Jornalego
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ANO II - Nº 65, em 20 de Março de 2004. Memórias BELO HORIZONTE (Final) Segunda Parte: A Cidade Emblemática. Política. Dentre todos, o fato mais importante de nossas viagens a BH, foi a posse de Juscelino Kubitschek no Governo de Minas Gerais, no início de 1951. Trepado numa árvore na Praça da Liberdade frontal ao palanque armado na entrada principal do Palácio do Governo, apreciando a manifestação popular por sua posse, lembro-me claramente do discurso de um dos oradores: “Juscelino Kubitschek, prefeito de Belo Horizonte, Governador de Minas Gerais, futuro Presidente do Brasil”. Eu pensei, esses mineiros são muito pretensiosos! Mas, como se sabe, JK foi realmente eleito nosso Presidente em 1955 tendo nos governado de 1956 a 1961. Naquele ano de 1951, estava de volta ao governo federal Getúlio Vargas. Depois de um bom recesso nos pampas, de onde era originário, vencendo, desta feita, uma eleição democrática. Tinha governado o país por um longo período de 15 anos, ditatorialmente, desde a Revolução de 1930. A despeito de dois períodos autoritários (Vargas e militares) o Brasil depois de 1930 e mais particularmente depois de 1950, viveu uma época gloriosa de sua história. A II Guerra Mundial acabara havia pouco tempo. Com ela a ditadura Vargas. O Brasil, desde então progredia em todos os sentidos, numa escalada que só terminaria na década de 80. Do fim da Guerra ao início dessa década a economia brasileira cresceu cerca de 7% ao ano. No quarto de século que se seguiu ainda não recuperamos o ritmo progressista. O governo constitucional de Vargas sofria forte pressão da oposição e das classes conservadoras que ao descobrir atividades ilícitas de sua assessoria mais próxima fez com que ele terminasse tragicamente com o suicídio do Presidente, em agosto de 1954. Essas atividades, conquanto existissem, foram usadas como pretexto para acabar com um governo nacionalista, que criara a Petrobras e preparava a criação da Eletrobrás. Getúlio também fora o criador da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), no seu tempo de ditador. Bem como da Consolidação das Leis do Trabalho. A CSN e a CVRD foram privatizadas, a Petrobras perdeu a exclusividade do exercício do monopólio estatal do petróleo, isso no governo FHC. A privatização da Eletrobrás (e de Furnas) foi sustada pelo atual governo. Depois da morte do Getúlio e do interregno de dois mandatos tampões – Café Filho e Nereu Ramos – a eleição do JK levou-o ao Palácio do Catete, a sede da Presidência, no Rio de Janeiro. Esta foi a época de ouro da democracia brasileira e do desenvolvimento nacional em vários setores, apesar de três tentativas de golpe. Uma anterior à sua posse, para impedi-la. Duas outras para destitui-lo. Superou todas. JK fez construir Brasília e impulsionou a nossa industrialização, tendo como carro-chefe a indústria automobilística. Incentivou os setores de transporte e energia. Contou com forte apoio de investimentos estrangeiros embora sem aceitar a cartilha do FMI. Os governos militares que depuseram Goulart (vice de Jânio Quadros, que por sua vez sucedeu a JK) instauraram a ditadura e a repressão, mas deixaram-nos a ponte Rio-Niterói, a usina de Itaipu, obras de infra-estrutura, outros empreendimentos de base (metalúrgicos, petroquímicos, celulose etc.), a utilização das terras do cerrado e uma política nuclear desastrosa. Depois, até agora, o Brasil praticamente parou, contaminado pelo legado da dívida pública gerada pelo último período e pelas tentativas de estabilização da moeda. Tristemente, tudo isso num período de recuperação das instituições democráticas. Lembro-me, e é bom que nos lembremos, que o governo de JK passou a ser unanimemente considerado exemplar muito depois que se encerrou. Ele e seu governo foram alvos de inúmeras críticas e denúncias (de corrupção, por exemplo), especialmente pela construção de Brasília. Tanto é que o seu candidato a Presidente para substitui-lo, o Marechal Lott, foi derrotado pelo fenômeno eleitoral Jânio Quadros, que veio a renunciar. Quando comecei a escrever essas memórias queria focalizar os benefícios e privilégios que minha geração teve nesta parte da história do Brasil, de crescimento econômico e muitas oportunidades. Daí o título delas, belo horizonte, com duplo sentido, com maiúsculas e com minúsculas. Sem qualquer premeditação, no meio do texto, fui surpreendido com a lembrança triste de parte de minha geração que se imolou para que nós tivéssemos a democracia de volta. Outros representantes dela, poucos, estão hoje no poder. De repente, na minha memória, despontou uma terceira parte da geração. Aquela que estava bem distante das benesses dessa época e das lutas políticas, os mais miseráveis, os negros e os emigrantes nordestinos, fugindo das secas em busca de oportunidades de vida. Dos que se sobressaíram desse contingente está o nosso atual Presidente da República. João do Valle tem uma música pungente que canta aqueles que não saíram do Maranhão, que não puderam estudar e virar doutor, nem sabiam compor músicas. A emigração nordestina para o sudeste e sul do país, apesar da sua magnífica contribuição ao progresso dessas regiões, não é tão reconhecida como a imigração estrangeira. O preconceito é muito grande. Em contrapartida, o deslocamento de grande população nordestina para o