JORNALEGO
Nº
4, em 28 de maio de 2002.
Conto
A MULHER DE ROMUALDO
Quem se dá ao trabalho de ler escritores amadores por certo se lembra de
Romualdo, assassinado por engano na Praia da Costa (ou no conto que passou?),
deixando sua mulher perplexa e chocada por tão descabido “erro de pessoa”.
Maria Angélica é o seu nome.
Esta é uma parte da sua história, descrita no correr de um cursor irrequieto.
Neste texto, a história inicialmente se passa nos anos dourados das décadas
de 50 e 60. Período de recuperação mundial e desenvolvimento nacional. Angélica
– assim gostava de ser chamada - era tímida e acanhada, nem sequer brincava
com as colegas na hora do recreio. Bonitinha, se achava feia. Magrinha, as
roupas não lhe caiam bem. Morava na Praia do Canto, na avenida Ordem e
Progresso (hoje Desembargador Santos Neves). Estudava piano com D. Maria Penedo,
no centro de Vitória, para onde ia com a “querida mãe” (como costumava
chamá-la), duas vezes por semana, nos bondes da Central Brasileira. Nas outras
oportunidades em que vinha ao centro, onde o agito se dava, era sempre aos
domingos, para as sessões da tarde do Cine Glória, depois, mais crescida, para
as do São Luiz. Sempre acompanhada de amiguinhas falantes e os namoradinhos
delas, em ônibus conhecidos como “gostosões” da Viação Marinho. Nessa época,
mantinha uma paixão platônica por um primo que precocemente assumiu a
homossexualidade.
Vivia a se esconder de um pai rigoroso, a comentar seus vestidos, maiôs
e a altura da saia do uniforme azul-marinho e pesado do colégio das irmãs do
Sacré Coeur de Marie. Sua mãe era piedosa e aplicadíssima dona de casa. O irmão
mais velho também a controlava chegando a infligir-lhe uns bons tabefes quando
ela ensaiava alguns passos de balé. Boa aluna revezava com duas colegas nos
primeiros três lugares da turma.
As
rezas diárias precediam as aulas. As missas dominicais eram obrigatórias no próprio
colégio, com carimbo de presença nas cadernetas escolares. Em casa, vivia
orando e se penitenciando por rezar sem a devida concentração. Repetia as orações
inúmeras vezes querendo entrar no âmago de cada palavra e de cada frase.
Martirizava-se por nem sempre conseguir.
O
mês de maio era o mês das ladainhas de Nossa Senhora que culminava com a coroação
da imagem. Em outubro tinha retiro espiritual quando o mundo se enchia de nojo e
de tristeza, de orações e cantorias pungentes. “Perdoai Senhor, por piedade,
perdoai a minha maldade, Senhor” era um dos cantos entoados. Na Semana Santa
as imagens se cobriam de roxo e aquele clima de baixo astral pairava sobre as
cabeças das meninas pulsando jovialidade reprimida. A educação física era
feita com bombachas que quase chegavam aos joelhos.
O
lado bom da vida provinciana era preenchido com as festinhas na casa das amigas,
com as indefectíveis músicas para dançar de Valdir Calmon, Metais em Brasa,
Bob Fleming e Ray Coniff. E as férias em Guarapari. Nas primeiras menstruações
ficara furiosa com a mãe, culpando-a por isso.
Casou-se virgem e pariu em série três meninas lindas sem o conhecimento
de qualquer expediente anticoncepcional. A pílula estava na sua fase pioneira e
não fazia parte da vida dos casais, principalmente daqueles de arraigada educação
católica. Foi educada para dona de casa e exercia com brilhos essa atividade.
Deixou o piano e um futuro incerto de concertista. Completara o curso clássico,
preferência da época para as moçoilas de boas famílias e candidatos à
advocacia.
Conheceu Romualdo, seu primeiro namorado num baile do Praia Tênis Clube.
Namoraram por cinco anos, enquanto o esperava completar o curso de engenharia.
Casaram-se na capela do Colégio Salesiano onde ele estudara. Seu marido evoluiu
na atividade profissional e ganhou experiência no contato com o mundo e com as
pessoas. Totalmente dedicado ao trabalho numa grande empresa estatal, era
bastante conceituado, deixando os afazeres caseiros e a educação das filhas
para a mulher.
A vida transcorreu calma e pacata. Mudou-se para a Praia da Costa, Rua
Castelo Branco, logo depois que foi construída a terceira ponte ligando Vitória
a Vila Velha. As filhas cresceram, foram educadas no Colégio Marista, casaram e
se foram para Brasília, Rio e São Paulo. Não deram muito trabalho. A vidinha
na Grande Vitória era então tranqüila. Cuidar das meninas, acompanhar os
estudos, as festinhas, os namoros, preencheu a contento a sua vida, vivida em
família, com o marido amantíssimo, pontilhada de algumas viagens de férias,
aos países do oeste europeu e aos Estados Unidos. Nessas viagens realizava seus
sonhos de consumo retornando cheia de quinquilharias, fotos e assuntos sem-fim
para contar às amigas. Com a desvalorização do real, menores aumentos
salariais e a privatização da companhia do marido, que lhe rendeu o medo
infundado de perder o emprego, cessaram as viagens.
