JORNALEGO
ANO III - Nº 70, em 10 de
Maio de 2004.
Desdobramento do conto O
ENXOVAL. http://www.ecen.com/jornalego/no_68_o_enxoval.htm
A OUTRA
Alguém está batendo à
porta.
!?
A filha (imitando voz de criança): – Quem será?
O Coelhinho da Páscoa ou o Papai Noel?
A mãe: – A época do Coelhinho passou. O Bom
Velhinho ainda vai demorar. Deixe de fantasias, entre um e outro, vamos cair na
real. Abra a porta.
– Minha senhora. Boa tarde. Com sua licença.
Depois de muita reflexão e indecisão venho até
aqui, e, se me for permitido, gostaria de ter uma conversa com você. Permita-me
chamá-la assim. Conceda-me o favor de me receber e de me escutar. Obrigada. Que
grata surpresa encontrar também sua filha.
– Como vai minha filha?
Não sei como começar nem tenho organizado o que
falar. Chegar até aqui foi uma tarefa difícil para mim. Concatenar idéias e
dizer algo sensato será como superar outro obstáculo. Não sei se o farei a
contento! Compreendo a delicadeza do momento. Qualquer palavra mal-colocada pode
gerar fricção e conseqüências não desejadas. É a razão por estar sendo tão
formal. Estou muito emocionada e acredito que vocês também o estejam. Afinal,
sabem quem eu sou. De minha parte, eu as conheço bem. Alguém me falava muito de
vocês.
Faz dois anos que ele morreu e nos vimos sem
trocar uma única palavra no pouco tempo que você passou no velório. Foi uma cena
muito triste!
Deixe-me continuar. Sei da tensão desta visita.
Quando o conheci, tinha vinte e oito anos; mais
nova do que sua filha hoje. Foi num encontro de trabalho. Ficamos amigos e
conversamos bastante sobre os assuntos tratados nas reuniões. Durante o evento,
que durou três dias, não trocarmos uma única palavra sobre uma eventual afeição
mútua.
No final da semana seguinte, telefonei para
minha mãe informando-a que estava apaixonada por um homem casado do qual nem
sequer havia lhe segurado as mãos, nem a quem ainda não revelara os meus
sentimentos.
– Vou romper com o meu casamento e me unir a
ele.
Na segunda-feira seguinte, bem cedo, ela chegou
à minha casa, tresnoitada da viagem e transtornada pelas novidades.
Separei-me antes da decisão de vivermos juntos.
Quando abordamos o assunto, optamos por fazê-lo às claras. Assumir nossa
situação amorosa honestamente, sem mentiras, sem subterfúgios, sem enganar a
ninguém, tampouco a nós. Eu não poderia mais ter uma relação sincera com o meu
marido.
Gostei de sua serenidade, maturidade, a
despeito do seu modo apaixonado de viver a vida, de suas posições políticas e
humanitárias. De sua cultura. Por fim, dele todo. Nunca vivera paixão tão
avassaladora.
Nada lhe foi exigido. Tampouco agora. Passamos
a morar em minha casa, onde vivemos a vida toda de nossa união.
Não vim me justificar ou pedir perdão. Seria
ingênuo de minha parte. Vim mostrar-lhes o meu amor, a minha admiração e o meu
fascínio por aquele homem. Vim fazer uma catarse, dar curso ou fim a uma decisão
que julguei acertada, confirmando-a mais uma vez. Tentar apagar o estigma de
outra, tratamento pronominal preconceituoso das mulheres nesta situação.
Quando não são vítimas dos mais insultuosos impropérios.
Não ouso propor sua amizade, sua compreensão, o
que muito me honraria. Mais uma vez me exponho para assumir a mais acertada
decisão de minha vida e prestar uma homenagem à memória de quem participou tão
significativamente das nossas.
A vida é como ela é! Como diria o dramaturgo.
– Senhora.
Não lhe deve ser difícil imaginar como me sinto
diante de sua visita-surpresa e desse depoimento. Tais acontecimentos, como o
que fomos personagens – muito bem retratados em peças de literatura – na
realidade, são comuns, até corriqueiros. Não banais para ninguém! Quando se
passam com a gente assumem uma dimensão extraordinária, principalmente para o
lado fragilizado, digamos, o perdedor.
A compreensão racional desses fatos não
consegue romper a barreira emocional que os envolve. Recebi sua visita e a ouvi
com uma paciência que me surpreendeu, talvez produto do impacto que me deixou
inerte.
Pelos sentimentos que ora me afloram peço que
coloquemos, de pronto, um final nesta novela. Tenho que me recompor
emocionalmente, nem que seja um pouquinho apenas, para despedir-me de minha
filha, que parte ainda hoje à noite. Depois, talvez precise de um tempo maior
para me recuperar totalmente de todas essas emoções, no que espero contar com a
colaboração de minha ainda intacta lucidez e racionalidade. E da sua ausência,
se me permite.
Em nome desses sentimentos é que lhe digo
adeus!
– Minha filha.
Desde que aqui cheguei chamou-me a atenção
essas preciosas toalhas de mesa bordadas que estão sobre o sofá. Por certo fazem
parte do seu enxoval. Como são lindas! Que você faça bom uso delas e seja muito
feliz no casamento!
Adeus!
Sugestão de releitura: O MUNDO ENCANTADO DA
INFÂNCIA, in
http://www.ecen.com/jornalego/no_19_o_mundo_encantado_da_infancia.htm