Jornalego
|
|
|
ANO II - Nº 59, em 20 de Janeiro de 2004 Conto CONTO DE ANO-NOVO Passado o período de festas, das quais não participou, Ezequiel continuou levando a vida rotineira de velho solitário. Ao acordar na manhã do primeiro domingo do novo ano teve vontade de escutar alguns discos de sua antiga coleção. Colocou um vinil na eletrola. O corretor de texto rejeitou a palavra, grifando-a em vermelho. Então, ele colocou o vinil na vitrola. Aceito o termo, passou a ouvir a voz poderosa e maviosa da Gal: “Talvez, quem sabe, um dia... O século trinta vencerá / O coração destroçado já / Pelas mesquinharias...” Versão do poema “O Amor”, de Vladimir Maiakovski, com música do Caetano. Trocou o posto de observação da véspera de Natal. Após tomar seu café-com-leite e pão-com-queijo-de-minas, postou-se numa cadeira de plástico, na varanda, à sombra e à brisa de outro dia pleno de verão, voltando-se para a porta de vidro que dá para dentro de casa, agora aberta. Deu as costas para o mundo exterior vizinho que divisara do sofá da sala e que tanto lhe fascinara no conto passado. Como de costume, não deu a mínima bola para a paisagem marinha que se descortinava, desta feita, do seu lado esquerdo. Olhava detidamente para dentro. Naquela outra oportunidade, esteve a passar o tempo cronológico acompanhando o ritmo cósmico e suas conseqüências imediatas e superficiais. Da sala testemunhava as mutações de sua pequena mostra (e amostra) do mundo exterior. Agora ele sai, afasta-se um pouco, para, de fora, perscrutar seus interiores. Observa a sala vazia. Nela, uma mesa de refeições com seis cadeiras, toalhinha de crochê ao centro e um vaso de flores artificiais de confecção artesanal. Há muito tempo não é usada. Gostava de reunir parentes e amigos, geralmente em torno de uma moqueca de badejo, um peixe assado ao molho de alcaparras ou um bacalhau com batatas, cebolas e azeitonas pretas. Era a oportunidade de usar seus conjuntos de pratos, cristais e talheres de belo desenho. Ele mesmo arrumava a mesa em tais ocasiões. Se deixasse por conta da mulher talvez ela usasse os do dia-a-dia. Mulher, dizia, não vou deixar esses preciosos aparelhos para serem usados pelo outro quando eu me for desta para melhor. Ela que se foi. Coitada! Há pouco mais de três anos. Quarenta anos de convivência, desfeitos numa longa agonia de uma doença fatal, cultivada durante anos de tabagismo inveterado. Ainda não se refez do golpe. Nem eu que participo de alguma maneira desta história. Portanto, passemos rapidamente para o próximo parágrafo. Depois de aposentados voltaram para a terra natal, alcunhada jocosamente por ele de cemitério de elefantes. Os filhos ficaram por onde passaram ou foram para outras paragens. No rastro foram deixando também netos. As refeições solitárias de agora se fazem na copa, numa mesa colada à parede, com duas banquetas de pequenos espaldares que lhe cobrem somente os quadris. Da varanda ele não tem esta visão. A porta que dá acesso à copa e à cozinha conjugadas não se volta para a sala. Ele vai até lá como num traveling cinematográfico mental. O fogão, a geladeira, o freezer desligado, os móveis embutidos na parede e sob a bancada da pia. Ao lado dos armários suspensos o seu atual objeto de culto, doze escaninhos, feito um pombal - sua pequena adega de vinhos tintos. Nunca totalmente cheia, porquê consumida com freqüência moderada. Nunca totalmente vazia, porquê periodicamente renovada. Duas garrafas ali repousam. Continuando o traveling, passou em revista o seu apartamento espaçoso. Agora voltava seu pensamento para Brasília, para onde foram no início dos anos sessenta, logo após a mudança da capital. Margô – Margarida – funcionária pública federal era então a base financeira do casal. Ele era funcionário de num banco privado. No tempo que existiam bancos mineiros. Com as oportunidades abertas no planalto central, não foi difícil conseguirem as transferências, com muitas vantagens. Ali tiveram dois filhos varões e todas as facilidades para progredir na vida, incluindo um providencial apartamento funcional, arcando somente com irrisórias taxas condominiais. Ele foi aprovado em concurso para um grande banco estatal. A vida se ajeitou financeiramente. Os filhos cresceram. “Agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida / Com o estelar das noites inumeráveis”. Continuava Gal. Recordou a primeira moradia. Visitou suas entranhas. Depois a segunda e a terceira. Esta, a última, uma bela casa, com jardim e quintal numa quadra do Lago Sul. O Programa Nacional de Habitação foi fundamental para viabilizar a construção. Não resolveu a crise da habitação popular no país, mas a vida de muita gente boa, principalmente dos construtores. A revolução de 31 de Março de 1964 era o que o país