Jornalego
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ANO II - Nº 50, em 20 de Outubro de 2003. Crónica VÍCIOS De como abandonar um vício pernicioso e adquirir outro saudável. Eis o mote desta crônica. Completei 32 anos sem fumar. Para conseguir esse feito usei um estratagema extremamente engenhoso e eficiente no meu caso. Deveria ser adotado em terapias antitabagistas. Trata-se simplesmente de registrar o número de cigarros não fumados. Geralmente contam-se os dias sem fumar. Acredito que os grandes números concorram psicologicamente para o sucesso do intento. Fumava um maço de cigarros por dia, portanto 20 unidades. Ao final de uma semana contabilizava 140 cigarros não fumados. No final do mês, 600. Ao completar um ano 7.300. São números mais expressivos do que a contagem dos dias sem o vício. Depois de 32 anos chega-se a 233.600 cigarros não fumados. Se consumisse dois maços por dia, o que não é incomum entre fumantes, seriam 467.200 cigarros a menos. Esses números extravagantes me motivaram a persistir, não rompendo a progressão aritmética. Chegava a sonhar que havia interrompido a soma dos grandes números e acordava aliviado quando verificava se tratar de um sonho. Contudo, somos sempre susceptíveis a ter um ou outro vício. Por que não um mais saudável? Vou contar como adquiri outro e o expediente utilizado. Passei a gostar de literatura quando um amigo me emprestou um Jorge Amado. Tratava-se de Gabriela, Cravo e Canela. Até então (eu já estava no ginásio), tinha a literatura como assunto para luminares, senhores circunspetos, só acessível às grandes cabeças e enrustidos ratos de bibliotecas. Qual o quê! Que surpresa, que coisa mais deliciosa, sensual! Esse Jorge Amado é um porreta! Além disso, outro acontecimento me marcou na afeição pelos livros. Ao ser perguntado pela prima, a quem não via há muito tempo – e ainda continuo sem vê-la – outro amigo comentou que ela era uma leitora inveterada. Será que ainda é? Emendava leituras. Livro após livro. Como fumante que acende um cigarro com a guimba do anterior. Bastou isso para me encher de inveja e tentar imitá-la. Achei o expediente fenomenal! A partir daí passei a ter sempre um livro de plantão. Em viagens, levo-o comigo. Em casa, ele está sempre ao meu lado, sobre o criado-mudo ou no meu escritório, a postos, ao alcance das mãos e dos olhos, para a continuação da leitura. Sempre tem mais um livro na reserva, esperando para adentrar ao gramado. Faz anos que assim procedo. Nunca mais deixei de estar lendo um livro. A leitura podia durar uma semana, um mês, um ano; um livro está sempre à mão, sem solução de continuidade. Agora que estou ocioso, o rodízio é mais acelerado. Tenho um plano de leituras. Tento disciplinar a leitura de jornais para sobrar mais tempo para os livros. As revistas foram definitivamente excluídas de minha rotina, folheio-as nas salas de espera. As notícias vêm pela televisão. Quando muita, a informação intoxica. Dou mais valor a formação. O curioso é que quando acabo a leitura de um livro, faço um esforço descomunal para não iniciar a leitura do próximo no mesmo dia. É difícil resistir e esperar pelo amanhã. Vou ao cinema, empreendo pequenas viagens, assisto televisão, faço qualquer coisa para me distrair e não ser seduzido pela próxima leitura no mesmo dia. Uma saída é ler a contra-capa ou a orelha. Não contente às vezes avanço pela apresentação, introdução ou pelo prefácio. Lembro-me agradavelmente de uma colega de trabalho. Quando nos encontrávamos, invariavelmente me perguntava sobre o livro que eu estava a ler. Ela me informava sobre o seu. Nossa conversa começava sempre assim. O diálogo continuava com a eventual troca de livros. Os eventos e as viagens, por exemplo, são sempre associados aos livros que estava lendo à época. “Quando estive em Recife lia O Nome da Rosa. Na Holanda foi a vez de Incidente em Antares. Meu neto nasceu quando terminei Em Busca do Tempo Perdido”. Geralmente registro isso na primeira ou última página. Faz tempo, encontrei um velho conhecido que me confessou gostar de saber o livro que seu interlocutor estava lendo. Simples curiosidade. É um tipo especial de