JORNALEGO
Nº 7, em 30 de Junho de 2002.
Ensaio
DO PRAZER
Quando escrevi sobre os meios e os fins (Jornalego nº 6), dando
especial ênfase aos meios, fui alertado por um leitor, a quem dera conhecimento
antecipadamente do texto, sobre a imprescindibilidade dos fins. Claro, concordo
perfeitamente. Há que se ter um norte na caminhada. Se não se sabe para onde ir não
adianta nem começar a se mover. Contudo, nem sempre o fim será atingido, como nem sempre
o fim é aquela maravilha que fantasiamos. O meio, a caminhada tem o seu valor.
Por exemplo, a obtenção do prazer é um grande objetivo em nossa
vida. A não consecução de um prazer almejado geralmente nos deixa frustrados. Haja
vista o que acontece quando se retira de uma criança um brinquedo ou não se lhe dá o
brinquedo desejado. Contudo, a busca incessante do prazer, o princípio hedonista da vida,
não pode ser nosso único objetivo. Seja qual for o prazer: do poder, do consumo, do
sexo, da comida, enfim, tudo aquilo que satisfaça nossos sentidos e instintos,
principalmente àquelas exigências produzidas nos mais recônditos meandros da nossa
psique.
Na busca do prazer, a serotonina tem um papel muito interessante no
nosso organismo. A serotonina é o combustível do prazer no corpo humano. Para efeito
deste ensaio vou compará-la com a insulina.
A serotonina, segundo o Houaiss, é uma substância encontrada nos
tecidos e fluidos dos vertebrados e invertebrados, com propriedades similares às que
possuem as drogas alucinógenas. Outra fonte informa que a serotonina, antes chamada de
5-HT, é um neurotransmissor, ou seja, é uma substância que transmite o impulso nervoso
de um neurônio para o outro pela "fenda sináptica" (espaço quase virtual
entre dois neurônios). Ainda não se sabe se a serotonina é um hormônio.
Por seu turno, a insulina é um hormônio secretado pelo pâncreas com
importante função no metabolismo dos açúcares pelo organismo.
Determinados elementos como a insulina e a serotonina têm, para cada
pessoa, uma determinada capacidade de produção, a ser usada ao longo da vida para suas
funções específicas. Pode ocorrer um colapso na produção dessas substâncias quando
há uma solicitação demasiada em intervalo de tempo muito pequeno, acima da nossa
capacidade em atender essa demanda.
Daí, alguém que abusa da ingestão de carboidratos poder superar a
capacidade de produção de insulina necessária para o correto metabolismo dos açucares
e contrair diabetes. Outra pessoa usuária de drogas que exige uma carga maior de
serotonina do que o organismo pode produzir vê-se, após algum tempo, sem o prazer que a
droga lhe propicia e passa a sofrer os efeitos negativos do vício, a sua dependência e a
degenerescência física e mental.
Esses exemplos demonstram e a nossa experiência mostra que o prazer
desmesurado leva à sua saturação, daí porque há que se ter cuidado na sua busca
irracional e parcimônia nos expedientes que o provocam. Faz parte mesmo do processo
educacional das crianças não atender totalmente aos seus desejos.
Um conferencista falando sobre o tema conclui que o ideal na vida seria
atingir o estágio de Felicidade Serena, sem a procura ilimitada por prazeres. Segundo ele
isso é muito difícil no mundo moderno. Seria como atingir um estado de graça não
religioso. Sem saber definir exatamente o que isso seja, talvez compreendamos melhor ao
dizer, ainda segundo o expositor, que o mundo ocidental caracteriza-se pelo estado de
Felicidade Exacerbada, procurando incessantemente, sob todas as formas, as oportunidades
do prazer. Do lado oposto, o oriental, de certa maneira satisfaz-se com um estado de
Infelicidade Serena, o que seria uma aceitação de uma vida mais pobre e mais carente dos
prazeres que enchem a vista dos ocidentais. Talvez Infelicidade Serena seja um rótulo
incorreto, é que o oriental busca o equilíbrio entre os impulsos terrenos e a
sublimação religiosa.
A felicidade é um estado inatingível. Atingi-lo plenamente
corresponderia ao Nirvana, uma situação de serenidade onde não há a cogitação de
satisfação ou insatisfação. Ou melhor, a satisfação é não ter prazeres primários.
Por outro lado, a busca incessante, sem limites, causará mais frustrações do que
prazer.
A receita seria, aparentemente, o contentamento com formas mais
prosaicas de prazer, onde todas elas fossem contempladas, mas sem a ansiedade que hoje
domina o tipo de vida moderno. Por exemplo, sem o exagero no consumo, na comida, na
bebida, no sexo, nas ambições desmedidas e no uso de drogas. Formas mais sutis de prazer
proporcionadas pela cultura, afetividade, amizade, solidariedade, contemplação, amor e,
logicamente, sexo - sem a obsessão da performance - deveriam ser privilegiadas. Isso sem
qualquer conotação mística ou religiosa, o que também em excesso pode nos levar a
extremos indesejados.
Na mesma linha de raciocínio, presumo que o sexo, como em todos os
animais, tenha no homem e na mulher a finalidade original da reprodução da espécie.
Mas, com o advento do "homo sapiens" e com ele suas percepções racionais, onde
se inclui a descoberta da estética (proporcionada pela visualização dos corpos humanos)
e do êxtase que o sexo propicia, levaram-no a exorbitar na prática das atividades
sexuais, chegando mesmo atualmente às raias do consumismo sexual, o que não condiz com a
condição original de sua natureza. Na mulher não sei quais seriam as conseqüências,
no homem sobrecarregaria a próstata.
Que meus leitores sejam generosos e poupem-me de qualquer rótulo de
cunho religioso, moral, político ou pior, me chamem de senil. Simplesmente reflito para
tentar atingir aquela Felicidade Serena que, aqui pra nós, deve ser um "barato"
ou uma "viagem".
Observação: Este ensaio incorporou pensamentos e informações de
outras pessoas cujos nomes não são revelados por força da exclusiva responsabilidade do
autor sobre os conceitos aqui apresentados.
Os números anteriores estão em: http://www.ecen.com/jornalego