Jornalego
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ANO II - Nº 61, em 10 de Fevereiro de 2004. Crônica epistolar MOTIM A BORDO Senhor contador de causos, Simbolicamente, saio do meu tugúrio. É assim que chamo meu atual refúgio. Na realidade, estou a abrir mão do meu silêncio e a interromper minha solidão para fazer algumas considerações sobre sua atual atividade de escrivinhador e uma solicitação final ao meu todo-poderoso deus ex-machina, meu senhor e criador. Em primeiro lugar, por que me chamar de Ezequiel nos seus contos de Natal e Ano-Novo? Pelo pouco que sei, esse foi o nome de um anjo e também de um profeta. O último teria até comido fezes para mostrar sua cega obediência a Deus e tudo fazia para levar seu povo à libertação do jugo alheio, como tantos profetas hebreus, com exceção de Jesus, que dizia pertencer a outro reino. Mas isso não interessa! O personagem bem que poderia não ter nome, como em tantas peças literárias. Mas ao me batizar, eu passei a existir como Ezequiel. Ter identidade própria, ser uma entidade! Assim sendo, não é qualquer um que vai usá-las ao seu bel-prazer, sem considerar os possíveis danos que possam ocorrer de uma exposição gratuita. Uma identidade é uma identidade, uma entidade é uma entidade, e têm que ser preservadas e respeitadas. Eu estava quieto na minha macróbia solidão. Até mesmo na minha não-existência. De repente, você as escancarou urbi et orbi. Aliás, o que duvido muito! Vá lá que na urbi você tenha alguns leitores. Mas daí para pensar na orbi é muita pretensão, não acha? Como bem sabe, também tenho a faculdade da onisciência sobre seus personagens e escritos. Conheço-os todos. Convivo com eles no disco rígido do micro, nos disquetes onde você faz o back-up dos seus textos, naquele envelope pardo onde você guarda, impressos, os seus trabalhos, e até mesmo na página da Internet. Citando de cabeça, lembro-me do coitado do Romualdo; do trio amoroso Lotário, Camila e Anselmo; Jacques, o aposentado; padre Jorjão; do menino Jorginho; Mauricinho e Raphael; Branquelinha; minha saudosa Margô et caterva. Observo como você nos trata a todos. Nossas identidades, nossos nomes, pouco importam para você. O que lhe interessa é inventar e desvendar histórias, emoções, nossas vidas, mais precisamente, amores, dramas, relacionamentos. Mesmo quando você emprega a primeira pessoa, ele, o Eu, é um personagem com o qual você também não demonstra ter muita consideração. E a devida discrição. De você sinto um distanciamento, um alheamento com relação a nós, como se tivesse a lidar com cobaias, na tela branca do seu computador. Você, de avental, luvas, touca e máscara cirúrgica. Tudo de forma muito asséptica. Não há envolvimento emocional maior, empatia, é tudo muito epidérmico, embora você possa passar algum tipo de emoção. Seu objetivo é, nesse laboratório, produzir autópsias (ocorreu-me este termo mórbido) de personagens pretensamente humanas, intercalando-as com algumas observações ligeiras sobre política, economia etc. Terminado o seu textículo, você o distribui para a sua lista de correio eletrônico e ansioso aguarda alguns comentários. Sempre têm aqueles bondosos amigos que o cumprimentam pelo que escreveu. Outros apontam incorreções, que você rapidamente conserta, para remeter o texto correto para seu site.Tudo para satisfazer o seu ego (aliás, o nome do seu jornal é uma pérola freudiana), para se sentir de alguma forma admirado, lembrado, para preencher sua imensa carência e seu ocioso tempo de desocupado. Você já pensou em deixar-nos em paz na inexistência de nossas não-vidas e dar uma folga aos seus destinatários (serão necessariamente leitores)? Dispensá-los desse cabotinismo, dessa exposição de vaidade, utilizando geralmente o sofrimento e, muito pouco, as alegrias desses pobres personagens, simulacros de seres humanos? Aqui vai um conselho. Talvez, quem sabe, você pudesse tentar um romance (aí eu quero ver seu engenho e arte!). Teria