JORNALEGO
ANO III - Nº
74, em 20 de Junho de 2004
Opinião
QUOTAS? SOU CONTRA!
Não me conformo com a existência de
inúmeras quotas que vêm sendo aplicadas pela sociedade brasileira ao longo do
tempo, beneficiando alguns segmentos já beneficiados de nossa população.
Quase todos os filhos das classes
mais bem situadas no Brasil têm ingresso assegurado em nossas faculdades. Só
ficam de fora aqueles que efetivamente não querem entrar. Preferencialmente nas
universidades públicas, que são gratuitas. Mas como são as mais difíceis de se
ter ingresso, principalmente pela concorrência, sobra-lhes a oportunidade de
cursar os centros de ensino superior da iniciativa privada.
Suas quotas estão garantidas desde
a gestação. Têm acompanhamento médico, parto cuidadoso, alimentação, habitação,
afeto etc. A seguir vem a freqüência em escolas de primeiro e segundo graus do
ensino privado, atualmente muito melhores do que as da rede de ensino público.
Como complemento, o treinamento em cursinhos pré-vestibulares. Acesso à cultura,
à arte e a outras benesses.
Logicamente, sou contra as quotas
orçamentárias, nos vários níveis de governo, que restringem a melhoria do ensino
público.
Sou também contra as quotas
discriminatórios dos planos de saúde e de seguridade social que nos (mudei o
tratamento para ficar mais comprometido com o tema) permitem ter o melhor dos
atendimentos médicos, em ótimos centros hospitalares, e aposentadorias decentes,
o que é possível mediante pagamentos mensais, nem sempre módicos, mas
suportáveis. Devidamente regulados por legislação federal e administrados por
poderosos fundos de pensão.
Sou contra as quotas que nos
possibilitam andar em veículos particulares, sem as agruras do transporte
público. Morar em boas casas e bons apartamentos, em bairros bonitos, salutares,
sempre objeto dos cuidados da municipalidade. Sou contra também as quotas que
nos capacita ter casas de campo ou de praia, viajar para lugares aprazíveis e
conhecer o exterior. Freqüentar, resguardados da violência urbana, os
shoppings centers das nobres periferias urbanas.
Sou contra a quota que beneficia os
portadores de diploma universitário a ter tratamento privilegiado nas cadeias.
As quotas que nos possibilitam também a contratação de bons advogados quando nos
envolvemos com a justiça ou a polícia. Sabemos como defender nossos direitos e
regalias.
Sou contra a quota que, pelas
condições de renda e educação, nos permite a esperteza de burlar o pagamento de
impostos e ser coniventes com a sonegação no comércio, sem exigir nota fiscal. O
pretexto sempre é a alta carga tributária, “Não adianta colocar dinheiro na mão
da classe política corrupta”.
Sou contra a quota dos aquinhoados
com heranças, cujo imposto de transferência não conseguiu recentemente passar
dos atuais 2% para 4%, conforme proposto pelo governo federal, com o argumento
de que iria aumentar a carga fiscal.
Viajar de avião deve também
obedecer a alguma quota. Isso porque nas poucas vezes que uso a aviação
comercial dou uma olhada atenta pela sala de embarque e raramente encontro um
negro ou pardo, em contraste com a maior participação desta cor de pele na
população brasileira.
Nos restaurantes, principalmente os
menos populares, nem sequer os garçons são negros.
Essas quotas contra as quais me
insurjo, vigoram há muito tempo! No meu tempo de curso primário, em escola
particular, só tive um colega negro. Era um bolsista de um orfanato que,
coitado, não deu para competir conosco.
Nas minhas classes dos cursos
ginasial e colegial, o primeiro em escola particular, o segundo em escola
pública, se me lembro bem, tive um ou dois colegas negros.
No período universitário, na
federal, não tive nenhum colega negro.
No mestrado, todos eram brancos.
No Planejamento da Petrobras, os
técnicos eram todos brancos com uma única exceção. No Ministério de Minas e
Energia e com quem lidávamos em outras áreas da esfera federal, todos eram
brancos, também com uma única exceção.
Os bolsistas brasileiros no meu
curso da Holanda eram brancos o que causou espanto a um colega turco que pensava
que a população brasileira fosse negra, pois só conhecia dois dos seus
representantes: Pelé e Didi.
Essas quotas discriminatórias são
odiosas e insidiosas! Elas estão presentes em quase todos os segmentos de nossa
vida, de forma mascarada, nem por isso menos agressivas.
Enfim, sonho com um país sem quotas
e bato-me também contra as quotas da ignorância ou da inocência, do cinismo ou
da hipocrisia.
P.S. - Sensacional o título de uma crítica do
filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Moreira Salles, numa edição de um
jornal local: “Cada um escolhe a sua margem do rio”.