JORNALEGO
Nº 34, em 10 de Abril de 2003.
Crônica
O PIANISTA
Um belo filme, O
Pianista, de Roman Polanski, com igualmente bela atuação de Adrien Brody, melhor
ator do Oscar deste ano.
Um filme horrível, o
Pianista, contando a tragédia dos judeus no gueto de Varsóvia na segunda guerra
mundial.
Vi todos os
concorrentes ao Oscar de melhor filme, dividido entre a vontade de assisti-los e
de boicotá-los em represália à invasão americana ao Iraque. Para um cinéfilo não
há como boicotar. São todos muito bons filmes, embora alguns contextualizados no
“american way of life”. É o sobre-preço que se paga para assistir aos seus bons
filmes. Vou deixar o boicote para aquelas terríveis películas de ação, com
explosões fantásticas, corpos atravessando e estilhaçando janelas e portas
envidraçadas, som estridente, abuso de efeitos especiais e velocidade
estonteante entre os quadros.
O último filme
selecionado a que assisti foi O Pianista. Muito oportuno face à invasão
anglo-americana ao Iraque e às cenas assistidas pela televisão deste massacre.
Ao ver a chacina dos judeus na Polônia e as ruínas deixadas pela guerra na
Europa eu me transportava imediatamente para Bagdá. Dá para perder as esperanças
na regeneração humana, na irmandade entre os povos e nos encher de indignação
perante as atrocidades.
Enquanto isso, eu a
escrever contos e a ler literatura! Pareceu-me uma insensibilidade! Fui me
transformando e por pouco não me metamorfoseei num repugnante inseto kafkiano.
Deu vontade de sumir ou de assumir a indignação de alguma forma, por exemplo,
deixando de escrever esses textos, que absolutamente não contribuem em nada para
nada.
Foi quando, numa cena,
na segunda metade do filme, o pianista, ajudado por amigos, se refugia numa casa
com um piano. Ele o abre, retira o feltro que cobria as teclas, senta-se... e o
público fica em suspense imaginando que a vontade incontida de tocar o revelaria
aos vizinhos e aos alemães. Ele posiciona as mãos acima do teclado alguns
centímetros e começa a dedilhar o ar, sem ferir as teclas. Toca uma peça
musical, imaginariamente, sem tocar o instrumento.
Assim, admite-se, passa a usar esse
expediente para poder superar, sozinho, com pouca comida e água e muito frio, os
dias de esconderijo, esperando o término da guerra. Em outra cena, chega a
simular a execução de uma música, tocando no ar, com as mãos estendidas, sem
piano, com a música a lhe soar somente na imaginação.
Confesso que, diante
das misérias e violências mostradas no filme, relaxei um pouco, quanto a
refletir sobre a minha posição diante do infortúnio de muitos nas recentes
guerras. Refiro-me à minha passividade diante do quadro atual do mundo.
Como o pianista, todo o
escritor, inclusive os mais modestos como é o meu caso, sofre do que chamo da
síndrome de Scherezade. Diante das perplexidades da vida, de toda a sorte, ele
tem a necessidade de escrever para sobreviver psicologicamente, da mesma forma,
que a Princesa emendava histórias, durante mil e uma noites, para entreter o
Sultão e evitar a sua morte.
Como o pianista, embora
de forma muito mais confortável, aguardo tocando meu atual instrumento,
registrando sentimentos, fazendo humor com algumas situações ou indignando-me
com algo, escrevendo sem a necessidade de ser lido, na expectativa do fim da
guerra. Contudo, sem incorrer na ingenuidade de pensar que com o término dos
ataques, a violência cessará. Seja qual for a temperatura da guerra - fria ou
quente - ela perdurará por muito tempo.
Resta-nos repudiar a
guerra como mediadora de conflitos e principalmente as agressões. Se existe
alguma coisa boa no ar neste início de século é o repúdio moral à guerra e à
fome, por parte da maioria da população mundial. Exceção feita às patriotadas de
parte das populações dos países beligerantes, ninguém mais, em sã consciência,
justifica os horrores das guerras, como se fazia anteriormente de forma heróica
e romântica. A não ser com cínicos objetivos geopolíticos ou fundamentalistas.
Como, de igual forma, todos sabem que a fome não é mais um problema de falta de
comida, seja no plano nacional ou internacional, mas de distribuição, portanto
de maior igualdade nas rendas, ou seja, passível de ser contornada por vontade
política dos governos e competência gerencial.
Como aficionado do
cinema, termino recordando a fala do Marlon Brando numa cena de “Apocalypse Now”,
sobre a guerra do Vietnam, de Frank Coppola, com a repetição da lúgubre palavra
bilíngüe:
- Horror! Horror!
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha - ES
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