você capacidade de encarar esse empreendimento, como um escritor que se preza? Dessa forma as vidas de seus personagens estariam sendo mais valorizadas, porque mais cuidadas e elaboradas e, conseqüentemente, mais reservadas e preservadas. Quem quisesse entrar na intimidade delas que adquirisse o livro e o lesse na calada do seu interesse individual. Outra coisa é sair por aí, aspergindo rápidas historinhas e tirando onda de criador de contos e vidas. Duvido muito de seu envolvimento emocional conosco. Por mais que use clichês como foi no meu caso (“com profundo respeito e solidariedade humana”). Puro blá, blá, blá. Ao me usar como personagem você não chegou nem às fímbrias dos sentimentos descritos. Você, que se pensa contista está fazendo um papel de simples colunista social. Não sente as emoções vividas, simplesmente tenta provocar tais sentimentos nos outros esgrimindo palavras como essa fímbria que acabo de usar. Um dos sentimentos mais fáceis de serem atiçados no ser humano é a emoção. Você sabe como fazer isso. Tem algum estilo. Um simples prestidigitador de emoções baratas. Veja, eu até chorei na morte do Roberto Marinho! Nada pessoal contra o falecido jornalista. Critico a exacerbação dos sentimentos provocada pela Rede Globo. Tenho um amigo que se debulha em lágrimas quando vê a bruxa da Branca de Neve nos filmes que assiste com os netos. Principalmente quanto aos mais velhos, as comportas da emoção ficam mais frouxas e se abrem assim com qualquer mudança dos ventos sobre a superfície das águas contidas. Sob o efeito do álcool o sentimentalismo se acerba. Acho que você deveria se dar conta dessa facilidade. Fácil como conquistar o coração de uma mulher. Razão porquê tantas são enganadas! Ao ver na televisão esses modelos anoréxicos a desfilarem nos Fashion Weeks da vida – a Gisele Bündchen, por exemplo – naquele trotar requebrante, entrecortado de voltinhas e piruetas, aquela arrogância, cheia de penduricalhos, pouca roupa e transparências, eu me lembro de você, expondo periodicamente suas literatices, truques e maneirismos, às vezes escorregando na passarela traiçoeira do vernáculo. Por quê? Que necessidade é essa de escrever, de se mostrar, comunicar-se, contando essas historietas inventadas, crônicas anacrônicas e fazendo comentários que beiram aos repugnantes tratados de auto-ajuda? Alguns números são chegados a um besteirol. Você por acaso não desconfia que a grande maioria de seus destinatários nem sequer abre os anexos de suas mensagens? Preferem seguramente uma piadinha esperta a ler historietas inventadas de quatro a cinco páginas. Deleta Jornalego! Talvez uma minoria o leia. Uns, por amizade, outros, por disporem de mais tempo para perderem com essas viagens ficcionais ou discussões destituídas de qualquer objetivo prático. Por que você não ocupa o tempo com uma atividade assistencial, com tanta gente precisando de ajuda. Vá dar aula, transmitir sua experiência. Criar algum negócio, gerar empregos, ó homem! Aproveite a vida útil que lhe resta! Finalmente, o pedido. Senhor contador de histórias, livre-me desse fardo, dessa minha existência ficcional. Mesmo pertencendo ao mundo inorgânico, na realidade, virtual, pesam-me muito o passado penoso que me impingiu, o presente de observador passivo e meditabundo, e o futuro próximo e incerto. Deixe-me voltar para de onde nunca deveria ter saído, do nada, da não-existência. Devolva-me a paz do não-viver. Não quero mais sofrer os sofrimentos que não tive, imputados a mim leviana e impunemente, assim sem-mais-nem-menos, sem qualquer consideração, sem nenhum pedido de licença. Enfim, um estupro na minha intimidade, e por extensão na dos meus colegas personagens que, por sinal, mais revela a sua. Invocando os princípios éticos do jornalismo, solicito a publicação, na íntegra, desta missiva. Sinceramente, (a) Ezequiel Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
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