JORNALEGO
ANO II - Nº 60, em 30 de Janeiro de 2004
Artigo
O SUL DO MUNDO
Encerrei minhas leituras no ano
passado com “Vida e Época de Michael K.”, do escritor sul-africano, J. M.
Coetzee (Prêmio Nobel de Literatura de 2003). Excelente presente de Natal.
O personagem do livro é um dos mais pungentes e
sem paralelo na literatura mundial a que tive acesso. Um negro, portador de um
pequeno defeito físico facial, sem recurso nenhum, em tempo de guerra (?), na
África do Sul recentemente saída do regime do apartheid. Responsável pela
mãe velha, recém-desempregada como trabalhadora doméstica. Sem conseguir licença
para viajar para a região natal, empreende a viagem a pé, empurrando pelas
estradas uma cadeira de rodas improvisada, carregando a genitora. Depois da
morte da velha senhora, perambula pelos campos vizinhos.
Trata-se de um pária, cujo único objetivo na
vida era simplesmente subsistir refugiando-se da sociedade. Habita toscas tocas,
alimenta-se de insetos, pequenas caças e do pouco que consegue plantar
escondido. Sem saber porquê, vive sendo perseguido pelas facções em guerra, como
se fosse inimigo. Não lhe é permitido simplesmente existir. Pior, quando preso é
explorado em trabalhos forçados e retido em campos de concentração.
Associei a África do Sul do romance à América
do Sul do artigo de Rubens Ricupero (Secretário-geral da Conferência das Nações
Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – Unctad), de 18.01.2004, na Folha de S.
Paulo, intitulado “O Continente da Tristeza”. Começa lembrando os “Tristes
Trópicos” de Lévi-Strauss.
Este, por sua vez, retratou Vitória, em seu
retorno para a França, do navio que fazia escala na cidade, em 1939, numa bela
fotografia que guardo comigo. Tropicais, tempo e espaço do meu nascimento.
Incorporei este parágrafo para me sentir mais intimamente ligado ao assunto que
abordo.
Não vou repintar o triste panorama visto por
Ricupero. Simplesmente focalizo alguns pontos, retirados por sua vez de
relatório da Cepal (Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina).
O produto per capita da região é 1,5% inferior
ao que era em 1997. O ano passado foi o quinto ano seguido de transferência
líquida de recursos para o exterior. Cinco por cento da renda produzida, nesse
período, foi para o estrangeiro. Lucros, dividendos e juros, passaram de US$
50,8 para US$ 54,8 bilhões, de 2002 para 2003. Esses números são em grande parte
o resultado da política de privatização dos governos passados. Mesmo em anos de
estagnação econômica, a sangria é pavorosa.
Ao lado de uma desindustrialização precoce do
parque brasileiro, a modernização tecnológica eliminou 10,76 milhões de empregos
entre 1990 e 2001, aos quais as importações adicionaram (isto é, reduziram) mais
1,54 milhão de postos de trabalho. Esses dados são de levantamento realizado
pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), também a pedido da Cepal.
A pobreza financiando a riqueza! A sangria
continua assistida por técnicos anestesistas nativos!
O Consenso de Washington, cartilha dos
neoliberais, seguida à risca por nossos governantes, liberalizando o comércio,
levou o valor agregado em manufaturas da América Latina, que era 60% maior do
que o do leste asiático no início dos anos 80 a cair para um quarto do valor
desses países em 2000, enquanto as exportações asiáticas ficaram três vezes
maiores do que as nossas.
A capacidade de investir de nossa América
Latina, requerimento fundamental para sairmos dessa situação, está hoje 12,5%
inferior à de cinco anos atrás. Em 2003, há 20 milhões de latino-americanos
pobres a mais que em 1997.
Não entendo como ainda existem pessoas,
incluindo criadores de opinião na imprensa nacional, que acham que os nossos
países devem se submeter aos ditames dos países ricos, sem impor nossos pontos
de vista, nossas necessidades, enfim, o que resta de nossa independência. Não
necessariamente chutar o pau da barraca, mas com autoridade e altivez,
não deixar que essa situação se deteriore ainda mais. É o caso das negociações
para a criação da Alca, onde a diplomacia brasileira já marcou alguns tentos
firmando posição e liderando países de idêntica situação. Se a Alca passar como
os americanos almejam a coisa vai ficar feia para nós: abertura total de
mercados, igualdade na concorrência das compras governamentais, lei
supranacional de patentes etc.
O exemplo vem do Nafta – a associação de
livre-comércio norte-americana – que tem deixado debilitados a economia e o
mercado de trabalho no México. Milhares de empregos foram para o espaço. Entrar
assim, de cara limpa, nessas associações desiguais é equivalente a concorrer na
Fórmula Um, em igualdade de condições com a Ferrari, num carro de uma nascente
equipe brasileira. O mais justo é adotar as regras do golfe, quando o mais fraco
tem um handicap (representando sua desvantagem relativa) quando se
defronta com o sabidamente mais forte.
Depois de ter assistido ao excelente filme
“Segunda-feira ao Sol”, de Fernando León de Aranoa, que mostra o drama de
desempregados num estaleiro ocioso espanhol por causa da concorrência coreana,
imaginei a linha reta do Equador, se flexibilizando e enlaçando bolsões de
pobreza no rico norte político-econômico, por força da devastação capitalista
selvagem. Na Comunidade Européia, nos Estados Unidos, na outrora União Soviética
e no Oriente Médio. Uma fala do filme me ficou gravada. Colocada na boca de um
russo residente na Espanha: “Tudo que nos contaram sobre o comunismo era
mentira. Tudo que nos dizem do capitalismo é verdade!
Para finalizar um comentário sobre o gesto
obsceno do piloto americano ao ser fotografado no seu desembarque no Brasil. Um
gesto inconseqüente, isolado, pessoal, vulgar, que não poderia – como
efetivamente não foi – ser considerado um incidente diplomático. Que merecia –
como parece se deu – ter uma exemplar punição. Contudo, acredito que aquele
gesto possa simbolizar o inconsciente coletivo de grande parte da população do
norte do planeta, resquício do período colonial, que considera o sul como o
derrière do mundo
Foi na tentativa de reverter esta situação que
o Brasil mudou de governo.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES).
mailto:eeegense@terra.com.br
http://www.ecen.com/jornalego