JORNALEGO
ANO III - Nº
77, em 20 de Julho de 2004.
O conto do conto.
“QUANDO
DESPERTOU, O DINOSSAURO AINDA ESTAVA ALI”
Faz um par de anos que começou a
sentir um certo desconforto na base do estômago. Não sabia muito bem para que
lado ficava este órgão e se ele tinha base. Mas o estômago era, na sua
concepção, a mais popular víscera do aparelho digestivo. Os intestinos, por
certo, não eram a causa de suas dores. Se fossem, as conseqüências seriam
escatológicas. Do fígado e do pâncreas, da vesícula e do que mais, tinha uma
vaga noção de suas funções. Daí seu diagnóstico leigo e incerto. O mal-estar
subia à boca, queimando-lhe por todo o trajeto, tendo mesmo provocado vômitos
esporádicos no início, depois com mais freqüência.
Tornara-se inapetente.
Alimentava-se por necessidade, não mais pelo prazer de comer, como de hábito, no
passado ainda recente de glutão voraz! Denunciava-o o corpanzil.
Era a danação do câncer, que fora
descoberto a pouco menos de um ano, a lhe picar as entranhas com suas terríveis
tenazes e a minar o seu ser. Ao tratamento químico que fora prescrito vinha se
submetendo regularmente, sem muito sucesso.
Sua pele perdera o viço, ficara
seca e murcha. Seus cabelos caíram e os ossos quase afloravam no rosto e braços,
as partes expostas por suas roupas que dançavam em volta de um corpo agora
esquálido. Os olhos esbugalharam-se. Essa forma descontrolada de vida, que
hospedava a contragosto em seu organismo, alastrava-se em sua marcha batida e
irreversível.
Foi hospitalizado com anemia
profunda, passando a receber alimentação pastosa e ser sedado com fortes doses
de morfina para aliviar a dor inclemente, incessante e intensa.
Nunca chegou a perder a lucidez.
Apenas sucumbia de vez em quando sob o poder do cansaço e dos sedativos.
Suas concepções materialistas foram colocadas
à prova. Pensava na insensatez da vida, na tragédia humana e, nas fases mais
agudas da doença, na inverossímil possibilidade de uma vida espiritual em outra
dimensão.
Mais pragmático diante dessas expectativas
idealistas duvidosas pensava na própria morte, uma esperança mais realista, o
lenitivo fatal que o tiraria deste quadro infernal.
Uma pequena melhora fez com que
voltasse para casa, para ser cuidado por familiares, criando as maiores
complicações na vida dos parentes mais próximos, mulher, filhos, noras e
causando espanto aos netos infantes.
Passou a sofrer minuto a minuto,
cochilava por extenuação, gemia inaudível para não incomodar os circunstantes, o
que lhe agravava ainda mais as dores lancinantes sem a contrapartida de sua
exteriorização, a sonoridade que alivia.
Não mais comia alimentos sólidos,
tampouco sorvia líquidos. Vivia atrelado a uma ampola de soro, recebendo
alimentação parenteral. As escassas necessidades fisiológicas eram a maior
vergonha para sua lucidez integral.
Há uma semana não tinha mais
sossego. Seus piores períodos eram os noturnos, quando a vigília solitária
concorria para o agravamento da situação. Os potentes analgésicos não mais
prevaleciam sobre seu desespero.
Na noite passada sofreu
estoicamente em silêncio, enquanto a casa dormia, até alta madrugada. Não
pensava em nada a não ser nos poucos jeitos que ainda lhe restavam para acomodar
o corpo estirado na cama.
Adormeceu como por encanto. Seu sono foi
profundo como não tinha há dias. Por pouquíssimo tempo, duas horas, não mais. Ao
alvorecer, um raio de luz entrou no quarto todo fechado, não se sabe por onde,
iluminando-lhe o semblante. Sonolento, deu um leve suspiro de contida decepção.
Quando despertou, ainda estava
vivo!
Esta é uma leitura pessoal do festejado
mini-conto de Augusto Monterosso, considerado o menor conto do mundo. Chama-se
"El dinosaurio”, no idioma original. A íntegra, também em espanhol, é a
seguinte: “Cuando despertó, el dinosaurio todavia estaba alli”. Sua fácil
tradução para o português intitula o presente texto.
Monterosso nasceu em Honduras em 1921. Foi
criado na Guatemala. Esteve exilado no Chile em 1956. Morou por mais de meio
século no México. Faleceu em fevereiro de 2003, por volta dos 82 anos.
Sua obra foi marcada não pela síntese, mas
pela concisão. Veja
este exemplo: “Fecundidad: Hoy me siento bien, un Balzac, estoy terminando
esta línea”.
Faça
você também, caro leito, a sua leitura pessoal deste mini-conto, escrevendo um
texto. Não tão noir quanto este! Mas, em verdade, de um dinossauro, o
que se pode esperar?
Genserico
Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES)
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