JORNALEGO
ANO II -
Nº 44, em 20 de Agosto de 2003.
Conto
BRANQUELINHA
"Hoje eu tenho
apenas uma pedra no meu peito,
Exijo respeito, não sou mais um sonhador.
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor.
Mentira."
Trecho do “Samba do Grande Amor”,
de Chico Buarque.
Saíram, três velhos amigos, do
restaurante, após o almoço semanal. Pasta & vinho. Uma forte claridade de um dia
glorioso de primavera, contrastando com a pouca iluminação do interior da casa,
ofuscava a visão - fazendo como se somente uma visão fosse - da moça que passava
lépida pela calçada como a procurar alguém ou algum endereço. Já afeito às novas
condições de luminosidade do cenário, nosso personagem ficou atônito,
boquiaberto e alheio à conversa, vendo-a passar rente ao grupo.
Ela era branca, leve e solta,
falsa-magra, quase etérea, linda, “saída-do-banho”, cheirosa, tudo que ele via
ou que imaginava. O narrador onipresente percebeu o momento mágico. Trocaram
olhares, o homem maduro com a cabeça a grisalhar e a jovem mulher, na flor de
seus trinta e poucos anos, cabelos ruivos e lábios róseos. Ambas as colorações
naturais. Ele parado, ela parando como a pesquisar o local. Um corpo perfeito de
pele alvíssima, vestido por uma blusa branca de tecido leve, calças justas e
sandálias abertas. Tudo branco! Era um anjo! Um anjo diferente, exalando
feminilidade.
A visão veio acompanhada por um
nome: branquelinha.
Em seu rosto de traços meigos, a
monotonia alva era quebrada por dois olhos ariscos da cor de mel e lábios bem
cortados numa boca de dentes perfeitos, desvendados num sorriso gracioso. Seus
cabelos curtos, levemente cor-de-fogo, deixavam-lhe desnuda a nuca carnuda. Haja
nu! E cheirosa - deveria ser - como cheiroso seria o hálito pressentido. Cheiro
“di donna”, de mulher madura, imaginou.
O decote da blusa mostrava
generosamente salientes protuberâncias intumescidas, antevisão de peitos firmes
e cheios. Colo leitoso, sem sardas, arfante. Pequenas mangas bufantes cobriam
somente a curvatura dos ombros, deixando à mostra braços roliços que terminavam
em mãos e dedos de fino trato, de unhas aparadas. Sem pintura colorida. Uma
nesga de cintura aparecia como concessão a uma moda por vezes vulgar quando
deixa à mostra barrigas vulgares. Pernas longas, rígidas e fortes, terminavam em
pés de fetiche, que se aninhavam e se equilibravam nas sandálias de salto. Pouco
mais baixa do que o nosso Paco, apelido que lhe foi herdado pelo avô argentino,
também Francisco, “por supuesto”.
Branquelinha! Não branquicela, nada
sarará, nunca branca-azeda, como as claras são geralmente alcunhadas.
Simplesmente branquelinha!
Paco despediu-se rapidamente dos
colegas e caminhando para o estacionamento do carro cruzou mais uma vez com
branquelinha, que ia e vinha pela mesma calçada. Olharam-se e esboçaram sorrisos
receptivos.
A simpatia mútua, a aceitação
tácita por parte dela de um contato, fez com que viesse à mente do Paco uns
daqueles velhos truques para uma abordagem amistosa. Era o caso, por exemplo, de
perguntar se estava procurando algum endereço. Posso ajudar?
Nada disso. Não ousou. Raciocinou.
Racionalizou. Domou seus instintos. Tolheu seus impulsos. Branquelinha se foi,
virando a esquina de onde viera.
A primeira sensação foi de perda,
depois de alívio.
Ultimamente, não tinha visto mulher
mais sensual. Imaginou sua voz, que seria suave e cativante, um pouco grave,
levemente rouquenha, puxando os esses finais, sem o exagero carioca. A sua
imagem levou-lhe a supor aquele corpo sem marcas de biquíni, de pele sedosa,
branca da cor das ninfas delicadas de suas fantasias, a contrastar com seu corpo
moreno de fauno, também idealizado. Era uma miragem, uma ilusão que cada vez
mais se construía na sua mente, no ritmo do seu andar, de olhar perdido, a rodar
o quarteirão. Daí a sensação de perda. Era uma das mulheres mais lindas que
vira, que tanto desejara e que mais correspondia às suas expectativas.
Paco já passara por várias
decepções, pessoais e profissionais, e isso o tornara mais experiente, mais
adulto, mais defensivo. Mas as decepções amorosas, sem culpar a quem quer que
seja, lhe marcaram profundamente. Sangrar por uma ferida, por mais profunda,
como as que vivenciara fora do amor, é tolerável. Sangrar pelo corpo inteiro,
como nas dores do amor, é insuportável.
O alívio se deu ao recordar os
dramas passionais por que passara. Dos píncaros sentimentais que havia escalado
aos tombos dolorosos quando daí invariavelmente se despencava. Talvez amasse
demais, talvez não entendesse seus amores, talvez amasse errado, talvez amasse
quem não lhe amava. Não foi uma única vez, foram várias as decepções.
Imaginava-se descobrindo o esgarçar das ilusões, como já acontecera, sobre a
mulher amada. Imaginava ela se cansando do meu amor. Imaginava um dos dois a
descobrir um novo amor. Quantas armadilhas, quantas oportunidades de fracasso! E
isso, como dói! Talvez ainda guardasse na memória os tangos do avô.
Completando a volta do quarteirão,
chegando ao ponto que se despedira dos amigos, sem encontrar branquelinha, deu
um suspiro de raposão conformado e encaminhou-se para o carro. Vencera a
experiência, prevaleceu a razão, novamente reinariam a paz e a serenidade! “A
ordem seria mantida e os contratos cumpridos”. O mundo continuaria a rodar sem
percalços ou surpresas.
Ligou a ignição e engrenou a
máquina. Uma batida de dedos no vidro da janela contrária ao motorista, de
alguém a lhe chamar a atenção, correspondeu ao farfalhar das folhas da parreira
e acelerou as batidas do coração. Era uma moça querendo lhe passar um folheto de
propaganda. Decepcionado, olhou mais uma vez, ansioso, em todas as direções. Ao
partir, o criador onisciente, antes de liberar sua criatura, ainda pôde ouvir um
murmúrio plangente que o Paco deixou escapar:
- “Volta branquelinha, volta!”
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha - ES
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