JORNALEGO
Nº
32, em 20 de março de 2003.
Ensaio
O NADA
Em meio à elaboração deste texto, eis
que me deparo com esta frase do escritor argentino Ernesto Sabato ao expressar
muito bem o que quero exprimir: “O nada é a forma mais imaculada da pureza”.
Sugestiva também é a citação atribuída a
Virginia Woolf no filme “As Horas”, quando a escritora responde a uma menina que
lhe pergunta para onde vamos após a morte: “Para o mesmo lugar que viemos antes
de nascer”.
Após essas considerações iniciais seria
interessante estabelecer algumas premissas para situar a presente argumentação,
para que este ensaio não pareça pregação de ermitão desiludido ou perplexo com a
vida. Não se propõe fazer proselitismo de nada. Simplesmente especula-se sobre
um tema. Filosofa-se sobre o Nada numa perspectiva humana e individual. Assim
posto, o nada, neste contexto, é, basicamente, a inexistência de uma vida
humana. Contudo, sem qualquer perspectiva mórbida. Muito pelo contrário, o
objetivo é compreender melhor o fenômeno da nossa vida para vivê-la melhor.
O Nada poderia ser considerado também sob o
ponto de vista do fenômeno humano, do ser humano como um todo. O Nada ainda
poderia ser analisado sob o prisma mais amplo, cósmico ou universal. Neste caso
ele teria uma conotação mais absoluta, além da ausência da vida, no primeiro
caso, mas da ausência de tudo, no segundo.
Como dito, o ensaio limita-se à análise do
tema dentro de uma perspectiva humana e individual. Assim definido o escopo do
trabalho, o Nada é a ausência de uma vida ou o seu fim.
O corpo, seus órgãos, o metabolismo, doenças,
instintos, sexo e gêneros. Ascendência, descendência e história. Parceiros,
amigos, cônjuges, filhos, sobrinhos, netos, toda e qualquer sociabilidade.
Perspectivas. Amor e afetividade. Aflições, preocupações e agonias. Alegrias,
êxtases, gozos e prazeres. Dor. Patrimônio, riqueza e renda. Compromissos,
vínculos, deveres, direitos. Passado, lembranças, futuro. Enfim, nada,
absolutamente nada. Embora o Nada não comporte o absoluto nem tampouco o
relativo. O Nada é nada.
Como isso deve ser bom, no devido tempo,
livrar-nos das aflições da vida, depois de vivê-la da melhor maneira possível!
Mas o nada não comporta o bom ou o mau. Tampouco o bem e o mal.
Incoerentemente, o ser humano despreza o Nada,
ele objetiva o Tudo. Pelo menos é isso que está na base do pensamento, pelo
menos o da civilização ocidental. A filosofia oriental talvez seja menos
idealista, embora também dê lugar a expectativas absolutas. Porque só o Tudo
pode ser absoluto, constituindo-se seus limites: O Nirvana, o Paraíso, a
Eternidade, a Graça, o Divino e a Reencarnação.
Está certo que no decurso de sua vida, o ser
humano procure renda, riqueza, conhecimentos, reconhecimento, afetos e afins,
para ter as condições que achar necessárias para o bem viver. Progresso,
civilização e cultura. Melhorias para as gerações vindouras. Mesmo assim, e como
sabem não está nas cogitações deste ensaio, poderia se orientar pela perspectiva
do Nada para pautar sua vida. O Tudo induz ao Todo e ao Muito. A perspectiva do
Nada pode lhe sugerir a virtude da parcimônia. Não a Penúria, mas o Bastante.
Que poderia até conter o “caviar das crianças”, dependendo das “necessidades” de
cada um. Mas este parágrafo está fora no nosso escopo presente. Voltemos à
trilha preconizada. Aqui foi posto só para eliminar qualquer exaltação à
pobreza.
A busca do Tudo, do Todo, do Muito é uma carga
muito penosa para o ser humano. A angústia, a depressão e o “stress” são suas
moedas de troca. Toda a civilização humana, notadamente a ocidental, está
voltada para esses fins. O Tudo é que domina o pensamento filosófico e
principalmente religioso de grande parte da humanidade. O homem não se dá conta
da importância do Nada. Almeja o Tudo e se dilacera, desconfiando, embora sem
admitir, da fatalidade do Nada.
Numa outra linha de raciocínio, considere-se
este faceta diferente do conceito de liberdade. Acredito que tenha sido José
Carlos de Oliveira que tenha dito: “Liberdade não se ganha, não se conquista;
liberdade se perde”. Ao longo da vida, as pessoas vão abdicando de porções de
sua liberdade, se comprometendo, se vinculando, se envolvendo, criando alianças,
participando de grupos, seitas, empresas, escolas de pensamento etc. E perdendo
sua liberdade individual. A conquista da liberdade só se dá voltando ao Nada. A
liberdade total está no Nada.
Durante muito tempo, prenhe de sentimentos
humanistas, adorava os versos do poeta russo Maiakovski, que diziam: “O século
XXX vencerá”. Considerava-os o máximo de altruísmo. O homem preocupado com uma
longínqua geração. Ainda os admiro. Hoje, pasmo-me diante a citação de um
sobrinho num quadro surrealista, que diz: “Não deixarei memórias”. Esse
posicionamento supera em muito o desprendimento e o despojamento anterior,
porque ele implica em abrir mão da transcendência, um valor muito caro ao homem,
quando, na busca do Tudo tenta negociar algo com o Nada, restando-lhe um troco
qualquer, sua memória.
O Nada não comporta sequer a paz eterna. É o
Nada. Como diria o português da piada, “O nada é um punhal, sem lâmina e sem
cabo”.
No mais, viva a vida! O pequeno lapso que une
o Nada ao Nada, o Não-Ser ao Não-Ser.
Termino com a nítida sensação que estar
querendo reinventar o homem. Inglória e arrogante pretensão! Esta sensação
acentuou-se diante do que acabo de ler, outra vez em Ernesto Sabato que, mais ou
menos, assim se expressa: entre os problemas em que os homens se debatem estão
o anseio de absoluto e de eternidade diante da revolta do absurdo da
existência.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha, ES
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