Jornalego
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ANO III - Nº 71, em 20 de Maio de 2004. Conto MEMÓRIAS PÓSTUMAS Vivi e morri Vladimir. O infausto acontecimento de minha morte se deu enquanto dormia em meu quarto solitário de viúvo, na flor dos meus sessenta e poucos anos. Nada senti e nem sei o que se passou. Só quando despertei com os gritos histéricos de minha empregada é que me dei conta do ocorrido. ‘Tava lá o corpo, imóvel, rijo e pálido, atravessado na cama de casal, com a expressão serena e os olhos bem fechados. Ela me chamou pro café da manhã e eu, por certo, não atendi. O sol de um belo dia de maio já ia alto, a ligeira arrumação do pequeno apartamento estava concluída, assim como preparadas as minhas frugais refeições. Era dia de pagamento e ela queria ir embora. Ficou na saudade! Principalmente nasci Vladimir.Todo pai comunista que se prezava tinha um filho chamado Vladimir ou Luiz Carlos. Singelas homenagens a Vladimir Ylitch Ulianov, pseudônimo de Lenine, ou ao nosso Cavaleiro da Esperança, o Luiz Carlos Prestes. Da herança paterna eu absorvera o lado materialista, mais do que o próprio comunismo. Minha mente sempre foi chegada às idéias abstratas, encantava-me o Marx filósofo, não dando a mesma importância à sua visão sociológica e econômica. Menos ainda ao seu receituário de ação política. “A religião é o ópio do povo” era-me preferível a “Operários de todo o mundo, uni-vos”. Nas várias discussões com os meus amigos, todos religiosos e idealistas – uns mais outros menos – formados desde os tempos do catecismo, do colégio dos padres e do encontro de casais, os temas que mais surgiam eram sempre os mesmos: misticismo, religiosidade, o divino, a existência da alma, a vida espiritual, reencarnação, vida eterna e outros assuntos de igual natureza. Minha posição era clara e irredutível, por isso sempre provocada e contestada. A oposição era implacável. Nas discussões me sentia isolado. Mesmo quando minha saudosa mulher ainda participava dessas reuniões, também ela simpatizante do espiritismo e esoterismos em geral, engrossava o coro geral. Nunca chegara a ganhar um palmo nos embates verbais e jamais convencera a ninguém de meu arraigado pensamento materialista. Eu ficava maluco, completamente doudo! Sempre sério, esgrimindo os mais pertinentes raciocínios sobre a causa que defendia, comecei a ser levado na galhofa pelos hilariantes amigos. Nunca me rebelei contra eles. Respeitava o interlocutor, a alteridade, o contraditório. Gostava de todos. Os encontros eram um escape agradável para minha mente atordoada com tantas elucubrações existenciais. Viviam a me pregar peças mexendo com as minhas convicções neste campo. Não levavam a sério cousas que para mim tinham grande importância. Comecei então a notar que não podia me expor tanto assim, mesmo neste círculo amistoso. Aprendera que “o segredo é a alma do negócio”, mas nunca coloquei em prática esta lição, transparente como eu era. Exercia essa transparência com a mania de escrever tudo o que pensava. Pior, de distribuir tais textos aos amigos. Inicialmente por via postal, depois, via Internet. Num desses escritos, explicava como gostaria que fosse o meu funeral. Sem rezas, cerimônias ou símbolos religiosos de qualquer espécie. Sem sacerdotes. “Sem choro nem vela!” Queria ser cremado e não enterrado. Nada de missas e cultos. Enfim, coerente com meu perfil materialista, minha morte deveria ser considerada como exemplar, o argumento final do meu discurso infrutífero. Este desejo foi motivo de inúmeras considerações de desagravo e de chacotas. Voltando ao belo dia do mês de maio, eis-me defunto. Solitário – os parentes não me eram muito próximos – minha empregada resolveu apelar para um desses amigos. Carlo foi o primeiro a ser contatado. Solícito, apareceu incontinenti no meu apartamento. Cheguei a tentar cumprimentá-lo, mas ele se mostrou um tanto arredio, ignorou-me por completo. Interessou-se pelo corpo estendido na cama, ainda de pijama. Cuidou do traslado e dos preparativos para as exéquias. Eu já flanava por outros espaços, atônito, xeretando. Voltei