JORNALEGO
ANO II - Nº 67, em 10 de Abril de 2004.
Opinião
SATÃ E CRISTO
Cinéfilo
amador. Freqüentador assíduo das salas de projeção cinematográfica. Dono de todo o tempo necessário
para o exercício desta atividade. Detentor do sexagenário direito de pagar meia-entrada nos cinemas.
Tudo me faz acompanhar em cima os lançamentos da assim chamada sétima arte (!) e rever em vídeo
filmes antigos.
Especialmente, sou ardoroso e incansável fã do cinema brasileiro, principalmente nesta fase gloriosa
por que está passando. Por outro lado, sou inimigo irado dos filmes de ação americanos.
Assim, só por uma única e mesma razão não vi os filmes Madame Satã e A Paixão de Cristo:
violência.
Embora
elogiado pela crítica e por amigos, não tive coragem de assistir ao filme nacional baseado na figura
do malandro homossexual da crônica policial carioca do passado. Estou seguro da qualidade técnica do
filme, do trabalho do diretor e das excelentes atuações dos atores. Mas, ao saber da existência de
uma cena violenta de sexo, não fui ver a fita. Cheguei a alugar o DVD para vê-la em casa. A partir
das cenas iniciais, imaginando o que viria, capitulei. Não consegui continuar assistindo ao filme.
Nada contra relações homossexuais, mas abstive-me de ver a aludida cena.
Lembrei-me de um romance do Graham Greene. No livro, um padre, acompanhado de um político de sua
paróquia, em visita à capital espanhola, seduzido pelo título de um filme em cartaz, algo como
Paixão de Maria, pensando se tratar de alguma história sobre Nossa Senhora entrou no cinema e
assistiu a um filme pornô. O personagem religioso, casto, ficou chocado com o ato amoroso, que
julgava devesse se dar de forma amorosa, não imaginando que pudesse ser tão violento quanto o que
fora mostrado na tela.
Espero
não estar passando para o leitor uma imagem de moralista, o que não corresponde à realidade. Sem
discutir como se faz ou se deve fazer amor, estou simplesmente preocupado com a estética do discurso
artístico. Que, na minha visão, não deve descambar para a vulgaridade, tampouco, para a violência
gratuita. Conquanto, em filmes pornôs, por sua própria natureza, tudo seja permitido. Quem os
assiste (com exceção do ingênuo vigário) sabe, de antemão, o que o espera.
O
fenômeno repulsivo está me acometendo novamente com o filme recém-lançado do Mel Gibson. A
princípio, não pretendo vê-lo. Nada contra o personagem principal e sua história. Fui a inúmeros
filmes a respeito (e respeito), apesar do meu ceticismo quanto à sua natureza divina. Jesus Cristo
Super Star, Jesus de Nazareth, A Última Tentação de Cristo. A todos assisti e gostei.
No caso de A Paixão de Cristo, pelas leituras das críticas, pelas fotos, pelo trailer, pelas
circunstâncias políticas e mercadológicas que o envolvem, pela história do diretor, não estou muito
convencido a participar desse imbróglio. Principalmente porque acredito que o filme está usando a
violência como linguagem e argumento. Coerentemente com a época que estamos vivendo, marcada pela
violência na convivência humana, na política, na economia, no sexo, nas artes e, finalmente, mas não
em último lugar, na fé.
A
propósito, o que nunca faltou, na trajetória da humanidade, foi a violência da fé. Cruzadas,
Inquisição, judeus x palestinos, protestantes x católicos, xiitas x sunitas, enfim, lídimas
expressões dos fundamentalismos islâmico, judeu e cristão. Por sinal, tristes marcas das religiões
supostamente concebidas através da revelação divina aos seus profetas ou da própria encarnação da
divindade.
Li recentemente uma alusão a um “personagem de Rabelais que, para converter inimigos à fé na Cruz do
Senhor, espancava as cabeças infiéis com a própria cruz da salvação prometida...” (1) Em suma: a fé
na porrada! Como, no mesmo estilo, é a tentativa de implantação da democracia no Iraque.
A fé,
pelo que é, tem que ser administrada em doses homeopáticas, sob pena de se transformar em fanatismo.
Do fanatismo à violência não há barreiras. Uma das piores formas de violência explícita, usar o
próprio corpo em atentados terroristas – os camicases de todos os matizes – recrudesce nesse tempo
de horror, com o fanatismo religioso como pano de fundo.
Para terminar, por não ter assistido ao filme e por isso não ter argumentos próprios sobre o mesmo,
utilizo os de um teórico de cinema, Ismail Xavier, da Escola de Comunicações e Artes da USP,
transcritos a seguir.
“Mel Gibson potencializou o show do sofrimento, abrindo uma grande avenida de voyeurismo e de
sadismo que choca. Há um momento em que o sentido do filme se dissolve diante da contundente
experiência imediata de ver um determinado tipo de impacto que acontece em termos do corpo na tela.
Não me interessa que Mel Gibson queira ser um grande mercador do sofrimento. Ele não gera grandes
expectativas quanto à densidade cultural, portanto, seu filme não me parece capaz de se tornar o
grande porta-voz de uma discussão séria”. (2)
Satã e
Cristo são entidades que simbolizam os extremos de conduta para uma grande parcela da humanidade.
Com as manipulações espúrias de seu nome, Cristo corre o risco de compor, nestes casos, juntamente
com o seu antípoda, as duas faces de uma mesma e triste moeda, a do cinismo aético.
NOTAS:
(1)
Leandro Tocantins - Formação Histórica do Acre - Senado
Federal
(2)
Correio Braziliense - Suplemento “Pensar” - 27.03.2004.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES)
mailto:jornalego@terra.com.br
http://www.ecen.com/jornalego
Sugestão de
releitura:
FAZENDO CHOVER, in
http://www.ecen.com/jornalego/no_24_fazendo_chover.htm