JORNALEGO
Nº
6, em 20 de Junho de 2002.
Crônica
OS MEIOS E OS FINS
Três motivos levaram-me a tecer comentários sobre o assunto que dá título
a este artigo. Algum mestre da comunicação - acho que McLuhan - teria dito que
a mensagem é o fim, ou o fim é o meio, algo assim.
As causas deflagradoras dessas considerações foram: a crônica que
escrevi sobre a comemoração do aniversário de um amigo, intitulada “Torta
Capixaba” (não publicada no Jornalego) e dois filmes a que recentemente
assisti. O primeiro “Assassinato em Gosford Park” de Robert Altman e o
segundo, “História Real”, de David Lynch.
Na referida crônica, aproveitando a Semana Santa que passou, a tradição
da torta capixaba e o aniversário do amigo, a pretexto de narrar a comemoração
e aparentemente tecer comentários sobre o prato principal, dei ênfase,
sub-repticiamente, embora fosse fácil perceber, ao congraçamento e à
confraternização entre amigos naquela oportunidade. A torta, a despeito de sua
excelência, se constituiu um simples catalisador das amizades e o amálgama
entre as pessoas. Assim, o almoço foi um mero instrumento do grande objetivo
que foi a reunião para saudar o aniversariante. Da mesma forma outras tortas
servidas naquele feriado religioso provocaram outros reencontros entre
familiares e amigos, também relatados no artigo, para focalizar o principal: os
comensais, não a comida. Os aspectos religiosos daquela Semana, esses então,
passaram ao largo.
Quanto aos filmes, vamos primeiramente ao “Gosford Park”. A rigor
gostei mais do seu título original, este que está aí, do que da sua “tradução”
(“Assassinato em...”). O dito crime, sobre o qual eu saí do cinema sem
saber exatamente como ocorrera, foi um tempero que o diretor usou para melhor
prender a atenção do espectador ao tratar da velha aristocracia britânica, em
fase de decadência, seu relacionamento entre os pares e com a plebe, no caso os
serviçais. O que valeu para mim no filme foi a crítica ao posicionamento e ao
relacionamento humano numa determinada época e num determinado lugar. O crime
foi inserido no filme tal como Pilatos no Credo.
Já a “História Real”, que em inglês tem o título de “The
Straight Story” é um filme simples, que pega a gente pelo pé e nos deixa
remoendo a história até no dia seguinte, quando ela, devidamente decantada,
faz a “ficha cair”, e compreende-se a beleza do seu significado. Também
gostei mais do título em inglês; trata-se de um trocadilho, pois o personagem
tem Straight como nome de família, e a palavra quer dizer “direto” e outros
significados semelhantes. O grande objetivo do personagem principal, visitar o
irmão doente em outro estado, torna-se secundário. O que vale é a obstinação
do velho viajante, a maneira como empreende a viagem, os contatos ao longo do
caminho, os obstáculos, a paisagem descortinada. Enfim, o meio é o fim ou o
fim é o meio.
Dando
um fecho filosófico a esses comentários, em última análise, o sentido da
vida, seu objetivo, seus fins, encontram-se na própria vida, no ato de viver.
No meio. Não necessariamente no seu fim. No extremo, acho uma subversão de
valores quando se justifica a vida com uma transcendência mórbida, colocando o
seu sentido no depois da morte, como pregam algumas crenças religiosas. O fim
quase sempre está no meio e o que parece ser secundário é, na verdade, o
principal.
O
que não quer dizer que a verdade esteja sempre no meio e nem que os fins
justifiquem os meios. Esse é outro papo.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES), 14 de abril de 2002.
eeegense@terra.com.br
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