Jornalego
|
|
|
ANO III - Nº 76, em 10 de Julho de 2004. Memórias “VIDA LEVA EU” (*)
Minha carreira profissional, como economista do setor de energia, contou com algumas situações que gostaria de revelar. São mais pitorescas do que importantes. Primeiramente servi na Petrobras, sempre no Planejamento, no Rio de Janeiro (1970-1991). A seguir no Ministério de Minas e Energia, em Brasília (1991-1994). Finalmente, na Agência de Desenvolvimento do Espírito Santo (Aderes), em Vitória (1997-1999). Restrinjo-me aqui ao final da carreira, quando tais fatos aconteceram (1990-1999). Antes do governo Collor se instalar no Brasil, já vitorioso nas eleições, nas quais votei pela primeira vez em Lula, fiz algumas confidências a um amigo. – “Agora é que a minha ascensão profissional estancou”. Não tinha nada a ver com as posições do novo governo que, logicamente, as imprimiria na Petrobras, onde eu chefiava uma Divisão. Além de não compartilhar com a visão política do vencedor, eu era transparente quanto ao meu posicionamento. Foi então nomeado para Presidente da Empresa o Advogado Luis Octávio da Motta Veiga, ligado ao novo Presidente da República. Num erro administrativo palmar, logo se reestruturou o organograma funcional da Empresa ficando o Planejamento sob a supervisão de uma Diretoria, retirando-o de onde sempre esteve, deveria estar e ainda está: ligado diretamente à Presidência. Sob a orientação do mesmo Diretor ficou também o Serviço Financeiro. O citado Diretor, por força da administração do dia-a-dia dos recursos da empresa, dava uma certa preferência às finanças. Isso não chegou a afetar as atividades do Planejamento que, além do Orçamento, também tinha sob a sua incumbência a área de Organização da Companhia. Foi uma surpresa quando fui convidado para ser o Superintendente do Planejamento, embora tenha entrado duro na luta pelo cargo representando os economistas e administradores. Passados oito ou nove meses, eis que as mutretas do governo Collor dão as caras na Estatal. Tratava-se de uma maracutaia que estava sendo tramada pela Vasp, junto à Petrobrás Distribuidora, com o apoio do Planalto, para abastecimento de combustível às suas aeronaves. O Presidente da Companhia vetou tais operações. Com a queda-de-braço com a Ministra da Economia - Zélia Cardoso de Mello – começou a fritura dele. Foi finalmente destituído do cargo e substituído por um assessor dela, Sr. Eduardo Teixeira, que ocupou o cargo por um período mínimo. Motta Veiga saiu muito melhor do que entrou e o seu substituto, de cujo nome me foi difícil lembrar, ficou conhecido com a alcunha de “O Breve”. A dita fritura salpicou no nosso Diretor, que foi também demitido de suas funções e, como conseqüência, no Superintendente do Planejamento, eu, que nada tinha a ver com as falcatruas. Efeito dominó! No curto período do governo Collor a Petrobras teve seis presidentes e 23 diretores. Assim, sem comungar com a visão política do governo fui nomeado Superintendente de Planejamento. Depois, sem ter nada a ver com a proposta da negociata, que rolou nas esferas mais altas, fui destituído. Este mesmo governo Collor, que me colocou na gangorra, jogando-me ora para cima, ora para baixo, me acolheu numa função técnica no então Ministério de Infra-Estrutura (Secretaria de Energia). Alguns meses depois fui nomeado para uma coordenadoria. Antes de embarcar para lá consultei companheiros mais experientes sobre a possibilidade de vir a trabalhar diretamente para um governo que não contava com a minha simpatia. Convenceram-me a aceitar o convite, que teve o importante apoio de uma colega altamente situada no organograma do Ministério. Uma das justificativas (pretexto?) para minha ida era a de que o Ministério contava com muitos técnicos da área de energia elétrica e quase nenhum da área do petróleo. Assim seria engrossada a representação da nossa Empresa no Planalto Central. Lá fui eu. Que bela surpresa foi morar em Brasília, tão mal-falada pelos que só a conhecem de raspão! Tudo correu normalmente. Foi um ótimo período. Fiz grandes amigos. Não senti o mínimo constrangimento. Só tenho a registrar uma manifestação de apoio ao Presidente no final do processo de impeachment, realizada no Palácio do Planalto. Todos no exercício de cargos de confiança foram intimados a comparecer. Embora sob pressão dos colegas, não fui. Atitude simbólica, sem maior repercussão, para consumo próprio! Depois da justa cassação do Collor, servi a todo o período do Presidente Itamar. A ênfase nesse período, na nossa Coordenação, foi o Mercosul, que me empolgou fortemente, com a possibilidade da integração regional energética dos quatro países do Cone Sul latino-americano. Com a disputa eleitoral entre Lula e FHC, na qual eu me declarava a favor do candidato do PT, eu só imaginava qual seria a minha posição no novo governo