Jornalego
|
|
|
ANO II - Nº 45, em 30 de Agosto de 2003. Especulação Prospectiva 1984 + 40
2024. O ano começou sob o signo da continuidade: da recessão econômica, das guerras localizadas e das escaramuças terroristas. Acontecimentos que vêm marcando essas primeiras décadas do não-tão-novo-assim século XXI. Hordas de desempregados marcharam saudando (!) o raiar do ano nas principais cidades do mundo, com faixas e palavras de ordem sobre a sua deplorável situação. A mais recente tentativa de paz entre judeus e palestinos tinha sido frustrada com a morte de várias pessoas num atentado de um homem-bomba na sinagoga de Ultrech, na Holanda. Vinte e um anos atrás, meu avô já dizia que a continuar a conjuntura daquele tempo, simples extrapolação do que estava então acontecendo, as coisas iriam dar no que realmente deram. Agora não se trata mais de especulação prospectiva. Relato fatos. Lembro-me bem; eu era um adolescente começando a querer entender o mundo, quando retrucava a ele, um sexagenário cético preocupado com os rumos do país e da humanidade: - “Pô, vô! Vira essa boca pra lá! Vade retro! Esconjuro! Toc, toc, toc na madeira. Pé de pato, mangalô, três vezes”. Pois bem, agora estamos vivendo neste ano “da graça” da 2024. Meu avô virou lembrança e saudade, suas conjecturas transformaram-se em realidades. Independentemente desse quadro funesto, no começo de Janeiro as principais agremiações liberais do mundo já estavam preparadas para celebrar os quarenta anos do tempo em que George Orwell escolhera para situar suas previsões, realizadas no romance 1984. Sua crítica acerba aos regimes ditatoriais de esquerda antevira as dificuldades com que se defrontaria a União Soviética. A despeito dos erros que ocorrem em toda previsão, não se deixou de comemorar o autor e sua criação, por razões eminentemente políticas. Como se sabe, exercícios prospectivos são elucubrações intelectuais não científicas. Não dão certo, mas têm um grande fascínio sobre as pessoas. Os fenômenos humanos, sociais e políticos são de difícil previsão. No campo social, o que será, será! A vida humana, pessoal e coletiva, é imprevisível. Não obstante, nunca deixamos de fazê-las. As vidas e as previsões. O citado romance feriu cruelmente o modelo centralizador e estatizante da União Soviética. Daí ser tomado pelas forças de direita nas comemorações que são esperadas para o corrente ano, como uma crítica ao socialismo. Embora o foco do romance fosse um certo socialismo implantado na marra na Rússia. A crítica não era bem ao socialismo, mas ao totalitarismo, à falta de liberdade de opinião, enfim, à ditadura do proletariado, que acabou se transformando em ditadura de uma casta. De dez em dez anos, as instituições e a imprensa burguesa do mundo inteiro, apoiadas pela banca internacional, aprimoram-se cada vez mais nas comemorações da passagem de cada década daquele ano simbólico. Paradoxalmente, Orwell tinha posições socialistas. Demonstram-no outros de seus escritos. Desiludiu-se cedo com o futuro do comunismo. Criticava o socialismo estatal centralizado, totalitário. Até Marx não previra isso. O socialismo que seria uma decorrência histórica do capitalismo aconteceu numa sociedade quase medieval, aristocrática e recém saída das fraldas de uma economia primária. Obra do Lenine a tentar queimar etapas do pensamento marxista. É verdade que, à falta de um socialismo efetivo, até hoje é vaga a definição do que seja isso. Além do modelo teórico marxista, resta defini-lo como a negação desse capitalismo cínico intensificado desde quando a dobradinha Thatcher-Reagan assumiu o poder nos dois lados do Atlântico tendo como base filosófica e doutrinária o fatídico Consenso de Washington. Depois veio a dupla Bush-Blair que reforçou o modelo, militarizando-o. Por que capitalismo cínico? Porque quem mais compreendeu Marx e acreditou nas suas profecias foram os empresários, políticos e intelectuais de direita. Simplesmente reagiram com todas as forças e com o grande apoio tecnológico ao determinismo histórico. Os esquerdistas confiavam que esse determinismo iria levá-los, por gravidade, ao mundo socialista. O marxismo transformou-se em religião. A reação (daí reacionário) foi à luta, virou o jogo. Contaram até com a providencial cooperação de um papa. Aquele polonês que teve de abdicar, depois de um longo pontificado, por força de seu debilitado estado de saúde, para dias depois morrer. De lá para cá, como se sabe, só para não deixar sem registro neste relato, o trono de São Pedro foi ocupado por três sucessores: um italiano - durante um pequeno período de transição - um americano e outro inglês. Este último, logo depois do retorno da igreja anglicana ao seio do catolicismo romano. Religião de resultados! Juntos para enfrentar a concorrência. E assim chegamos neste ano “da desgraça” de 2024. Já lá se vai quase meio século de recessão em muitos países do mundo, desde os anos oitenta. A última grande bolha de crescimento se dera nos anos 90 nos Estados Unidos, logo após a ruína soviética, qual canto de cisne de um modelo que ainda não faleceu, vive uma longa agonia. O grande movimento observado nesses quarenta anos, responsável por este estado de coisas, foi um deslocamento do mais humano fator de produção, o trabalho, pelo seu rival e expropriador, o capital. Mais enfaticamente o capital financeiro, especulativo, pouco produtivo. O fruto do trabalho sempre foi o conduto principal para se chegar a uma desejada e melhor distribuição de renda. Atualmente a renda do fator trabalho situa-se no patamar mais baixo da história, na composição das rendas nacionais. Milhões estão desempregados. Um continente quase inteiro vive à míngua: a África. A Rússia não se reergueu. O sudeste asiático continua a patinar, vivendo de algumas glórias do final do século