precisava. O regime anárquico com pretensões a uma república sindicalista do Jango deixou o país à beira do caos e poderia prejudicar suas pretensões de escalada social. A vida monótona, burocrática, rotineira e de trabalho árduo, puderam lhes dar tudo o que queriam. Boa casa, carros, viagens ao exterior e que tais. A educação pública, o estado empregador, projetos ousados como a construção de Brasília, foram mais do que oportunidades, autênticos privilégios de uma parte da geração brasileira do pós-guerra. A educação dos meninos ficou relegada agora à escola particular e à convivência com os amigos das quadras vizinhas de famílias também emergentes. Os fins de semana eram geralmente passados em peladas e churrascos no clube, com colegas de trabalho. No final do domingo, caras amassadas do rápido cochilo, levemente ressacados, freqüentavam a igreja. Depois da mizza iam comer pissa, como brincavam então. A nação estava em boas mãos. Os governos militares administravam-na bem. O milagre econômico estava patente com taxas de crescimento de quase 10% a.a. Ninguém segura o Brasil. Ame-o ou deixe-o. Eram as máximas da moda. Ufanistas e bem diretas para quem não estivesse satisfeito. Por que não vão para a União Soviética ou para Cuba para ver o que é bom para a tosse? Somos a nona ou décima potência industrial do mundo. Agora, tricampeões mundiais de futebol. Pra frente Brasil. Salve a seleção! Bendita seleção, da qual agora faziam parte. Quando tudo ia às mil maravilhas, eis que de repente, o sino da matriz despenca das alturas do campanário e ribomba no chão. O muro-de-berlim cai e as torres-gêmeas são destruídas. “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Inevitável a pedra no caminho! Seu filho mais velho é preso por porte e consumo de drogas. Com a intervenção de um amigo coronel, supera-se esse obstáculo inicial. Outros acidentes e incidentes mais graves se sucederam. A chegada da adolescência dos meninos foi o início do drama e da derrocada familiar. Um mundo sem grandes opções a não ser a ascensão econômica e social, os padrões morais arraigados e a estratégia adotada pelo casal de propiciar tudo que não tiveram aos filhos foi a maneira mais segura para a debacle. O fim do regime militar, o renascimento da claudicante democracia, a agitação dos crescentes movimentos populares colaboraram para desestruturar a cabeça comportada do casal. Qualquer dia, os portadores dessas bandeiras vermelhas ainda tomam o poder! Não estou gostando do andar da carruagem. Vou intervir nessa história com a autoridade inconteste que me cabe. A continuar assim isso vira um dramalhão familiar. A vida fictícia de nosso personagem está sendo criada não com o objetivo de esmiuçá-la, correndo o perigo deste texto se transformar numa peça de auto-ajuda. Ezequiel não merece esta purgação. Nem ninguém tem essa bola toda para fazer comentários críticos e sarcásticos como se fosse profeta do passado. Um control-home esperto nos traz imediatamente o início da primeira página para reencontrar nosso herói sentado na varanda. Sua viagem delirante sobre seus interiores durou alguns minutos. O tempo da memória, extenso na contagem dos relógios e calendários, é compressível, porque seletivo, portanto bem mais curto, na recordação. Pode durar o tempo de um conto. Nenhum arrependimento, ressentimentos, nada de culpa, lamentos, remorsos. A vida é assim mesmo! Como ela é! Não há conserto! Principalmente as que já passaram. Nenhuma piedade ou complacência. Simplesmente compreensão e tolerância. De parte a parte. Testemunho sua história com um profundo sentimento de solidariedade humana. Sereno, apaziguado, tranqüilo, resignado, Ezequiel esperava para saber aonde a doença que o acomete, o severo tratamento a que vem se submetendo, o repuxar das vísceras, o cansaço, o desânimo, o iriam levar. Até quando? Bem-vindo seja, com seu fado, o novo ano de 2004! Alguns dos últimos versos da canção acenaram-lhe com uma certa esperança para os pósteros. Um repuxar de lábios desenhou-lhe no rosto um sorriso contido, contendo, contudo, alguns traços de ceticismo. E um certo alívio por ter trocado o papel de protagonista pelo de observador. “Ressuscita-me!” “Ainda que mais não seja, porque sou poeta e ansiava o futuro”. “Ressuscita-me!” “Lutando contra as misérias do cotidiano, ressuscita-me por isso”. “Ressuscita-me!” “Quero acabar de viver o que me cabe, minha vida, para que não mais existam amores servis”. “Ressuscita-me!” “Para que ninguém mais tenha de se sacrificar por uma casa, um buraco”. “Ressuscita-me!” “Para que a partir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme, e o pai seja pelo menos o Universo, e a mãe seja no mínimo a Terra!”
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
|
|
|