Jornalego
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ANO II - Nº 48, em 30 de Setembro de 2003.
Depoimento DISCURSOS
Concluímos o curso de economia em 1963. Estamos completando 40 anos de formados. Em novembro vamos nos reunir para comemorar essa data. Fui o orador da turma. Um dos organizadores da festa perguntou-me se ainda tenho o discurso de formatura. Infelizmente não. Vou contar porquê, egoisticamente, dei fim a ele, um documento que, por maiores defeitos que tivesse (e tinham), de certa forma pertencia ao grupo e não somente a mim. O relato a seguir tem também algo de pedido de desculpas. O ano de 1963 foi um ano convulsionado politicamente no Brasil. Depois da renúncia à Presidência da República, em 1961, de Jânio Quadros, tomou posse, num regime parlamentarista feito às pressas, o vice-presidente João Goulart. No início de 1963, após um plebiscito, reconstituía-se o regime presidencialista. Jango capitaneava as reformas políticas e econômicas, de claro cunho esquerdista, desagradando a muita gente. A classe estudantil, de uma maneira geral, apoiava as reformas. Lógico que existia oposição mesmo dentro do movimento estudantil. A cúpula da Igreja Católica, a maioria das Forças Armadas e a classe média (a sociedade daí para cima) estavam contra. Como se sabe, os acontecimentos e a divisão na sociedade brasileira levaram ao golpe militar de 31 de Março de 1964, que rompeu com a democracia e as garantias constitucionais no país por mais de 20 anos. Além disso, houve prisões, mortes, exílios e torturas. Às vésperas dessa convulsão eu estava com uma batata quente nas mãos, escrever um discurso que expressasse nossa revolta contra as desigualdades e misérias provocadas em nosso país e no mundo por regimes perversos e estruturas arcaicas. Vali-me, convicto, das boas intenções e da pureza da, assim chamada, Doutrina Social Cristã, da Igreja Católica, consubstanciada em algumas encíclicas papais. Era uma forma de dizer: não pregamos uma revolução comunista. Tem muita gente, acima de qualquer suspeita, que não está satisfeita com a situação. Pesquisei as encíclicas tendo me apoiado principalmente num livro do escritor católico Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). A espinha dorsal do discurso era composta de comentários das mencionadas encíclicas que, volto a afirmar, me emocionavam. Não se tratava de um simples expediente para passar incólume pela obrigação de representar uma turma de economistas, tocando nos candentes temas sociais em discussão no país. Primeiramente, fiz alusão a Rerum Novarum, do papa Leão XIII, que deu início ao pensamento social católico, até então inexistente. Essa encíclica é de 1891, portanto 44 anos após o lançamento do Manifesto Comunista de Marx e Engels, em 1847. Esse último documento, de caráter político, daí a sua forma de manifesto, mas baseado em pensamento cientificamente criterioso (O Capital de Marx), é que fez brilhar com mais intensidade o foco sobre a injustiça social no mundo. A Rerum Novarum, ao tocar na condição operária e na relação entre o trabalho e o capital trouxe a discussão para o seio da Igreja. Contudo, negava a luta de classes e se posicionava a favor da propriedade privada, teses contrárias ao Manifesto. Depois abordei a encíclica Quadragésimo Ano, de 1931, do Pio XI, em comemoração aos quarenta anos da anteriormente mencionada. Pulando alguns pontificados, chega-se ao de João XXIII. Esse papa nos deslumbrou! Pela sua simpatia, pela iniciativa de instalar o Concílio Vaticano II e por suas preocupações sociais. Em 1961 lança a encíclica Mater et Magistra e, em Abril de 1963, a Pacem in Terris. Esta última quase às vésperas de nossa formatura. Não deu outra, me amarrei nas suas mensagens e coloquei mãos a obra. Muita gente gostou do falatório. Lembro-me que o discurso, depois das saudações iniciais, começava assim: “Venho falar de amor!” Numa formatura de economistas, quando deveria estar a falar de macroeconomia, microeconomia, desenvolvimento econômico, Adam Smith, David Ricardo, Celso Furtado, Eugênio Gudin, balança de pagamentos, finanças etc. o