Jornalego
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ANO II - Nº 51, em 30 de Outubro de 2003. Crônica ou conto? O TERRORISTA DE ITAPOÃ
Ninguém ainda viu o cara, cara a cara. São várias as caras. Sua cara, portanto, ainda não está bem definida. Dos depoimentos há coincidência quanto ao sexo e seu tamanho. É gigante! Não o sexo, imagina, trata-se de um homem grande. As demais descrições a seu respeito são contraditórias. Vêem-no por vezes de bermudas, chapéu, boné, bem vestido, andrajoso, sem camisa, com paletó. Tênis de grife, sandálias, descalço. Dirige uma moto, anda a pé. Ora é careca, ora cabeludo, tem sobrancelhas espessas, cabelo nas orelhas. Bigode e barba comprida, por vezes sim, por vezes não. Um verdadeiro mistério. A maioria das pessoas desconfia que ele seja negro. Outros acreditam tratar-se de um tipo nordestino. Outros ainda que ele tenha traços orientais ou descendência árabe. Mistério maior são seus crimes. Não há provas, entretanto. Testemunhos, evidências, denúncias e suposições existem aos montes. Eu estou simplesmente aterrorizado, amedrontado. Sou tomado por uma verdadeira psicose, que se alastra por toda a população. Logicamente, esse distúrbio tem forte base na realidade. De fato a situação aqui em Itapoã – Vila Velha de um modo geral – não está para brincadeiras. Roubos, furtos, seqüestros, estupros, assassinatos engrossam as estatísticas. Mas psicótico mesmo é ele, o diabólico terrorista. Qual á a sua tara? Qual a sua especialidade criminosa ou quais as modalidades de seus crimes? Como explicar a origem desses atos ignominiosos? Sua área de atuação está infelizmente centrada em Itapoã, onde moro, do outro lado da baía de Vitória. Sua ação, por vezes, estende-se a Itaparica, Praia da Costa e outros bairros da periferia. Tudo por aqui ou por aqui por perto. Um dia desses, uma mulher de seus trinta anos desapareceu por uma semana. Quando foi encontrada pelo marido era a expressão do terror. Fragilizada, olhos esbugalhados, desgrenhada, não articulava palavra com palavra. Não sabia por onde andou esse tempo todo. Traumatizada, seu depoimento policial ainda não foi possível. Tenta evitar ao máximo a aproximação com a polícia. Outro caso foi o seqüestro de um senhor de meia-idade. Durante dois dias e duas noites andou desaparecido. Sua mulher ficou desesperada. Inicialmente pensou numa travessura do marido, mas depois foi cedendo à idéia dele ter sido vítima do terrorista. No primeiro caso, o da mulher, não houve resgate com envolvimento de dinheiro. Talvez sua própria honra tenha sido a moeda de troca. Quanto ao homem sim, rolou pagamento, mas coisa de pouca monta. Dois mil reais que ele havia retirado da conta conjunta no banco. Ambos estão amedrontados e muito ariscos com a polícia e a imprensa quando tentam abordá-los sobre o ocorrido. Também teve o caso do adolescente. Durante quatro dias deu um chá de sumiço. No quinto dia os pais receberam o pedido de resgate o que foi prontamente providenciado. Retornou belo e fagueiro, como costumam passar por esses percalços esses jovens de hoje. À noite, em seu quarto, já estava fumando o seu baseado, desta vez sem ser importunado para não agravar o seu trauma. A presença do terrorista vem sendo notada em vários lugares, segundo os boatos. Procuro me informar sobre tudo que acontece. Aqui na rua, em frente da minha casa, ele foi visto, altas horas da noite, a se esgueirar ao longo dos edifícios, todos devidamente cercados e fechados. Uma moça que ia para casa teve de voltar assustada, refugiar-se na portaria do meu prédio e chamar os pais que vieram prontamente em seu socorro. Num aniversário infantil, em salão de festas da vizinhança, a aparição de uma cabeça, por sobre o muro, espreitando a todos por alguns segundos, acabou com a reunião. Os pais, ao