caso a vitória sorrisse para Lula. Paradoxalmente, sob a ótica de me manter no cargo, não me preocupava o sucesso da dobradinha PSDB-PFL. Pelo contrário, mesmo simpatizante e eleitor do PT, antevia como certa a minha dispensa, pois teria servido aos governos anteriores. Com o resultado da eleição e estando já aposentado na Petrobras, resolvi parar de trabalhar. Estava mais independente financeiramente e poderia me dar ao luxo de não aceitar os novos patrões de plantão. Solicitei meu desligamento para o dia 31.12.1994, último dia do governo Itamar. Se quisesse continuar, talvez pudesse ter passado todos os oito anos do FHC no seu governo. A complicação só viria, possivelmente, com a ascensão do PT, assim pensava. Acredito que fui muito rigoroso ao pensar assim. Alguns dos meus colegas da Petrobras sobreviveram aos oito anos do FHC e ainda estão por lá, servindo no mesmo Ministério ou lotados em outros, a despeito da previsível chegada dos petistas. Depois de dois anos sem trabalhar vim para o Espírito Santo, a convite da Agência de Desenvolvimento, no Governo Vitor Buaiz. Um governo do PT, no meu Estado natal! Era a sopa no mel! Como se sabe o partido postou-se contrariamente ao governador. A própria Agência, com uma carteira excelente de projetos, não era bem-vista pela agremiação. Numa primeira reunião que tive em São Mateus, representando-a, quando se discutia a utilização do gás natural e a possível constituição de uma Companhia Estadual de Gás, quase fui crucificado pelos petistas e sindicalistas presentes e alguns funcionários da Petrobras sediados naquela cidade. Se na Petrobras eu tinha uma visão setorial (petróleo e gás), no Ministério ela passou a abranger toda a problemática da energia, que até superava a questão nacional, dado que estávamos lidando com o Mercosul. De volta ao Estado natal prevaleceu o enfoque local. Embora justificasse que são óticas conciliáveis, na realidade têm alguns atritos. Naquela época, contudo, os projetos estaduais não conflitavam com os interesses nacionais. Só fui gozado, em seminário em São Paulo, por um velho colega do Ministério e da Petrobras, por estar defendendo a inclusão do Espírito Santo na rede nacional de gasodutos que nos permitiria receber até o gás da Bolívia, tendo me posicionado anteriormente contra a importação desse último. Mas, minha posição era defensável. Depois de tomada a decisão de construir o gasoduto Brasil-Bolívia, nada restava senão usufruir o mesmo com a construção do gasoduto Cabiúnas (RJ)-Vitória. A ancoragem do projeto do gás no Espírito Santo é dependente do seu consumo pelas fábricas de pelotas da Cia. Vale do Rio Doce (CVRD), em Vitória. Mas os grandes objetivos são a geração de energia elétrica, de que o Estado é carente como ponta-de-linha do sistema sul-sudeste (importa 80% de sua energia elétrica) e a gaseificação de todo o território capixaba. O gasoduto Cabiúnas (RJ) - Vitória até agora não saiu do papel e os campos de gás locais (Cangoá e Peroá) estão sendo desenvolvidos para fritar as ditas pelotas da CVRD, sem geração de energia elétrica. Depois do governo do PT, que terminou PV, veio o governo do PSDB do José Ignácio; uma decepção! Contemporâneo e colega, ainda confiei no governador por um ano. Sai por razões eminentemente administrativas. Ainda não tinham vazado as manobras corruptas. Três incidentes que me envolveram pessoalmente causaram-me profunda desilusão e me demiti. Não vale a pena contar aqui. Nem o governador deve se lembrar dada a insignificância deles diante de suas inúmeras preocupações. O novo governo jogou todas as suas fichas na prospecção do petróleo que estava começando em nosso mar territorial enfraquecendo os projetos que estavam sendo sugeridos no governo passado. Outro erro foi a sua concepção quanto à criação de uma companhia de gás no Estado e sua percepção igualmente errada quando à mudança da concessão da Petrobras Distribuidora para distribui-lo. Até agora nada foi feito nesta área. Como é engraçada esta vida e, no caso particular, a vida profissional da gente! Pensa-se uma coisa, vislumbra-se uma direção, e tudo acontece de outra forma e em outra direção. Quando acontece! Quanto esforço inútil! Quantos projetos não concluídos! Já citei uma vez nestas páginas do JORNALEGO o naturalista Richard Dawkins. Em seu livro O Gene Egoísta, ele defende a tese de que o nosso gene só tem uma finalidade durante a sua vida: reproduzir-se. O resto é perfunctório. O que vale é comprar um peixe bom, fazer com ele uma deliciosa moqueca capixaba e degustá-la bem acompanhado. Sem grandes planejamentos. Uma atividade prazerosa que se basta, com início, meio e fim, realizada totalmente num curto período de tempo. Podendo ser repetida inúmeras vezes. Perfunctoriamente! (*) Zeca Pagodinho
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES).
|
|
|