JORNALEGO
ANO III - Nº 80, em 20 de
Agosto de 2004.
Crônica
GOLPES CRUZADOS
De como beber uma simples água-de-coco à beira da praia pode ter sérias
conseqüências ao envolver pessoas, desencadeando sentimentos e emoções em
cadeia, replicantes, às vezes incontroláveis.
Foi o que aconteceu com Joaquim, acompanhado
de sua mulher Isabel e do irmão mais velho desta, Jeová.
Vou contar de forma diferente o que ele,
Joaquim, me contou. Não vou contar o caso, simplesmente. O que ele contou
soou-me a bravata, reação a um suposto desacato. Eu vi coisa diferente. Vou
tentar escrever uma peça literária. Pobre como tal, uma crônica, que
talvez deixe a desejar, mas, definitivamente, não pretendo descrever uma
historinha banal, embora não passasse disto.
Encontrei ramificações não sentidas nem
pressentidas por seus personagens. Afinal, o escritor tira leite de pedra quando
quer achar assunto. Com isso, descobre detalhes do comportamento humano que,
mesmo que não sejam explícitos, principalmente durante a ocorrência dos fatos,
estão subjacentes à história, latentes sob a superfície do caso, prontos para o
garimpo de um observador, o que deve se constituir a qualidade maior de quem se
diz escritor. Com toda pretensão – modéstia às favas – é assim que me denomino.
Tenho que dar um nome mais nobre ao que faço para substituir o rótulo um tanto
pejorativo de inativo.
Foram os três para uma caminhada à
beira-mar. O combinado era o Joaquim disparar na frente, pois queria se
exercitar. Ele iria até o final do calçadão voltando uns quinhentos metros para
se encontrar com os irmãos, no vendedor de coco estacionado na curva da praia.
Jeová e Isabel iriam mais devagar, conversando, peripateticamente, matando
saudades recíprocas, há muito acumuladas, pois fazia tempo que não se
encontravam. Joaquim e Bel estão de férias na praia, descendo das serras das
Gerais, onde residem atualmente. Trocando o frio montanhês pelo frio litorâneo
de meio de ano.
Joaquim foi, voltou e encontrou-se
com os dois sentados na amurada da descida que dá para a areia, aos goles da
água fresquinha e saborosa. Sentou-se um pouco para recuperar-se do cansaço. Ao
levantar para apanhar o seu coco, já pago por Jeová, foi advertido pelo cunhado
sobre o vendedor, um crioulo muito bem encorpado (– “deve ser baiano!”),
do seu ar pachorrento de não querer nada com o trabalho, com a Hora do Brasil.
Estava sentado e sentado ficou quando ele e Bel chegaram. Serviu os cocos, muito
incomodado e a contragosto, depois de furar, demonstrando excessivo cansaço, o
orifício dos canudinhos. As operações financeiras, envolvendo pagamento e troco,
pareceram-lhe fatigantes, a lhe exigir um esforço sobre-humano.
Nosso turista, com o espírito
preparado, dirigiu-se ao carrinho encontrando o baiano ainda sentado em
posição relaxante. Com um riso no canto da boca pediu seu coco e voltou à
reunião com os outros comentando, com ironia, da lerdeza do negão. E da
grafia errada do produto anunciado: côco! (– “Quem tem acento é cocô,
imbecil!” Sussurrou. – “Não só acento como assento também”. Um chiste não
percebido sob a forma oral).
Quando voltou para solicitar o
corte do coco, colocou seus canudinhos usados sobre o carro. O ressabiado
vendedor estendeu o braço e apontou o lixo, num gesto autoritário e admoestador.
Autoritário porque apontava o coletor para que o comprador ali colocasse o lixo.
Ele não se prestou a fazer isso, como mandam as regras do bom prestador de
serviços. Admoestador, pois, implicitamente, chamou o cliente de desleixado ou
politicamente incorreto ao deixar por aí os canudinhos usados.
Joaquim não só os apanhou como,
para provar sua civilidade, superioridade e provocar o ambulante, ainda jogou no
lixo duas cascas de coco que estavam por ali. Cascas essas que estavam também em
cima do carrinho ao lado de algumas latas vazias de cerveja e de um invólucro
rasgado de plástico das mesmas.
Nosso personagem fez ver ao
vendedor que ele só importava com o canudinho, na tentativa de chamar-lhe a
atenção, descuidando-se das cascas, das latas já amassadas e do pedaço de
plástico. O vendedor, numa explicação não-convincente, disse que aquilo fazia
parte da exposição dos seus produtos.
Joaquim esboçou um leve sorriso
sardônico e voltou abrindo um riso zombeteiro para junto dos seus, ali pertinho.
Perguntado pelo motivo, explicou com gargalhadas sarcásticas, não se preocupando
se o vendedor ouvia ou não o que dizia. Na realidade, por trás de sua reação
estava a informação, anteriormente recebida, da indolência do outro. A
despreocupação em não se fazer ouvir mostrava a vontade de agredir o crioulo,
o baiano, o negão, enfim, o seu eventual serviçal.
Ah! Para quê? O dono do
corpanzil veio bufando, deslocando ar, tomar satisfações, numa reação que
possivelmente incluía sua cor, sua posição social, seu passado, sua condição
desigual com o grupo, turistas a caminhar no calçadão da praia de bonés com
grifes e tênis superincrementados.
Discussão e impropérios
descambaram para um bate-boca histérico e estéril. Joaquim a mostrar que o
carrinho estava cheio de restos de lixo e a preocupação do vendedor era os
inexpressivos canudinhos. No que recebeu a seguinte resposta: – “Lixo pode ser o
lugar de onde você vem”.
Jeová, moço, forte, alto, tomou as
dores do cunhado, mais velho, magro e baixo. Só não saíram para as vias de fato
porque este se introduziu aos berros entre as partes, mesmo com medo de levar
uma porrada, na tentativa de evitar socos e murros. Confusão geral, os
transeuntes a parar e olhar o barraco.
A última cena não durou sequer um
minuto porque foi logo interrompida por dois policiais que faziam a ronda de
bicicletas. Desapartaram a briga apartando os contendores. Jeová foi posto de
lado enquanto seguravam fortemente o crioulo torcendo-lhe o braço por
trás do corpo, imobilizando-o.
Um grito ancestral ecoou por toda a praia, o
que serviu para se desvencilhar do golpe que lhe ia quebrando o braço.
Humilhado, depois de repreendido e solto, voltou aos seus poucos afazeres, com
um sentimento mais pronunciado de culpa, após a ameaça de ser levado para a
delegacia.
Quando se viu longe da vista dos policiais
voltou-se inferiorizado ao grupo querendo sanar o mal-entendido e se mostrar
amigável. Pensou nas possíveis conseqüências, principalmente considerando sua
condição anterior de desempregado. Foi ignorado solenemente, esnobado pelos três
que saíram sorridentes a gozar o seu respeitável lazer, desdenhosamente
superiores.
São infindáveis esses pequenos e às vezes
sérios conflitos “humanos, demasiadamente humanos”, que geralmente passam
despercebidos do seu contexto social, psicológico e histórico, onde
invariavelmente se inserem.