Jornalego
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ANO II - Nº 42, em 20 de Julho de 2003 Artigo definido A Q U I R I Acre, o nome do estado que tornei a visitar pela terceira vez em três anos, é uma corruptela da palavra que dá título a este artigo. Num dos idiomas indígenas da Amazônia significa “rio de jacaré”. No caso o Rio Acre, um dos grandes rios que cortam o estado, dividindo-o em regiões: o Alto Acre, o Alto Purus e o Alto Juruá, todos formadores do Amazonas. A história do Acre é fascinante. É esta a razão porque volto a escrever sobre o assunto, já objeto de uma edição extra do JORNALEGO, comemorativa do centenário da revolução acreana. Ver: http://www.ecen.com/jornalego/extraacredoce.htm Tenho ido ao Acre por motivos familiares. As cidades não são bonitas. Rio Branco, a capital, nesses anos recentes, melhorou bastante. Tem trechos bonitos. O Parque da Maternidade e a Beira-Rio, esta restaurada a exemplo do Pelourinho de Salvador. Xapuri, sobre a qual me deterei mais adiante, é pitoresca. O povo é bom e hospitaleiro. Irritam-me as carapanãs, mucuíns e outros tipos de mosquitos em seus assédios ao cair da tarde. Eles não têm a mínima consideração comigo, aparentemente só picam a mim. O calor é perfeitamente tolerável, mesmo em meados do ano, quando ocorre o verão amazônico. Nesse período as noites têm temperatura amena. Quando conheci o estado, em 2000, fiquei entusiasmado com a história da primeira revolução, vitoriosa em 1902, liderada pelo gaúcho Plácido de Castro. Aquelas terras pertenciam à Bolívia e eram também reclamadas pelo Peru. A totalidade da população local, brasileira, lutou para que o Acre viesse a pertencer ao Brasil. Ele é o único estado da Federação que brigou para ser brasileiro. O caso dos gaúchos foi diferente. No sul, chegou-se a perder a Província Cisplatina, hoje Uruguai, fundamentado no mesmo direito que teve o Acre para se incorporar ao nosso país. A posse foi consolidada depois, pelos canais da diplomacia, sob a tutela do Barão do Rio Branco. O nome atual da capital é uma homenagem ao Barão. Antes dessa primeira revolução o espanhol Galvez já havia proclamado a República Independente do Acre, de curta duração, combatida pelo governo federal com as terras devolvidas ao Bolivian Sindicate, testa de ferro de notórios interesses anglo-americanos. (Sugestão de leitura: “Galvez, Imperador do Acre”, romance de Márcio Souza) Resultado das tratativas diplomáticas, depois da luta do Plácido de Castro, o Brasil pagou dois milhões de libras esterlinas à Bolívia, cento e poucas mil libras àquele Sindicato e comprometeu-se com a construção da fatídica Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. (Sugestão de leitura: “Mad Maria”, romance de Márcio de Souza, sobre a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré) A segunda grande “revolução” foi a luta que durou sessenta anos, para transformar o Território Federal do Acre em Unidade da Federação. O governo federal justificava a manutenção da condição de território argumentando que tivera grandes despesas com a efetivação da conquista daquele território e, portanto, necessitava de compensações. O Acre passou a ser administrado da Capital Federal com prepostos nomeados a partir da “corte”, geralmente militares, que não tinham ligação mais íntima com a terra e suas necessidades, administrando a região com acólitos vindos do sul-maravilha. O orçamento do território era uma rubrica do orçamento federal, os impostos pertenciam à União e a população não era cidadã, não votava e nem era votada. Só mais para o fim daquele período de dependência, o território passou a ter dois representantes na Câmara Federal. Neste período assume a liderança do movimento autonomista o mineiro, militar, José Guiomard dos Santos. Ele foi governador nomeado do Acre, deputado federal e depois senador. Hoje dá nome a um município na periferia de Rio Branco (Senador Guiomard). Em 1962, no governo do presidente João Goulart, o Acre se transforma em Estado, mais uma