Jornalego
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ANO II - Nº 41, em 10 de Julho de 2003 Conto IÁ! Ó QUEM VEM LÁ! Tinha vinte e sete anos quando meu pai morreu de ataque cardíaco. Ele sessenta. Mamãe, bem mais nova do que ele, veio a falecer recentemente. Sou filho único, cuidei dela, em sua doença, por três penosos e longos anos. Superada a dor dessa última perda, resolvi comemorar meus sessenta anos de idade. Foi num encontro muito agradável com toda a família e muitos amigos. A festa foi numa bonita casa pomposamente chamada de cerimonial, aqui perto de onde moro. À sua frente, um belo jardim, ao fundo o terreno se espraia num bem-cuidado quintal, um variado pomar, com mais de uma dezena de árvores, de diferentes espécies de frutos. Digno sítio para se celebrar o sexagenário evento e deixar as crianças, da terceira geração, a correr e dar descanso aos adultos, nossos filhos, sobrinhos e seus amigos. Tomei somente dois cálices de vinho branco para acompanhar uma deliciosa moqueca de badejo ao molho de camarões que regalou a todos, acompanhada de muita música e acepipes introdutórios. Por isso, estou sóbrio. Logo que retornei a casa, sentei-me ao micro para escrever este relato. Um acontecimento insólito marcou minha festa. Não vou descrever o tradicional, os convidados, os presentes de aniversário, o parabéns-pra-você, essas coisas prosaicas. Já estava satisfeito com o almoço e as sobremesas, curtindo uma ligeira “depressão pós-prandial”, quando minha mulher, carinhosamente cutucou-me o braço e disse: - Iá! Ó quem vem lá! Para os não-iniciados, “Iá! Ó” é a contração da exclamação capixaba de espanto “iá” com a forma apocopada do imperativo “olhe”. Assim como os nossos compatriotas mineiros dizem “alá”, significando “olhe lá”, quais muçulmanos invocando seu Deus. Da porta de entrada, depois de uma rápida conversa com o porteiro que lhe pediu o inexistente convite, mas o deixou passar por força daquela confiante cabeleira branca e das explicações envolventes que por certo o convenceram, meu pai adentrou ao recinto vindo sem titubeios diretamente a mim. - Olá meu velho! disse-lhe eu, serenamente, como se o estivesse aguardando. Abraçamo-nos demoradamente, sem surpresa dos que nos rodeavam e com o sorriso cúmplice da minha mulher, que chegara a conhecê-lo e conviver com ele alguns anos. Senti-lhe a barba de “um-dia” quando nos beijamos e a quentura de seu rosto sangüíneo e simpático. - Como você está bem! continuei. Já tinha cabelos grisalhos quando partira. As feições e seu corpo eram os mesmos daquela oportunidade. Agora éramos homens da mesma idade. Eu estava como ele, embora aparentasse um pouco mais jovialidade. Entre outras coisas porque seu abdome era mais volumoso do que o meu. Efeito das danadas da “branquinha“ e da “lourinha”, que ele gostava de saborear todos os dias. Trajava calça e camisa de linho branco, como gostava de se vestir. Nos trinques! - Como tem passado? Fomos dialogando no estilo Saramago; ao que me respondeu: não tenho passado, Como, já lá se vão trinta anos, É o que você me revela, mas não os senti, da maneira como fui estou a chegar aqui, parece que foi ontem, Veja, pai, a sua nora, lembra-se dela, Lógico, ainda mantém os mesmos traços fisionômicos e belos de “ontem”, abraçando-a e beijando-a amorosamente, você é que mudou um pouco, com neve nos cabelos e a novidade desses óculos, Veja aqui os seus netos, um casal, você só conheceu pequenina a mais velha, o menino veio depois, ele é você cuspido e escarrado, a menina é que puxou a linha da mãe, hoje estão na faixa dos trinta, ela mais, ele menos, e olha lá, seus bisnetos, ela teve um menino, ele uma menina, que sorte termos homens e mulheres, equilibradamente, como nossos descendentes. Chegou-se a eles e todos se abraçaram sem pieguice, com entusiasmo, embora contido. - E de sua parte, quais são as novidades, você que as tem de contar, já que passou esse tempo testemunhando os acontecimentos, Ah, que grandes mudanças, a propósito, sabe quem é o novo Presidente da República, aquele sindicalista que infernizava os milicos nas portas de fábrica do ABC paulista, ele foi preso pela repressão e depois perdeu três eleições elegendo-se na quarta, Isso é bom porque ele já saiu em prise, recordando as suas origens de caminhoneiro, Sabe pai, a União Soviética acabou, ruíram