O
tédio dominou-a, principalmente com o novo estado de solidão a dois. Romualdo,
na ativa, vivia totalmente devotado ao seu trabalho. Depois da aposentadoria
voltou-se inteiramente para o seu mundo interior, preenchido com leituras,
alguns escritos, música, além das indefectíveis caminhadas no calçadão.
Foi quando, onde e como todos sabem, aconteceu a ruptura. Romualdo foi
assassinado. Maria Angélica se viu viúva e sozinha. Purgou tristes momentos,
tendo perdido o objeto de suas lamúrias, resmungos e reclamações, estado que
vinha caracterizando o difícil período de climatério.
Nesta altura, o contista se dá conta de que o crime contra o marido foi
praticado recentemente. Como contar o que vai acontecer se esse tempo ainda não
aconteceu? Simplesmente liberta-se de qualquer verossimilhança temporal, no que
faz muito bem. Afinal ele é um contista e não um mero cronista. Escapam-lhe as
datas, mas a narrativa é fidelíssima à realidade, esta fugidia senhora. E
mais, o contista narra no passado, ainda que os eventos sejam prospectivos.
Maria retomou os estudos. Achou Angélica um nome fora de moda e assumiu
Maria. Fez um cursinho de atualização da mulher, quando percebeu serem válidos
alguns conceitos defendidos por Romualdo. Tais idéias, quando não rechaçadas
por ela, deixavam-na ressabiada. Principalmente em matéria de religião e política,
pois o que ela aprendera não se coadunava com os pensamentos do marido que,
mais afeito ao mundo, decodificara satisfatoriamente os ensinamentos recebidos.
A seguir, foi aprovada no vestibular da Ufes e completou o curso de sociologia.
Foi trabalhar numa ONG, defensora do meio ambiente, lato sensu, o que incluía a
valorização do bicho-homem, passando pela libertação do bicho-mulher. Se o
narrador não consegue precisar mais as atividades da ONG é porque ele não é
muito chegado a essas objetividades, fica flanando em superficialidades
ficcionais e não entra a fundo em nada.
Ganhava
pouco, mas com a pensão que recebia dava para viver bem e ainda gozar algumas
viagens de férias, visitando constantemente as filhas, além das empreendidas
por força do seu trabalho. Gostava do que fazia, sonhava com o seu trabalho. Na
ONG conheceu um colega, paulista formado em filosofia na USP, recentemente
transferido para o Espírito Santo, com o qual passou a manter proveitosa
parceria e ótimas conversas. Inicialmente sobre temas profissionais. Depois
sobre uma pauta mais elástica.
Passou a caminhar na praia, a fazer dieta, tinha paz para ler, ir aos
cinemas, sair com amigos e, agora dominando a linguagem informática, desvendar
os segredos do micro do Romualdo. Passou a compreender mais aquele companheiro
casmurro depois de ter lido suas pretensas peças literárias, intactas na memória
do disco rígido. Era como um diálogo com o além, com o espírito do finado
baixando no computador. Ficou intrigada com um portal registrado na agenda do
Internet Explorer, o “companygilrl” que, depois, lhe foi esclarecido, tinha
sido acessado por um sobrinho baiano em visita de férias à sua casa.
A comunicação com a memória do computador (!) e a convivência no seu
trabalho, com o qual, a partir de um determinado momento, mantinha uma ligação
sensual, fizeram-na mais calma, generosa, segura, tolerante e menos radical com
os seus princípios religiosos e feministas, esses últimos calorosamente
defendidos em discussões estéreis na faculdade.
Depois do expediente, às vezes estendia-se em papos intermináveis com o
colega de trabalho, o filósofo, poucos anos mais velho, divorciado, sem filhos,
morador do Golden Gate, um apart-hotel na entrada da ponte para Vila Velha.
Telefonavam-se ao lembrar de algum assunto pendente das conversas. Sempre
ficavam alguns como pretextos. Faltava-lhes transpor a ponte que os separava e a
ilha do continente.
No seu aniversário, comemorando uma idade não definida (para alívio do
contista), recebeu colegas, amigos e parentes em seu apartamento na quadra da
Praia. Depois que todos saíram, deu-se conta de que nem todos saíram. Ainda
entretido com a Internet, em seu escritório, restava um retardatário.
Era alguém que também chegara tarde à sua vida, trazendo naquela
noite, um buquê de margaridas e um champanhe francês. No fim de noite, após
longos papos com jazz em surdina, quando a bebida espocou deu um grito gutural,
embora contido, sintetizando, naquele ponto de espaço e tempo, um prazer de
viver, como nunca tinha sentido antes. Prazer que se estendeu um pouco se
prolongando em languidez.
Num lampejo vieram-lhe à cabeça os versos de Pablo Milanez, musicados
pelo Chico, cantados pelo Romualdo em seus momentos de felicidade: “Soy feliz
/ soy un hombre feliz. / Quiero que me perdonem por este dia / los muertos de mi
felicidad”. Da recordação, ainda selecionou, de seu passado mais remoto
aquela cantilena em latim das missas de então: “Agnus Dei qui tollis peccata
mundi, miserere nobis”. Memória seletiva, coerente com o momento o que,
logicamente, contou com a ajuda prestimosa do narrador.
Cansada, dormiu, amparada em braços fortes e gentis, o sono profundo das
consciências felizes que conseguem dar sentido à vida, na dor e na alegria de
suas revoluções.
Genserico
Encarnação Júnior
Itapoã,
Vila Velha (ES), 22 de maio de 2002.
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