JORNALEGO
ANO II -
Nº 66, em 30 de Março de 2004.
Conto
O
BUQUÊ
“Impossibilitado de comparecer à festa do seu aniversário, por motivo de força maior, mando-lhe
estas flores e um fraterno abraço, esperando revê-la o mais breve possível. Você há de compreender!”
Esse foi
o cartão que acompanhou o buquê de rosas vermelhas, encomendado pelo professor Donato, numa
terça-feira, para ser entregue no sábado seguinte à companheira de cátedra, amiga de longa data,
interlocutora inteligente e ferrenha opositora de suas posições filosófico-religiosas.
Adélia
era um pouco mais velha do que ele. Na infância e juventude, embora fossem vizinhos na Cidade Alta,
não chegaram a ser amigos. Só se aproximaram, intelectual e amistosamente, quando professores no
Colégio Estadual e, mais tarde, na Universidade Federal.
Ele,
reverente da mestra culta e de postura intelectual elegante. Ela entusiasmada com a inteligência
inovadora e explosiva do colega precoce.
Essa comunhão de pensamentos só não se deu no plano das concepções religiosas. Embora convergissem
no terreno ideológico, compartilhando idéias socialistas, divergiam naquele plano idealista. Ele,
racional, espírito científico, materialista. Ela, intuitiva, espiritualista e emotiva. O socialismo
do professor, sem definir muito bem o que fosse isso, a não ser a negação do capitalismo,
contrapunha-se à visão mais radical da amiga que se dizia comunista e espírita.
Comunista porque acreditava, com toda a sua mente idealista no catecismo do Manifesto de Marx e
Engels, nos ensinamentos de Lenine e no sucesso da União Soviética. Quanto ao espiritismo, dizia ter
evidências insofismáveis da existência do mundo espiritual.
Ele criticava o quanto podia o paradoxismo do pensamento dela, tachando-o de heterodoxia delirante.
Ela, em contrapartida, o chamava de cartesiano ortodoxo, preso às ordenadas castradoras do
racionalismo humano.
–
Uma comunista espírita, crente e temente a Deus, absolutamente convicta da vida depois da morte, e
mais, da reencarnação, só mesmo na antropofágica e tropicalista pátria brasileira! Dizia o ateu
convicto.
Nas discussões intermináveis entre ambos, ele nunca se intitulava ateu, embora assim se
considerasse. Achava que tanto o crente quanto o ateu são produtos da fé. Da mesma forma que o
crente não pode provar a existência de Deus, tampouco o ateu é capaz de provar a sua não-existência.
Por isso se auto-intitulava agnóstico. O que significava a sua limitada capacidade e do ser humano
em geral em compreender e explicar os mistérios insondáveis do universo, da vida e da morte. Reduzir
o complexo e o inextricável e chamá-lo de vontade divina é simplificar muito a explicação do
inexplicável.
–
“A razão é a imperfeição da inteligência, a intuição a sua plenitude”, retorquia Adélia, citando S.
Tomás de Aquino. Impossível não admitir a existência de uma força superior na criação do universo,
da energia original. Impossível compreender esse evento como uma coisa espontânea surgida do nada. E
o fenômeno humano, como dissociar isso de uma mente superior? E o sentido da vida? Por mais
antropomórfico que isso possa parecer – assim seu contendor rotulava o argumento contrário – não há
pensamento humano dissociado do antropomorfismo, dizia ela.
A
discussão prosseguia em termos elevados e profundos, além da compreensão e da capacidade narrativa
do autor destas linhas. Durou quase meio século. Durante este tempo firmaram uma amizade
maravilhosa, compartilhada nas salas de aulas, congressos e na intimidade de suas famílias. E no
exercício do contraditório. Respeitavam-se e se instigavam mutuamente, aprimorando seus pensamentos,
seus discursos, cada um em sua trincheira, sem jamais ceder um só passo nas respectivas convicções.
Ela tivera uma grande decepção com o desmoronamento da União Soviética. Sentiu o golpe. Donato
respeitou suas frustrações sem importuná-la. Política é assim mesmo, a realidade é nua e crua. Aí, a
felicidade só viceja no campo da esperança. Como de resto ainda existe a esperança de uma era
socialista, depois dos erros e do tombo soviéticos! E do sucesso selvagem do capitalismo.
Sobre a vida depois da morte e a reencarnação, fizeram aquele pacto corriqueiro entre pessoas que
têm pensamentos diferentes neste particular. O primeiro que morresse tentaria entrar em contato com
o outro, informando (ou não) sobre o day after do infausto acontecimento.
Eis que o professor, já entrado em anos, sentindo fortes dores do peito e no estômago foi internado
às pressas no Hospital de Emergências Cardíacas. Veio a falecer de um enfarte fulminante antes que
lhe pudessem aplicar os métodos intervencionistas ou cirúrgicos da nobre arte de prolongar a vida ou
prorrogar a morte. O desenlace se deu nas primeiras horas da manhã de quinta-feira.
Por vontade expressa foi cremado. Em seu velório, na sexta-feira, foram respeitados todos os seus
desejos. Tudo foi extremamente simples, sem velas, sacerdotes, símbolos religiosos, cânticos,
orações e coisas do gênero. Vestia uma camisa esporte, conforme recomendação explícita. Sugeriu
também que suas cinzas não fossem reclamadas pelos parentes, evitando-se assim a guarda ou qualquer
cerimônia para lançá-las em lugares simbólicos. Morreu como um intelectual seguro de suas convicções
e desta forma foi velado e pranteado. Sem epitáfios.
Adélia compareceu ao funeral e observou atentamente a tudo, reconhecendo a obediência total às
recomendações do amigo, todas coerentes com a sua forma de vida. Intimamente admirou a viúva, que
embora não compartilhando das posições do marido, foi sempre fiel ao seu amado, obedecendo-lhe as
últimas vontades. Sentiu firmeza nas derradeiras decisões do colega. Não houve sequer missa de
sétimo dia.
Mas não nos adiantemos na narração atropelando os acontecimentos. Isso porque no sábado seguinte à
morte do Donato, Adélia recebeu em casa, por volta do meio-dia, o dito e belo buquê de rosas tão
rubras e tão frescas. Ao ler o cartão de encaminhamento, datado daquele dia, foi tomada de grande
emoção. Um raciocínio ingênuo, só explicável sob a pressão dos fortes sentimentos, deu-lhe a
sensação de vitória sobre o brilhante adversário, supondo ter chegado ao fim a interminável pendenga
sobre o assunto que sempre os dividiu. Cerrou os olhos devagar, devagarzinho, ficando rosamente
encantada. Pastoreando nuvens cecilianas se perdeu nas imensidões desconhecidas da
eternidade.
Genserico Encarnação
Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES)
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