JORNALEGO
ANO III - Nº 69, em 30 de
Abril de 2004.
Poema
AVE-MARIA
Ave-Maria,
branca, mulata, negra, crioula, sarará, cor-de-canela.
Ave-Maria, empregada doméstica, faxineira, babá,
mucama.
Ave-Maria, das gerais, do norte, nordeste e
daqui também.
Ave-Maria, de tantos, amor-primeiro.
Ave-Maria! No mês de maio, de Maria, sua xará,
“cheia de graça”.
No mês de maio, da abolição
da escravidão.
No mês de maio, do dia do
trabalho.
No mês de maio, do dia das
mães.
Ave-minhas-muitas-marias:
Terezinha, Guiomar, Creusa.
Margarida, Marinete, Marisa.
Dina, Bina, Neusa.
Lúcia e Luzia.
E do Carmo.
Ironia, uma só Maria.
Maria, em quarto-depósito nos fundos da casa.
Leito tosco do descanso sem lazer.
Sem ar nem amar.
Maria, esperada, procurada, valorizada.
Falada, aviltada, descartada.
Na velhice-miséria, largada.
Maria, do salário, o mínimo.
Do trabalho, o máximo.
Nosso próximo mais próximo.
Maria, do modelo econômico, produto.
Da concentração de renda, fruto.
E do êxodo rural. Caluda!
“Santa Maria, mãe de Deus”.
Maria como Maria.
“Rogai por nós pecadores”.
Originalmente escrito em Maio de 1978.
Reescrito e atualizado para esta edição do JORNALEGO.
Sugestão de releitura: O MUNDO ENCANTADO DA
LOUCURA, in
http://www.ecen.com/jornalego/no_21_o_mundo_encantado_da_loucura.htm