JORNALEGO
ANO II - Nº 58, em 10 de Janeiro de 2004.
Crônica
O CAPELÃO DO DIABO
Diabo, aqui, não é o maligno, o cão, o capeta, o tinhoso, o mal, o
mau e tantos outros apodos que o povo usa para se referenciar ao dantesco rei
das trevas sem lhe pronunciar o nome. Essa multinominada entidade é uma figura
de ficção. Como tudo na Divina Comédia. No contexto desta crônica o termo é
usado como contraponto maniqueísta às idéias fantasiosas, românticas, idealistas
que se impingem às pessoas sobre a criação do universo, a vida, a morte, o antes
e o depois.
In Nomine Dei; quantos crimes foram cometidos em nome de
Deus! Um dos maiores é a tentativa de mistificação do conhecimento, a enganação
de multidões por igrejas, religiões e seitas que usam o temor e a ingenuidade
das pessoas para se instaurarem e se perpetuarem no domínio de algum poder
Religião é um expediente comportamental. Se ela faz bem às pessoas,
se as ajudam a viver, a conviver neste vale de lágrimas, se congrega, se
consola, tudo bem. Se a fé em algo divino apazigua e conforta, muito bem, assim
seja. Mas “não vá o sapateiro além das chinelas”. Não venham deitar fala sobre
a origem e o destino do universo com explicações místicas.
O mistério que nos ronda deve ser desvendado pela ciência ou, na
vanguarda dela, pela intuição e meditação não-religiosa (sem as peias da
revelação divina e dos dogmas das igrejas), especulação filosófica e
artística. Caso contrário, que permaneça mistério. Neste último caso,
admitindo-se humildemente o desconhecimento e não fantasiando sobre ele,
preenchendo o vazio com balelas.
A ciência, ao avançar significativamente no decorrer dos últimos
séculos, ao alargar os limites do conhecimento, aumentou e expôs ainda mais a
faixa do desconhecimento. Aí medra a erva daninha da fantasia.
A inspiração desta crônica se deu com a leitura da resenha de um
livro ainda não lançado no Brasil, de autoria do zoólogo britânico Richard
Dawkins. Ela é assinada por Cláudio Ângelo (editor-assistente de Ciência) e está
na revista Mais! - suplemento da Folha de São Paulo, de
04.01.2004. O título da crônica vem do nome do próprio livro “A Devil’s Chaplain
– Reflections on Hopes, Lies, Science, and Love” (Um Capelão do Diabo –
Reflexões sobre Esperanças, Mentiras, Ciência e Amor) e do da resenha (Um
Polemista Endiabrado).
Já conhecia o autor desde o clássico “O Gene Egoísta” (1976), este
publicado no Brasil, se não me engano pela Editora Itatiaia. Lutei para
adquiri-lo e depois não consegui lê-lo até o final, por força de sua
complexidade técnica. Cito-o sempre, como fiz no JORNALEGO Nº 09. Dawkins afirma
que o único objetivo do gene é sua perpetuação, a procriação da vida. Tudo o
mais é perfunctório. Ele mostra que a seleção natural começa na competição dos
genes e não na dos organismos.
O autor do livro ataca com virulência os inimigos da teoria da
evolução das espécies de Charles Darwin (1809-1882), os ensinamentos das
religiões reveladas e as terapias alternativas.
“Apesar de o próprio Darwin desconhecer os genes e seu papel central
na evolução e de a teoria ter sido modificada no início do século 20, postula o
zoólogo, o núcleo de seu enunciado não só sobrevive como é a única ferramenta
teórica sustentada por evidências capaz de explicar a origem e a diversidade da
vida”. “...dos vírus aos humanos”. (Cláudio Ângelo).
Não resisti à tentação de incorporar a esta crônica um trecho do
próprio Dawkins: “A alternativa demoníaca proposta pelo meu capelão do diabo
amadurecido é arriscada. Você se arrisca a perder ilusões reconfortantes: não
pode mais sugar a chupeta da fé e da imortalidade. A recompensa é ganhar
‘crescimento e felicidade’; a alegria de saber que você cresceu, encarando o
significado da existência; do fato de que ela é temporária, o que a torna ainda
mais preciosa”.
Como abusei de citações neste número do JORNALEGO, aqui vai mais
uma, para finalizar. Com ela o articulista também termina sua resenha: “Há
grandeza nessa visão da vida”. Diria mais: poesia também!
“Tem mais samba no sol do que na lua”. Essa metáfora é do Chico.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES)
mailto:eeegense@terra.com.br
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