quando estavam todos reunidos no cemitério. Poucos parentes e muitos amigos. O centro das atrações era o catafalco negro, sustentando o rico ataúde, onde jazia o meu corpo tão bem cuidado, produto de caminhadas diárias, de rigorosa disciplina alimentar e de alguns exercícios musculares que fazia bem cedinho, todas as manhãs, com o auxílio de uns pequenos halteres. Minha barriga era uma tábua plana, sem protuberâncias adiposas. Entre múltiplas e variegadas flores despontava um rosto tranqüilo, barbeado, levemente maquiado, insinuando um sorriso de Gioconda. Espero, pelo menos, que tenham doado as minhas córneas! O Carlo escolhera o mais requintado esquife encimado com um crucifixo prateado e apliques também prateados. Nas minhas mãos mandou enrolar um terço e um escapulário. Na câmara ardente, dous círios imensos estavam a arder ladeando uma grande cruz num pedestal, emoldurada por raios centrífugos a formar um pomposo círculo, na cabeceira da essa. Era a pura reconstituição de um altar de igreja. Ele não se esqueceu de convidar o padre que servia ao cemitério para as orações fúnebres, feitas em ciranda com os presentes a me rodear de mãos dadas, e liderar o féretro até a cova em campo santo onde seria enterrado. Durante o velório, ouviam-se em surdina, fitas de músicas sacras, especialmente belíssimos cantos gregorianos entoados a capela. Foi um funeral lindo, emocionante e romântico. Tudo exatamente como eu não queria. Transcorridos os sete dias regulamentares houve missa ao cair da noute. O “ato de fé cristã” foi exclusivo para o bom encaminhamento da minha alma. O cantor que abrilhantava casamentos na imensa basílica onde se deu o evento, acostumado com a formidável acústica do recinto, provocou lágrimas ao interpretar impecavelmente um réquiem, ao final do serviço religioso. A seguir distribuíram santinhos, com a minha foto sorridente e citações da Bíblia e do Livro dos Espíritos de Alan Kardec. Tudo isso foi o grand finale de inúmeras peças pregadas ao longo de minha vida, sempre comandadas por meu amigo oriundi Carlo Finumore. Com esse nome, nascera predestinado para ser dono de um fino humor. Por vezes não tão fino assim, como é o caso dessa burla post-mortem ao seu pranteado amigo Vladimir, aqui presente, agora memorialista. Deve ter gastado uma nota preta, o Finumore! Provavelmente fez uma vaquinha com a turma. Com ar contrito e compungido, ele participou de todas as cerimônias fúnebres, gozando intimamente ao imaginar a cara do amigo ateu ao assistir aquelas funções, testemunho este que ele acreditava piamente estivesse acontecendo, como de fato estou a descrever. Que eu descanse em paz, finalmente! Agora estou livre dessas mundanas ocorrências, das discussões com os amigos e de suas pegadinhas. Livre também de minhas inquietações existenciais. E das (in)conveniências sociais. – Muito bem Finumore. Você venceu! Se não fosse você eu não teria descoberto esta nova dimensão que estou vivenciando, a qual jamais supus pudesse existir. Nisso a brincadeira foi muito valiosa. Você já pensou o que seria de meu espírito, a ter que ficar penando por aí, sem o apoio que recebi durante o meu passamento! Muito obrigado companheiro! – Não que eu tenha me transformado em espírito de luz e neste estado vá viver feliz até reencarnar. Espírito de luz cousa nenhuma! Nem tampouco, gozar da glória divina entre querubins e serafins por toda a eternidade. Alma em gozo da vida eterna, que nada! A minha transcendência está agora se dando como personagem literário. Aqui estou eu, vivinho da silva depois de minha morte, nas páginas deste conto, que irá preencher com alguns bytes o ciberespaço internético. Sem as suas providências providenciais eu não estaria aqui. Minha morte não teria importância nenhuma para ninguém, tampouco para mim. – Agora sim. Sobrevivi à morte! Não sou nenhum Brás Cubas! Paciência! Cada um tem o Machado que merece!
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES).
Sugestão de releitura: “IÁ! Ó QUEM VEM LÁ!” http://www.ecen.com/jornalego/no_41_o_quem_vem.htm
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