OUTONO (Rio de Janeiro, 1980).
Faz frio. Melhor, sinto frio.
O cenário é discreto. É outono!
O personagem tenta manter uma certa dignidade. E consegue.
As folhas que caem são levadas pelo vento, qual
lugar-comum.
O sol se esfria. Amanhece mais tarde. Anoitece mais cedo.
A florada foi linda. Os frutos foram colhidos.
O verão teve seus calores. Poucos.
O outono me traz uma sensação de desamparo.
Aqui dentro, aparentemente seguro e protegido, sinto-me ao
vento, ao relento.
Só. Perdido. Despido.
Sinto-me carente de um abrigo amigo. Procuro afago,
aconchego, calor.
Que sejam brasas, labaredas.
Em vão! Penetro em mim, agasalhando-me na introversão.
Lembro-me da Europa. Dos sonhos que eu lá sonhava, dos
invernos infindos.
Eram invernos terríveis! Sofria a nostalgia dos trópicos,
para os quais, nos sonhos, eu jamais voltava.
Penso em doses e goles. O mais que consigo são porres.
Movimento-me. Exercito-me. Produzo suor e músculos
cansados.
Sinto frio. É outono. O inverno vem vindo, vem vindo.
De repente, paro. Reflito.
Resolvo.
Esqueço meu poema e meus versos indisciplinados.
Não abro mão de minha poesia.
Vou sair. Mesmo com frio. Com toda a chuva. Com qualquer
vento.
Vou sair. Não vou ficar aqui, parado, versejando.
Vou sair. Vou fazer veranicos.
VIVÊNCIA
(Vila
Velha - ES, 2000).
Sessenta anos!
Meia-entrada nos cinemas,
mulher, filhos, netos, livros, discos,
chapéu panamá ao sol
e a grande transgressão:
moqueca de peixe com vinho tinto.
A expectativa serena de
um chapéu de feltro ao sereno,
bengala como adereço
e depois morrer,
simplesmente morrer,
morrer, simplesmente.
É bom viver
FARMACENTOPÉIA
(Vila Velha - ES, 2003)
Atenolol, beta-bloqueador;
Aspirina, p’ra’finar sangue;
Glucoformim, p’ra baixar glicose;
Sinvastatina, p’ra dominar colesterol;
Centrum, p’ra combater radicais livres.
Isordil, vasodilatador,
sublingual, tal qual este poema,
fica à parte;
em perigo de enfarte,
faz parte, destarte,
desta arte.