JORNALEGO
Nº 35, em 20 de Abril de 2003.
Conto ou crônica?
“Lúcia. Bem-vinda ao lar, você
venceu. Te amamos! Carlúcia, Carlos Alberto, Lêda e Luiz Alberto”.
“Outdoor” recentemente exposto em
rua na Praia de Camburi, Vitória (ES), aqui reproduzido com os nomes devidamente
trocados, inspirador do enredo desta história.
O NOVELO DA NOVELA
Nasceu em Bauru. Na adolescência,
foi colega de colégio e amiga íntima do Mauro Rasi, bauruense famoso e
igualmente famoso teatrólogo e cronista, radicado no Rio. Paulista do “interioooorrrr”,
com aquele “erre” bem arrastado. Cumpriu interstício paulistano enquanto durou
seu curso na USP. Socióloga, antropóloga e cientista política. Com mestrado na
Sorbonne, Lúcia, quem diria, aportou a Camburi.
Seduzida por um anúncio nacional de
um concurso para catedrática da Ufes, já professora conheceu Luiz Alberto num
barzinho da orla. As primeiras impressões foram as de um guapo rapaz, um metro e
oitenta, alourado de praia, alegre, falante que a levou a melhor conhecer a
cidade e arredores num carro vermelho, importado, refrigerado, silencioso, macio
e com música ambiente envolvente.
Ele veio de Mucurici, extremo norte
do Estado, terminar o segundo grau na Capital. Filho único de rico fazendeiro da
região, por aqui ficou a cuidar dos negócios da família e a curtir a vida
despreocupadamente. Morava no apartamento dos pais na Mata da Praia, também em
Camburi. Freqüentava os mais nobres endereços e os mais badalados eventos de
Vitória, Vila Velha e Guarapari.
Casaram-se em grande estilo na
capital. Catedral do arcebispado. Recepção no Centro de Convenções. Agradecendo
os faustosos presentes ofereceram seu vasto apartamento de cobertura em belo
edifício próximo à esquina da Avenida Aristóbulo Barbosa Leão com a Avenida
Dante Michelini, Jardim da Penha, Camburi, Vitória do Espírito Santo. Amém.
Por um lado, aulas, conferências e congressos
sobre suas especialidades. Livros e mais livros. Círculo de amigos intelectuais
onde se sobressaía. Artigos para a revista da Sociedade Brasileira de
Sociologia, da qual era membro. Viagens constantes a USP, UFRJ e UNB. Interesse
pelas restantes sociedades indígenas do Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais.
Estudos comparativos com os índios do norte do Brasil. O momento político do
país, decepções comprovadas e expectativas de mudanças.
Por outro lado, idas diárias ao
escritório na Enseada do Suá. Supervisão ligeira dos trabalhos do contador que,
sem sucesso, procurava justificar o descompasso entre o cronograma de
desembolsos de um financiamento do Banco de Fomento Estadual com o andamento
físico das obras de um frigorífico em construção de propriedade do pai.
Cafezinhos em profusão durante o pequeno expediente. Reunião com amigos durante
o grande almoço. Televisão todas as noites quando se quedava em casa. Peladas às
quartas-feiras e aos sábados. Chope, uísque e muito futebol. Fluminense, por
suposto.
Tiveram dois filhos, Carlúcia e
Carlos Alberto. Para o trato das crianças, a fiel servidora Lêda, criada desde
bebê pela família, companheira dos folguedos infantis do Luiz Alberto e agora
transformada em excelente babá, criada, propriamente dita. “Pessoa da família,
de inteira confiança!” Eufemismos para muito trabalho e pouco ou nenhum
pagamento. Sem registro no INSS.
O tempo passando. Os mundos se
distanciando. As visões se trombando. Os objetivos se opondo. Discussões sobre a
educação dos filhos. Amizades diferentes, discussões sobre política e religião
que foram minguando até se extinguirem. Tédio. O mundo se abrindo para ela e a
vida se estreitando para ele. Silêncios imensos. Descontentamento. Desconforto.
Psicanalista. Opressão. Angústia. Estresse.
Transbordou. Fez suas malas e se
mandou para sei lá onde. Desespero do L.A. (el ei, como era chamado pelos amigos
americanófilos), abandonado com duas crianças. A-ban-do-na-do! Que diriam amigos
e parentes? Esperou contatos, ligou para Bauru, descobriu o paradeiro da mulher.
Obtemperou, chantageou, solicitou, implorou e ela voltou atrás retornando depois
de duas semanas. Foram todos apanhá-la no aeroporto. Abraços. Choros e alegria
em rever os filhos.
Início de noite. Entraram pela
garagem do prédio. Jantaram. Dormiram direto, sem preliminares nem finalmentes.
Estavam muito cansados e emocionados.
Dia seguinte, dia claro de verão,
Lúcia acordou cedo resolvida a recomeçar a vida enquanto Luiz Alberto ressonava
na cama “king size” e as crianças dormiam em seus quartos. A casa tranqüila. Foi
à varanda, inspirou fundo o iodo marítimo e o ferro da Ponta de Tubarão. Quando
ao olhar para baixo se deparou com aquele ostensivo “outdoor”, em princípio não
acreditou. Perplexa, raciocinou por dois minutos. Lembrou-se do constrangimento
por que passara num dos seus aniversários, quando toda a rua foi alertada com o
foguetório e mensagens “românticas” em alto e bom som de uma “van”, obrigando-a
a descer até a portaria para receber, rubra de vergonha, um belíssimo buquê de
flores enviadas por seu marido apaixonado. Foi também tempo suficiente para
lamentar o uso promíscuo dos pronomes no cartaz escancarado. Vestiu, lépida e
silenciosa, a mesma roupa da viagem que estava jogada no sofá do quarto, pegou
as malas ainda fechadas e foi-se.
Genserico Encarnação Júnior,
na esperança de que a arte não
tenha imitado a vida, tampouco vice-versa.
Itapoã, Vila Velha - ES
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