norte, indo até o Acre, é muito bem recebido pelos nativos dessa região, pela igualmente imensa colaboração prestada. Rendo minha homenagem a eles (cassados, presos, exilados, torturados, mortos, migrantes dentro de seu próprio país, negros, índios e miseráveis em geral) e peço licença para continuar. “Sou feliz, sou um homem feliz. Espero que me perdoem por este dia os mortos de minha felicidade”. Versos do poeta cubano Pablo Milanez, musicados pelo Chico Buarque, citados de memória. Grande parte da geração privilegiada, a qual pertenço, recebeu educação pública, nas escolas, colégios e faculdades. Grande parte trabalhou na consolidação e crescimento das empresas estatais e nas grandes obras estatais. Tivemos o nosso belo horizonte, nossas oportunidades, nesta quadra ímpar da história do Brasil. A despeito da dor e da miséria de tantos. Alguns contemporâneos não decodificaram bem essa realidade, as oportunidades, a experiência que tiveram, seu sucesso. Assim penso. O que se passou comigo foi válido para demonstrar esse ponto. A seguir o relato. Uma grande oportunidade que tive foi fazer o mestrado em Economia na Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. Com a aprovação em concurso de admissão passei a ganhar uma bolsa de estudos que superava o salário de bancário que então percebia, com o cargo de procurador, com mais de cinco anos de trabalho na instituição. Ali, nos anos de 1965 e 1966, tive a oportunidade de ser aluno de um grande professor de Teoria Econômica, muito inteligente. Estou me referindo ao Mário Henrique Simonsen, futuro Ministro do Governo Geisel, muito badalado no mundo econômico brasileiro. Nunca aprendi tanto, desde a insuficiente matemática que me faltava. Entretanto, não considerava o Simonsen um grande economista. Atentem que o trato aqui por grande professor de Teoria Econômica. Daí para a prática política da Economia, para mim, interpõe-se uma grande distância. Ao fim do curso tive excelentes oportunidades de emprego. Fiquei no IPEA, um instituto de pesquisa econômica aplicada do Ministério de Planejamento. De 1967 a meados de 1970. Fui assessor, nos meses finais desse período, do Ministro Velloso, do Planejamento, outro que foi meu professor na FGV. Época da ditadura, dos governos militares. É interessante enfocar este período. Os militares se valeram de uma geração de excelentes técnicos para viabilizar seus governos. Em grande parte, economistas que tiveram seu aprimoramento nos Estados Unidos. Vieram de lá cheios de teorias que foram empregadas aqui, ao sul do Equador, com belos resultados econômicos e terríveis repercussões sociais. Valem, como sempre, as exceções. Passado o período dos governos a que serviram, mesmo as repercussões econômicas são trágicas. Mesmo na FGV nosso potencial era todo voltado para as técnicas econômicas sem discussão da problemática política e social do nosso país. Lembro-me que o coordenador do curso fazia oposição velada à leitura de obras como as do Celso Furtado. O curso era financiado por fundos americanos, como de resto quase todas as bolsas dos que fizeram pós-graduação nos Estados Unidos. Com a aprovação em concurso para ingressar na Petrobras ao final daquele período, para lá me transferi. A Petrobras e outra possibilidade que se me abriu, estudar no Instituto de Estudos Sociais, em Haia, na Holanda, propiciaram a grande virada na minha cabeça. Com trinta e poucos anos, somente aí, fui entender melhor o processo de poder e de doutrinação a que estamos presos, como crianças em aulas de catecismo. A Petrobras pelo aprimoramento da visão nacionalista. A Holanda pelos estudos ali realizados, pela convivência com colegas da América Latina, Ásia e África (a quase totalidade de cerca de 200 alunos) e pela oportunidade de observar o país de fora para dentro. O meu curso na Holanda foi financiado pela Petrobras. Esse fenômeno não é bem compreendido por grande parte da geração favorecida, tampouco por muitos da elite social brasileira. Precisamos fazer um banho de imersão na época dourada do desenvolvimento brasileiro, para de lá, com um apurado exame de consciência, sairmos com um novo modelo de desenvolvimento, não necessariamente a cópia do passado. Mesmo porque, naquele período, a despeito do rápido crescimento econômico, os indicadores sociais não tiveram o mesmo bom desempenho. A propósito, prefiro civilização a crescimento econômico. Civilização induz preservação de nossa cultura, bem-estar da população para o qual é relevante uma melhor distribuição de renda, proteção ambiental, universalização da educação etc. Nosso projeto Brasil, nosso belo horizonte, tem que passar por aí. O século XX, a despeito de ter sido o mais violento dos séculos, trouxe-nos grandes acontecimentos. No século XXI, países como o Brasil, Rússia, Índia e China, por força de suas características, podem vir a se ombrear com os grandes países do mundo. Para isso, passo importante é compreender o passado, decodificar a história, como os infantes do catecismo e os jovens recém-saídos dos bancos escolares. Belos horizontes são fundamentais nas vidas das pessoas, das nações e da humanidade. Para uma classe privilegiada, nós os tivemos e fomos beneficiados. Eles, por certo, ainda existem. Precisam ser viabilizados e generalizados. FIM Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
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