Unidade da Federação, propiciando cidadania à sua população, coroando assim a campanha pela autonomia. Pelo longo período vivido em isolamento e dependência, justifica-se o bairrismo atual do seu povo. O Acre, se não o único, é um dos poucos Estados da Federação que só teve governadores nativos eleitos. Mais recentemente tem lugar uma terceira “revolução”, quando desponta a liderança de Chico Mendes, assassinado em 1988. No tempo dos governos militares e a política de ocupação do território nacional, principalmente suas partes fronteiriças, foi incrementada a pecuária naquela região, que redundou em forte agressão ao meio ambiente, com o desmatamento de imensas áreas de florestas para serem transformados em pastagens, bem como dificultando aos nativos, índios, caboclos e seringueiros, que viviam da extração dos produtos da mata, notadamente a borracha, a sua sobrevivência. Chico Mendes, Marina Silva, o PT então infante, constituíram-se numa barreira à entrada desses “estrangeiros” (popularmente chamados de “paulistas”), tentando minorar e disciplinar as nefastas conseqüências. A despeito desses esforços, a terceira revolução ainda está longe de se tornar vitoriosa. Quando mais se desmatou a Amazônia foi no governo FHC. Vamos ver o que nos reserva o atual governo! Estive um fim de semana em Xapuri, que dista 200 km da Capital, visitando esta pitoresca cidade, muito representativa das cidades acreanas, nascedouro e palco principal das três revoluções aqui apresentadas. A viagem é deliciosa, a paisagem belíssima. Só pasto, muito pasto, muito boi. Vêem-se ainda vestígios das queimadas. Restam as altas castanheiras. A floresta é pano de fundo, descortinada bem ao longe. Como pode uma cidadezinha dessas, nos limites extremos do País, ter tido tanta importância, com repercussões internacionais! O acesso rodoviário à Xapuri foi asfaltado recentemente. Para se ter uma idéia, Xapuri é a cidade natal de Chico Mendes, Marina Silva, Adib Jatene, Jarbas Passarinho e Armando Nogueira, personagens bastante conhecidas no cenário nacional e até internacional, expressivas figuras em suas áreas de atuação. No restaurante Açai, ao lado da Pousada Chapury (sic), onde me hospedei naquela cidade, estão expostas, emolduradas em quadros, duas cartas de Chico Mendes. Uma ao Juiz de Direito e ao Comandante da Polícia Militar, outra ao Superintendente da Polícia Federal, denunciando o complô de fazendeiros locais, comandados por Darli Alves (seu nome é expressamente denunciado como seu possível assassino, hoje condenado e preso na Penitenciária da Papuda, em Brasília) para matá-lo. O Chico já andava com seguranças e mesmo assim foi morto dentro de casa, ao sair dela para ir ao banheiro anexo. Esses assassinos não tinham compreensão do fenômeno Chico Mendes, talvez pensando que pudessem resolver o problema que lhes afligia com soluções voluntaristas e locais, como é de costume pelo interior deste Brasil. Desconheciam sua expressão internacional, muito bem mostrada na Fundação que leva o seu nome, ao lado de sua casa. Criaram um mártir. O Lula esteve no seu velório, discursando em seu enterro. Não se podia imaginar que seu movimento, em pouco mais de 10 anos, já naquele tempo com repercussão internacional, teria o suporte do atual governo estadual e que o PT, Lula e Marina estariam instalados no comando do poder executivo nacional. A liderança do Governo no Senado está também entregue a um representante acreano (Senador Tião Viana). Seguramente, se não tivesse sido assassinado, Chico Mendes seria o atual ocupante do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, muito bem entregue a Marina Silva. O Acre, como disse, é fascinante. Gosto de difundir as coisas do lugar, tão distante do nosso sudeste. Só não gosto dos mosquitos, de lá ou daqui. Mas isso é uma questão meramente pessoal, entre eles e eu!
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha - ES Visite nosso site:http://www.ecen.com/jornalego
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