a Cortina de Ferro e o Muro de Berlim, talvez, quem sabe, se isso ainda existisse o Lula fosse considerado comunista e não se elegesse, por outro lado os Estados Unidos perderam a guerra no Vietnã, Que mais, quanto ao câncer, já existe cura, Ainda não, mas a medicina avançou muito, eu mesmo fiz uma angioplastia e você ainda poderia ter durado bastante com umas pontes no coração, mas temos a praga da aids e pasme, você deve ter ouvido falar da dengue nos seus tempos de criança, aquela doença que gerou inclusive o neologismo dengoso, pois é, ela está de volta, são avanços e retrocessos, as vezes parece-me que se corre muito para ficar no mesmo lugar, Depois você me explica o que são angioplastia, pontes no coração e aids, mas agora me conta, como vai a vida com essas grandes mudanças, mais pacata e fraterna, menos guerras, pobreza, violência, analfabetismo e mortalidade infantil, e o homem já foi a Marte? - Pai, depois eu tento explicar, mas acho que você não vai entender muito bem o que sejam informática, telemática e Internet, mas isso não resolveu os grandes problemas da humanidade, a globalização tem sido um flagelo, concentrando renda em todo o mundo, a África, por exemplo, salvo exceções, está ao relento, continuamos em tempo de guerra que agora se assiste na TV e pasme, o petróleo ainda é a forma jurássica de energia a mover o mundo, provocar guerras e poluir o meio ambiente, a propósito você já tinha ouvido falar nesse tal de meio ambiente, Sem entender muito dessas novidades, acho que a vida não mudou muito, melhorou um tanto, piorou outro tanto, nada tão digno de nota, apesar dos seus destaques como contemporâneo desse “instante” histórico, tenho a impressão que ocorreram meros avanços tecnológicos, afinal, filho, será que teria valido a pena ter vivido mais 20 ou 30 anos, o que é esse lapso de tempo se para mim não existiu, mas como o sentido da vida ainda é viver, não poderia deixar de ter vindo e lhe cumprimentar por esta data, bem-vindo ao clube dos sexagenários. O papo se estendeu por uma boa hora, no limiar do pomar, agora com algumas tiradas filosóficas, sem causar espécie a ninguém. Como estão fulano e beltrano? Sicrano é que se foi. Minha companheira de quarenta anos (que não gosta de ser assim chamada, acha que é modismo) testemunhou toda a conversa, pasma e feliz. Os demais convidados não viram o pai chegar e comigo dialogar ou fizeram que não o viram. Eu ainda tentei direcionar o assunto para a “vida” dele nesses trinta e poucos anos, desde que se fora. Mas, simplesmente repetia que esse tempo para ele não existira. - Essa mania de ficar medindo o tempo pelo calendário, parece-me que o tempo é uma concepção muito humana, Mas pai, se somos humanos e nem você traz qualquer revelação do mistério que nos ronda, nossos conhecimentos têm necessariamente de ser “humanos, demasiadamente humanos”, não há como sair dessa armadilha. Foi quando, abruptamente, levantou-se, beijou-me e à minha mulher, recomendou beijos aos netos e bisnetos, dizendo: Deixo-lhes as alegrias e as aflições do viver. Desejou-nos boa sorte e se dirigiu para a porta de saída, passando despercebido entre as mesas dos convidados. Virou-se uma última vez acenando para nós e surpreendentemente, como saudação final, li nos seus lábios um moderno e intrigante “fui”. Eu ainda tentei perguntar: e notícias da mam...? Antes de terminar a frase ele já cruzara o portal de saída, cumprimentou risonho o porteiro, virou à esquerda e se foi. Depois de um átimo de perplexidade e inação, saí apressado ao seu encalço, mas não o vi mais. As memórias são assim, escorregadias, vêm e vão. Não há como persegui-las, como sair atrás delas, querendo segurá-las um pouquinho mais. São memórias simplesmente, efêmeras como a leitura de um conto. Voltando para junto de minha mulher que me aguardava estupefata: - Que milagre, hein, amor! No que respondi: - Milagre não mulher, milagres não existem. É magia, pura magia! Mera prestidigitação literária. A história pode parecer um pouco fantasiosa, mas expressa desejos e sentimentos por demais verdadeiros. FIM Dedicatória: à memória do meu saudoso pai-xará, que “fez” 100 anos no mês passado.
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha - ES Visite nosso site:http://www.ecen.com/jornalego
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