passado. A América Latina empobreceu ou foi empobrecida pelos movimentos integracionistas comandados pelo “grande irmão” do norte. Cuba, depois da morte de Fidel Castro, voltou a ser play ground do Tio Sam. Os países do leste europeu estagnaram, cessadas as lutas étnicas, impedindo um maior desenvolvimento da Comunidade, a qual se incorporaram. O oeste da Europa não vai tão mal, mas defasou-se em relação aos Estados Unidos por carregar o legado de sua associação com os países anteriormente dominados pela ex-União Soviética. A China, depois de reconquistar Taiwan, fechou-se em si, embora não fechasse a válvula do comércio internacional, num acordo tácito de não agressão mútua com o império americano. Até quando isso vai durar não se sabe. Não sei. Os Estados Unidos continuam a ser a força hegemônica mundial, a despeito da miséria que grassa pelas ruas de suas grandes cidades, a violência daí derivada e os constantes atos terroristas de que são vítimas os cidadãos americanos, civis e militares, em sua própria terra e em todas as partes do mundo. O desenvolvimento surpreendente da automação e o grande contingente feminino que aportou ao mercado concorreram significativamente para a fragilidade do fator trabalho. Surpreendente como tais revoluções, por si só meritórias, foram cooptadas nessa onda elitista. A produtividade do trabalho aumentou significativamente, com o suporte da telemática - telefonia e informática. Atualmente toda pessoa empregada o é durante 24 horas por dia. Seu local de trabalho é onde se situa seu corpo e sua mente. A cena política está muito diferente da que se presenciou no início do atual século. O pluripartidarismo então reinante se transformou numa coleção de partidos únicos, confederados, por toda a extensão do globo. Por outro lado e por força de sua apagada figura no cenário internacional, a ONU estertora, lamentavelmente, sendo substituída aos poucos por essa confederação de partidos únicos. A moda recente do Political Merging fez com que os dois grandes partidos americanos se fundissem no Partido Democrático Republicano que, quando separados, se revezavam no poder e agora, unidos, se perpetuam lá. Assim também os partidos britânicos - Conservador, Trabalhista e Liberal - são uma Political Union, assenhoreando-se, inclusive, do termo que antigamente dava nome aos sindicatos trabalhistas nos países de língua inglesa, as famosas e à época, fortíssimas “unions”. Esses exemplos também foram copiados no Brasil, com o renascimento do PMDB, agora FMDB (Frente do Movimento Democrático Brasileiro) congregando os antigos PT, PL (que começaram o processo), PSDB, PFL, PP, PDT, PTB, PPS e outros. Como toda a regra tem exceção, ainda existem formalmente alguns partidos inexpressivos nas extremas direita e esquerda do espectro político brasileiro, como contrapontos de fantasia. As comemorações de agora se parecem muito com as da vitória sobre a intentona comunista no Brasil, que durante anos aconteciam em novembro. Não tanto para lembrar a derrota do movimento esquerdista tupiniquim, mas para celebrar e validar o modelo político e econômico então prevalecente. A data era muito festejada no tempo da ditadura militar. Assim como são hoje as celebrações “orwellianas”, a fazer propaganda do liberalismo e do capitalismo selvagem vigorante e a lembrar do fracasso comunista na URSS há mais de 30 anos. O autor do 1984 nunca poderia supor que seu tipo de economia planificada e policiada seria substituído, no século XXI, por outro de regime democrático distorcido, usado para oprimir povos e levá-los à estagnação através da expropriação dos frutos de seu trabalho. Exatamente o que Orwell denunciava. Essa apropriação indébita tinha um nome; se me lembro bem era conhecida por “mais valia”. Empunhando as mais nobres bandeiras, o império hegemônico passou a dominar econômica e militarmente todo o mundo que lhe interessa. A própria democracia, a guerra ao terrorismo, a defesa do meio ambiente, o combate ao narcotráfico, todos esses santos nomes vêm sendo usados em vão para justificar o quadro atual. Quase meio século de recessão e atraso para grande parte da população mundial e enriquecimento deslumbrante de uma minoria aquinhoada pelo modelo “democrático”, capitalista e liberal que vem dominando nosso planeta. Sem comentar as mazelas sociais decorrentes! Só as esperanças não se esvaíram de todo ao se comparar esse relativamente pequeno período, de meio século, com o milênio que a humanidade perdeu, sob o obscurantismo religioso. Assim caminha a humanidade! Saiu da crítica do 1984, de um socialismo na marra para a realidade da democracia na porrada. Diante de sua história e da nossa história, o mestre Eric Hobsbawn ainda acreditava, quando de sua morte, na salvação da humanidade. Em seu testamento intelectual, o festejado historiador depositava esperança em que a sobrevivência da espécie humana depende de sua vontade coletiva e ela, a humanidade, superará os infaustos acidentes de percurso. Felizes esses homens e mulheres que um dia concretizarão a visão do velho historiador. O poeta Maiakovski dizia também: “O século XXX vencerá!” Oxalá! Lembro-me do meu avô, um homem intelectualmente pessimista, mas otimista nas ações e quanto à possibilidade de reversão das suas próprias expectativas. Tanto que, ao citar o verso de uma música de sua juventude: “quando provarem dos frutos, digam o gosto pra mim”, admitia que eles seriam certamente doces. Hoje, tenho a lamentar, o gosto é muito amargo. Espero que meus netos, que ainda não nasceram, saboreiem coisa melhor. Algures, em 15 de Janeiro de 2024 (dia do meu 40º aniversário natalício).
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha - ES Visite nossa página, com todos os números anteriores do JORNALEGO: http://www.ecen.com/jornalego
|
|
|