voyeurismo, mal de que também sofro. Quando vejo alguém portando um livro, num coletivo, num parque, nas ruas, nas praias, faço contorcionismos, uso estratagemas sofisticadíssimos para conseguir saber o seu título. Lamentavelmente, na maioria das vezes trata-se de um livro de auto-ajuda! Uma das seções que me interessa muito na imprensa é aquela que mostra o que uma pessoa, geralmente conhecida, está a ler (“O que eles estão lendo”). Enfim, um expediente maravilhoso, uma cachaça, um hobby delicioso esse de sempre ter um livro à mão e à vista. O contato físico com um livro é fundamental. Duvido que a leitura no monitor de um micro substitua a delícia de folhear páginas. Depois de ter adquirido a paixão pela literatura uso mais alguns artifícios. Por exemplo, anoto os títulos e autores de tudo que leio durante um ano. Por outro lado, os livros lidos que ainda estão em meu poder, estão separados dos demais. Passar os olhos naquela lista ou nas lombadas dos lidos é quase uma releitura, uma recordação prazerosa do que foi sentido durante a leitura dos mesmos. Reler também é sempre uma nova leitura. Cada leitor lê o mesmo livro de maneira diferente. De certa forma, ele também compartilha de sua autoria. Assim, a releitura permite o fenômeno da recriação. É sempre um novo livro que se relê. Quantos detalhes passam despercebidos da primeira vez! Enfim, recomendo esses pequenos expedientes, mesmo para os que lêem bastante. Para os que ainda não são viciados, garanto que viverão momentos de extremo deleite, compartilhando suas vidas com personagens fascinantes e histórias maravilhosas, que nos permitem descobrir outras dimensões dos nossos sentidos e nos enchem de prazer, mesmo que, por vezes, nos tragam algumas inquietações. O que também faz parte do prazer de viver. Recebi bem essa nova onda que veio através da Internet, conhecida como bookcrossing, que eu, para não ferir as suscetibilidades de um amigo, implacável na defesa do vernáculo, apresso-me a traduzir livremente por rodízio de livros. A moda consiste em esquecer de propósito um livro (preferencialmente já lido) em algum lugar público para que outra pessoa ache e leia. Só que, em geral, desconfio da baixa disposição das pessoas para ler. Além disso, o descobridor pode não ser afeito ao tema específico. Aderi ao movimento, modificando-o um pouco. Venho doando alguns dos meus livros. Conforme a pessoa, presenteio-a com um, que acredito possa ser do seu gosto. Na dedicatória solicito para que, após a leitura (ou desistência, por que não?), passe adiante o volume. “Sem literatura corremos o risco de resvalarmos para a mesquinhez dos jargões burocráticos, a farsa do economês que tudo explica e quase nada justifica, a palilogia estéril da linguagem televisiva, a logorréia dos discursos políticos, condenando-nos à visão estreita e à pobreza de espírito despida de qualquer bem-aventurança” (Frei Betto). Lógico que consultei o dicionário (Houaiss) para entender o que significa palilogia e logorréia. Outra derivação do “vício impune” da literatura: descobrir palavras. Só achei explicação para o último verbete. Mesmo sem compreender o primeiro, assino em baixo.
REGISTRO: Conheci uma senhora muito velhinha, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, que, ultimamente, quase se limitava a rezar. Tinha outra atividade auto-imposta. Ao cair da tarde, sentava-se na varanda a esperar que a lâmpada do poste em frente à sua casa se acendesse. Hoje, essa ocorrência se faz sem o olhar cansado, nem por isso desatento, da velha senhora. Dona Nair morreu na semana passada. Viver e morrer são coisas corriqueiras, comuns. Ser testemunha assídua e paciente, em idade avançada, do acender diário da lâmpada de sua rua, isso sim é caso incomum, de alta significação poético-literária. Daí o sentido registro.
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES). Na sugestão de (re) leitura deste número recomendo o campeão de visitas (mais de 3.800 até esta data, conforme atesta o número ao final do texto) do site do JORNALEGO, clicando em: http://www.ecen.com/jornalego/no_14_analfabetismo.htm
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