abusado orador dizia que vinha falar de “amor”. Ora, deixemos de frescuras! Desde então, nós, os formandos, compreendíamos que a economia é um meio, não um fim em si mesma. O fim é o bem-estar do ser humano. Justiça social. Humanismo. Isso é o que vale! O resto é economismo, economês e coisas que tais, muito difundidas no passado recente. Depois daquelas encíclicas, o que se testemunhou foi uma volta ao obscurantismo social da Igreja. Ainda houve outras mensagens na linha das anteriores, a Octogésimo Ano, de 1971, do papa Paulo VI, e a Centésimo Ano, em 1991, do Papa João Paulo II, em comemoração aos aniversários da Rerum Novarum mas sem o impacto que as quatro anteriores trouxeram à cena mundial. Aliás, a eleição do atual papa constituiu um retrocesso social no seio da Igreja. Travou a Teologia da Libertação dos bispos latino-americanos e voltou-se substancialmente à recuperação da Igreja como instituição e ao combate ao comunismo. Ele sentira as agruras desse regime em sua Polônia e foi, seguramente, um dos grandes responsáveis pelo desaparecimento do comunismo no leste europeu e na URSS. E pelo fim da própria União Soviética. A incompetência do regime em propiciar melhores condições de vida à sua população e a falta de liberdade de expressão, na verdade, foram as principais causas do desastre. Ironicamente, as mesmas que deram fim ao regime anterior. A atenção de João Paulo II voltou-se também para enaltecer a moral cristã, combatendo o sexo fora do casamento, o uso de expedientes para a não concepção, o homossexualismo, coisas do gênero. Empreendeu mais de uma centena de viagens ao redor do mundo para difundir a Igreja Católica, Apostólica e Romana. Esteve até em Vitória! Fui contra essas mudanças, numa época em que já estava me afastando da religião. Mais tarde veio a minha saída da Petrobras, depois do Ministério de Minas e Energia, da Agência Capixaba de Desenvolvimento, enfim a chegada da aposentadoria. Tive que me desfazer de muita tralha, deixando para trás alguns acervos do que mais importava para uso dos meus sucessores. Despojei-me de muita coisa, inclusive de tantas veleidades, e, nessa onda, foi-se o discurso de formatura. Durante muitos anos o guardei. Desfiz-me dele há pouco tempo. Lógico que há nisso um traço de rebeldia, de inconformismo, até de repulsa ao que escrevi há quarenta anos, diante do posicionamento dos novos donos da Doutrina Social Cristã, se é que ela ainda existe. Desculpem-me os colegas. Hoje, meu discurso mudou um pouco. Extrapolou a economia, como acontece com todos nós, à medida que amadurecemos. Meu pensamento atual é simbolizado pela sucessão de outros papas laicos da cultura da humanidade. São eles: Galileu, Darwin, Marx, Freud e Einstein. Galileu mostrando que a Terra não é sequer o centro do sistema solar, muito menos do universo. Darwin, com sua teoria da evolução das espécies, demonstrando que o ser humano não é uma criação divina. Marx, deflagrando uma revolução do pensamento filosófico, econômico, político e social. Freud desvendando alguns segredos de nossa psique, fazendo-nos entender que não temos o total domínio de nossa mente e corpo. Finalmente, Einstein, com sua teoria da relatividade, no início do século XX, abrindo caminho, com uma plêiade de grandes cérebros, para a física quântica, outra revolução do pensamento humano. Galileu, Darwin e Freud, por sinal, representam as três grandes feridas da humanidade. O ser humano, que se julgava a beleza da criação, teve que baixar a crista ao constatar quão humilde é sua existência. Expliquei-me e desculpei-me. Não sei se convenci. Mudei muito e ainda me considero mutante enquanto viver. Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES). Todos os números do JORNALEGO são encontrados em: Nota do redator: Um dos meus textos - o de nº 33 do JORNALEGO, intitulado FAST LOVE - foi classificado (não conseguiu premiação) no IV Prêmio Escriba de Contos, 2003, iniciativa da Prefeitura de Piracicaba (SP). Se v. quiser (re)lê-lo clique em: http://www.ecen.com/jornalego/no_33_fast_love.htm
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