se espalhar a notícia, foram se retirando, saindo de fininho com seus pimpolhos, até que não restou quase ninguém para cantar o parabéns. Que diz a população e a polícia? A imprensa está sempre a relatar depoimentos. Nem se imagina a que ponto pode chegar a perversão daquela mente doentia. Todos os crimes ainda não resolvidos são imputados a ele. Uma pessoa abduzida por ele (me ocorreu este verbo, quem sabe não se trata de um extraterreno?) foi censurada pela TV dado o nível de hediondez a que chegaram algumas das descrições dos atos cometidos pelo tarado. A especulação dos crimes chega às raias do absurdo. Eu fico a imaginar como são sórdidos. Como é imenso o estoque de maldades nas cabeças das pessoas! Num programa local sensacionalista, a TV entrevistou um bandido encapuzado que além de espalhar mais o pânico, ameaçou autoridades que já se pronunciaram sobre sua atuação. Poucos dias depois, com a pressão dessas autoridades, foi desmascarada a farsa da entrevista. A TV, que naquele horário batera recordes de audiência, foi devidamente punida. A procura por serviços e equipamentos de segurança aumentou substancialmente. Grande parte da população está se armando. Equipes de segurança estão sendo contratadas por residências, condomínios e ruas inteiras. Até blindagens de carros estão sendo providenciadas no Rio e em São Paulo. Os negócios nessas áreas estão indo de vento em popa. O terrorista é pretexto para extorsões e manipulações políticas. Houve até o ressurgimento de um antigo grupo de justiceiros que estava sendo perseguido pelas autoridades competentes. Um coronel reformado da polícia militar prega ações mais efetivas contra o terror que grassa por aqui e se alastra por todo o município. É pré-candidato a prefeito para a próxima eleição. Em contrapartida, o atual, que visa a reeleição, promete criar uma guarda municipal. A estatística de ações criminosas efetivamente comprovadas continua alta e em alta com a ajuda das execuções sumárias. Aumentaram enormemente as denúncias de ações sem comprovação. A paranóia se alastra. Há motivos para tal. Eu quase não saio mais de casa. As caminhadas ao cair da tarde foram suprimidas. Aliás, há muito tempo não saio à noite. As andanças no início da manhã rareiam. Contratei uma TV a cabo e não vou mais ao cinema, minha maior distração. Volto a perguntar: qual é a desse cara? O povo vive a especular sobre suas malvadezas. Cada coisa escabrosa! Durante a noite, acordo seguidamente, com ou sem ruído. Vejo televisão e leio os livros que se amontoam em minha estante, desses que estão recentemente em promoção nas bancas de jornal. Para compensar, sou levado a tirar umas sonecas após o almoço. Por sinal, sempre tumultuadas. Foi numa dessas, quando estava a adormecer, ouvi ao longe um barulho de avião. Foi-se aproximando, aproximando, o barulho aumentando, aumentando e não deu outra. Colidiu frontalmente com uma das duas torres do meu condomínio. Exatamente na que eu moro. Minha fortaleza, meu refúgio, meu santuário! Com o impacto fui jogado para fora da cama. Atordoado, levantei-me rapidamente, refugiando-me no banheiro. Foi quando dei de cara com a minha imagem ao espelho. A cara do terror! O reflexo fez-me refletir: eu sou o próprio, eu sou o terrorista! Ele mora dentro de mim! Uma das caras do terrorista de Itapoã é a minha própria cara! Sou parte do terror! Em nenhum momento posso negar a situação perigosa em que vivemos. Não subestimo o perigo que todos corremos. Mas, definitivamente, eu sou o terrorista de Itapoã, agravando ainda mais o terror reinante. Os duros fatos me metem medo. Contudo, apavoro-me com as versões. A realidade diz: pega! A imaginação replica: esfola!
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES).
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