JORNALEGO
ANO II - Nº 63, em 30 de Fevereiro de 2004
Anfiguri
O DIA QUE NUNCA HOUVE NEM HAVERÁ
Sempre esperei que isso acontecesse num dia
desses! Todos esperamos! Por mais absurdo que possa parecer. Sempre estamos
esperando por alguma quimera, quem dera acontecer. Finalmente aconteceu. Aqui, o
relato pormaiorizado dos fatos e atos, eventos e ventos, contados, rintintim por
rintintim, como foram realmente, nesse dia de cão.
O dia raiara no meio da tarde, quando a
estiagem provocada pela seca inclemente fazia chover a cântaros. A canícula em
seu cavalo incitatus galopava pelos campos asfaltados da plana serra. Depois
passaram para a acidentada planície. Só quem botou os pés na rua foi o glorioso
exército da salvação protegido com seus garbosos capacetes de aço que faziam os
cântaros se despedaçarem quando em choque com eles. Nas primeiras horas da
madrugada, quando o sol se punha, da foz do mar que desaguava rio adentro, um
outro esquadrão apareceu trotando. Era um enxame de peixes cavalgando cavalos
marinhos que, piscosos, saiam das águas igualmente marejados. Estava deflagrada
a revolução praiana que iria invadir os sertões e reverter o revertere ad
louco tuum, voltando tudo ao mesmo lugar de antes. De uma vez por todas,
para sempre. E nunca!
Desde muito tempo, antes mesmos dos tempos
homéricos, que babilônios e caldeus, aliados aos godos, visigodos e engodos de
uma maneira geral, em cruzadas ebúrneas, almejaram a descoberta do princípio
básico da alquimia para a fabricação de genéricos que pudessem possibilitar a
disponibilidade de sombra-e-água-fresca universalizadamente. Ora direis ouvir
galáxias! Por certo perdestes a última viagem do periscópio espacial Hubble que
flagrou as excrescências celestes no próprio âmago dos intestinos cosméticos –
escatológicas figuras – em toda sua flatulência.
Foi quando empunhando a sua catapulta
eletrônica o salvador da lavoura transgênica, Pipinus, dos grandes, defensor dos
pobres e ó premidos, palatino da boca-livre, feriu os céus de todas elas, e
lançando o seu brado retumbante, que o sol da liberdade em raios-x dissecaram em
transparências lúcidas, ele, gemendo e suplicando, proferiu: eia, pois,
enamorada nossa, fica proclamado o fim das intempéries.
A chuva se transformou em confetes e
serpentinas. O ar transfigurou-se e o cheiro de lança-perfume inebriou os
sentidos todos, fazendo-se ouvir os mais imbecis sambas-enredos da antologia
antológica, antes lógica, sua anta, lógico. Trabalhadores do mundo, cada um por
si e deus por tolos. Avante ó terra estremecida pelos berrantes cantos
exuberantes de exu.
Chega, basta. Ninguém merece essa agonia. Tipo
assim. Esse estado catatônico a que chegamos. Noz, que recorremos à voz. Salvem
as criancinhas. Continuemos a pelear. Agora e sempre.
Isso jamais poderia acontecer. Como não
aconteceu. Mesmo porque nunca, na história gregoriana, houve um dia trinta de
fevereiro, dia da publicação do presente exemplar exemplar deste hebdomadário
decendial. Confira neste cabeçalho, com ou sem rima, que encima esta edição,
mais precisamente, que endireita a segunda linha dela. Nem nos mais tradicionais
anos bissextos isso soe acontecer. Talvez, quem sabe, um dia, isso venha a
ocorrer nos anos trissextos, esses com 666 dias, com três seis, como o nome não
deixa dúvidas, quando porventura passarem a existir. Anus da besta! Desse dia em
diante, começará a vigorar o decrépito decreto que institui a instituição da paz
universal e a igualdade entre os homens. Quanto às mulheres, isso fica para
depois. Para o próximo dia trinta de fevereiro.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES).
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