JORNALEGO
ANO II - Nº 62, em 20 de Fevereiro de
2004.
Ficção
ELETRA CONCRETA
Esse é o nome de uma peça teatral do Gerald
Thomas, a qual assisti e não entendi nada. Ou seria “Eletra com Creta”? Não me
lembro. Nunca mais passei pela bilheteria de suas peraltices. Não estou a sua
altura! Ele pode ser genial para o Becket, para os mais intelectualizados ou
para a classe teatral. Eu, tô fora! Espero que este título não caracterize ou
estigmatize textos herméticos, inexpugnáveis, impermeáveis e impenetráveis à
compreensão dos humanos mortais. Que não seja o caso deste aqui. A menção feita
a ele é porque...
Conheci Eletra depois de muita
troca de mensagens pelo correio eletrônico. Ela completou o curso de Letras na
Universidade Federal do Estado e após uma pesquisa sobre páginas literárias
independentes na Internet – sua monografia de conclusão do curso – apaixonou-se
pelos meus escritos. Depois pelo autor. Literalmente. No duplo sentido da
palavra. Isso não é gabolice. Taí o Carlos Alberto que não me deixa
mentir sozinho.
Virou minha leitora compulsiva. Leu
tudo de meu, como diria Manuel Bandeira. De dez em dez dias, ansiosa, contava-me
ela, abria seu micro à espera de um novo número do Jornalego. Fazia sempre seus
comentários através do correio-e.
Com esse nome, Eletra nascera predestinada.
Vivia a devorar livros e mais livros e ao terminar o bacharelato, foi
encaminhada, em vista do seu excelente aproveitamento, para o mestrado de
Lingüística, na UFRJ. Hoje está morando no Rio. A predestinação não para por aí,
como se verá mais adiante.
Quando ainda estava cursando o
último período, no ano passado, foi que a conheci em sua inteireza. Simpatia,
sensualidade, inteligência e beleza. Foi em meio a uma caminhada no calçadão da
praia que ela me apareceu de short e bustiê, cabelos curtos, pintados de
vermelho e emparelhou-se comigo.
Posso te acompanhar, professor?
Abordou-me com aquele tipo de pergunta cuja resposta não cabem alternativas.
Apresentou-se. Reconheceu-me pela foto exibida (no duplo sentido, é claro) na
Internet. Encetamos uma conversa que me mostrou uma menina inteligente (já
disse), sensível, inquieta, mais nova que a minha filha caçula. Soube depois que
tinha pouco menos de 25 anos de idade. Portanto, 40 anos mais nova do que eu.
A conversa rolou sobre literatura o
que revelou um professor com muito menos conhecimento e preparo do que a
aluna. Daí, o papo, inevitavelmente, direcionou-se para os meus escritos.
Mostrou toda a sua admiração pelo que escrevo, dizendo coisas que me deixaram
muito envaidecido. O sufixo do meu jornal foi como nunca afagado e expandiu-se,
quase pocando*. Era o que eu precisava ouvir depois que minha auto-estima
desceu ao rés-do-chão com as críticas recebidas de um ingrato personagem.
Não vale a pena recordar nossos
papos literários. Eu não conseguiria lembrar (nem tampouco inventá-los, mas isso
é outra história). Acontece que com algumas caminhadas lado a lado ela passara a
conhecer muito de minha vida particular e o processo de criação de historietas e
artigos variados. Riu a valer, quando adaptei o que uma jornalista carioca
dissera de sua coluna social, ao me referir ao Jornalego como “uma instituição
de inutilidade pública”. Soube dos meus almoços com o Carlos Alberto, às
quintas-feiras, e sem eu perceber já se convidava e fora aceita a participar dos
próximos.
No final do segundo almoço, dei-lhe
uma ponga* até a sua casa. Convidou-me a subir ao seu apartamento para
mostrar livros, poesias de sua lavra e planos para o futuro.
O diabo é sábio, não porque seja
inteligente, mas porque é velho! Assim, eu já estava a desconfiar daquele brilho
diferente em seu olhar ao se encontrar com o meu. Senti que existia um certo
clima por parte dela estimulado pela admiração de minha parte. A coreografia
incorporava um roçar de braços, palavras acompanhadas de mãos que me tocavam e
um certo ar de desfrute, de entrega, nos gestos, olhares e voz.
Foi quando de repente, recebi um
caloroso beijo na face, corando-me mais do que pimenta malagueta. Peitos
gloriosos num peito arfante quase saltavam do decote, hoje mais decotado do que
nunca.
Dei um basta muito elegante àquilo
tudo alegando minha provecta idade. Com certeza pensando no triste papel que iria desempenhar se levasse à frente esse jogo. Despedi-me logo a seguir.
Voltamos a conversar mais algumas vezes, por telefone, antes de sua ida para o
Rio. Sempre sobre assuntos literários, sempre que lhe remetia um novo número do
Jornalego.
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*
Pocando e ponga são expressões do capixabês.
Respectivamente significam estourando e carona. (N. do E.)
Eletra tinha algum problema
psicológico. Lembrei-me de nossas conversas anteriores quando citava
esporadicamente a mãe viúva. O pai morrera-lhe em tenra idade. Praticamente não
chegou a conhecê-lo. Numa das conversas telefônicas recomendei, com muito tato,
uma visita a um profissional, alegando minha própria experiência. Aceitou o
conselho.
Outro dia ela apareceu de volta na
cidade. Contou-me sobre o início do mestrado. Voltara rapidamente para visitar a
mãe operada que estava passando muito bem. Obrigada. Do papo, notei que as
seções de psicanálise estavam a lhe fazer muito bem. Seu, assim chamado,
complexo, estava regredindo. Estava namorando o professor de Filosofia, apenas
vinte anos mais velho do que ela.
Nesse último papo, lhe fiz ver, o
quanto tinha gostado de ter contatos com ela o que me permitiu realizar um
grande sonho, transformar um leitor num personagem. Doravante, nos meus
escritos, estão rompidas as demarcações rígidas entre o autor, o leitor e o
personagem. Assim como não há barreiras, na literatura, entre o real e o
imaginário. Aliás, filosoficamente, a realidade é uma criação. Disse para
aguardar o próximo número – este – e ela ficou ansiosa em recebê-lo no dia 20
vindouro.
Depois de ler esse texto – sempre
submeto a ela os meus escritos antes de encaminhá-los aos destinatários – minha
mulher elogiou a minha criatividade. Tanto gostou que, desde então, leva-me aos
e busca-me dos almoços de quinta-feira com o Carlos Alberto. Às vezes participa
deles e de nossas conversas, animadamente.
Está uma gata esta minha
cara metade! Desfila uma silhueta escultural depois que passou também
religiosamente a caminhar comigo, todos os dias, seis quilômetros, de manhã
cedinho, no calçadão da praia. Ela que gostava tanto de dormir até tarde!
Contudo, uma vida mais saudável merece todo o tipo de esforço! Não é mesmo?