JORNALEGO
ANO II - Nº 50, em 20 de Outubro de 2003.
Crónica
NÓS
Um sentimento
gostoso de brasilidade, de participação e compreensão do nosso povo, de suas
alegrias e sofrimentos, aliado a um certo orgulho nacional por uma obra de arte
de qualidade, é o que gruda na gente depois de rever o excelente filme Eu,
Tu, Eles, dirigido por Andrucha Waddington.
A história narra a
vida miserável de um grupo de pessoas no nordeste brasileiro, três homens entre
elas, cujas condições gerais e particulares levam-nas a se juntar sob um mesmo
teto e, com perdão da licenciosidade poética, sobre a mesma mulher. A
história é baseada em acontecimentos reais. Alguns comentaristas enfatizam a
generosidade do povo simples como a expressão máxima do filme. Pode-se
considerar também a necessidade de sobrevivência em situação hostil, superando
preconceitos morais, burgueses e religiosos.
A sagacidade e o
pragmatismo na resolução dos problemas, despidos daqueles preconceitos, vai
fazendo o seu caminho ao longo do filme, apesar dos obstáculos encontrados. Esse
mesmo raciocínio de vida é considerado em outro filme maravilhoso, O
Quatrilho, vivenciado na realidade dos colonizadores gaúchos. Em Eu Tu,
Eles, as cenas da entrega sofrida do filho primogênito, da esperança de que
o filho preto venha clarear, do surpreendente final (que não vale a pena
revelar) e da pungente conversa dos homens mais velhos aceitando a parceria do
mais jovem, todas retratam a simplicidade e inteligência usada para contornar
obstáculos e tomar decisões criativas num cenário inóspito. Diz um dito popular:
às vezes a cabeça tem que ceder para o corpo viver.
Nesses tempos de
globalização em que a identidade nacional corre perigo é reconfortante ver um
filme retratar a parcela mais sofrida da população num contexto regional e
nacional tipicamente brasileiros e mais, ver o tratamento de tais temas e
contextos por pessoas muito bem situadas no espectro social. É o caso do diretor
em questão e dos irmãos Moreira Salles. Não me lembro se a película em questão
chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Lembro-me de O
Quatrilho, Central do Brasil e Que é Isso Companheiro! que
foram candidatos e perderam a estatueta.
A propósito, a
participação brasileira em festivais internacionais de cinema, onde grandes
filmes nacionais, presumivelmente melhores que os concorrentes, saem vencidos,
demonstra o não entendimento das problemáticas nacionais pelos jurados. A frase
espirituosa do ator Paulo José ("no Brasil se faz o melhor cinema brasileiro")
admite a criação de um estilo de cinema que ainda não é bem conhecido sequer
pelo grande público brasileiro. Assim como existe o excelente cinema iraniano.
As forças do
mercado, ao propiciarem a proliferação dos filmes de ação e de mirabolantes
efeitos especiais, que têm a preferência do público jovem, acabam por aviltar
inclusive a arte do próprio cinema americano.
Eu, Tu, Eles,
sem pieguices, sem vulgaridades, sem apelos emocionais fáceis, contando com
excelentes interpretações, situações inusitadas que prendem o espectador durante
toda a exibição, é um filme muito bom.
Mas o que ficou
mesmo foi essa sensação nacionalista, sem pejo de usar essa palavra, razão
porque intitulo este artigo com o mais fraterno dos pronomes.
Este artigo foi
originalmente escrito em Setembro de 2000 e veio à tona agora, com algumas
modificações, porque assisti ao filme, novamente, na TV, na semana corrente.
Vídeos e DVDs devem estar à disposição de todos.
Também recentemente
vi o excelente Dom, filme de Moacyr Góes, referenciado ao livro de Machado de
Assis, Dom Casmurro. O filme entrou em cartaz numa sexta-feira, num único cinema
da Grande Vitória, numa única sessão, e saiu de cartaz na quinta-feira seguinte.
Quando fui vê-lo era rala a audiência. O grande público, naquele horário,
provavelmente, estava de olho na novela da Rede Globo. Que pena para quem
perdeu! O cinema brasileiro nunca esteve tão bom!
Genserico Encarnação Júnior.
Itapoã, Vila Velha (ES)
mailto:eeegense@terra.com.br
http://www.ecen.com/jornalego
Sugestão de (re) leitura:
http://www.ecen.com/jornalego/no_19_o_mundo_encantado_da_infancia.htm