em V, um em cada lado superior, para aparentar
braços pendentes dos cravos que os sustentavam, presos pelas mãos. Na haste
vertical, outro V deitado sugeria as pernas arqueadas de um homem em agonia.
Enfim, uma bela concepção de discutível beleza plástica. Prevaleciam tons
escuros: preto, azul cobalto, roxo e cinza. E pingos de vermelho, as gotas de
sangue!
O segundo quadro representava a maternidade. Tratava-se de uma
figura geometricamente oval, que circunscrevia, no ovo, simbolizando a
fecundação, uma mãe com o filho ao colo, dispostos de tal maneira que deveriam
sugerir também um feto no útero materno. Ficava fulo da vida quando viam
a Madona com o filho no desenho que ele fizera e não mais que isso. “Ignorantes,
idealistas religiosos, não têm percepção artística!” As cores iam do branco,
passando pelo rosa e chegando a um vermelho placentário (!).
Um outro, cujo título era “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”,
onde predominavam tons vermelhos, com apenas cinco linhas tortuosas simbolizava
dois corpos a se abraçar. O limite superior da tela cortava as cabeças e o
inferior as pernas. Só os troncos iguais agarrados e nus, em perfil, se
mostravam. Iguais; só uma curva sutil na altura do peito dava a imaginar o seio
da mulher, amassado no abraço viril. O título se justificava assim: Liberdade
porque os corpos estavam nus; Igualdade porque as figuras eram semelhantes, com
a ligeira diferença dos seios; Fraternidade porque entrelaçados.
“Piccolo Mondo” era um quadro em tons azul e branco mostrando a
Terra vista da superfície Lunar. A esfera do globo terrestre vislumbrada do
horizonte esférico lunar.
E por aí
foi até chegar ao que nos interessa: o “Guerra e Paz”.
Esta tela representava, sempre empregando formas perfeitamente
geométricas, um cemitério de guerra em perspectiva. Cruzes iguais enfileiradas a
perder de vista. As cruzes e suas bases eram sugeridas pela pintura em preto de
suas sombras; a luz solar incidindo de lado. O resto era o branco da própria
tela. Branco e preto tão-somente. Um quadro difícil e trabalhoso de pintar.
Guerra por mostrar o produto bestial da guerra: morte. Paz por
representar a tranqüilidade dos cemitérios.
Foi num repente, numa tarde de domingo, após um lauto almoço em que
abusou da cerveja. Acordou meio sobressaltado da sesta depois de um sonho
tumultuoso com o pai. Incontinenti foi à tela em construção e rabiscou-a com
traços fortes de tinta vermelha danificando-a completamente.
A tela teve como fim o lixo e ficou doravante conhecida, no
imaginário do autor, como “Bigode”.
Parou de pintar suas figuras geométricas, bem-comportadas. Voltou a
usar bigode. Começou então a escrever contos e versos de pé-quebrado.
Foi quando, também, deixou de sonhar com
o seu pai insepulto.
Só depois de mais de vinte anos, quando se lhe agrisalharam todos
os pêlos do seu baixo-nariz é que voltou a raspá-los definitivamente.
Sugestão de releitura: ELETRA CONCRETA. Acesse:
http://www.ecen.com/jornalego/no_62_eletra_concreta.htm