JORNALEGO
Nº 30,
em 20 de Fevereiro de 2003.
Artigo
BAGDÁ
Bagdá foi a primeira cidade do exterior
que conheci. Início de 1972. Fora escalado pela Petrobras para participar de
reuniões preparatórias sobre um investimento em exploração de petróleo naquele
país. Viajamos direto, do Rio para lá, por mais de vinte horas, com escalas nos
aeroportos de Casablanca, Frankfurt, Munique e Beirute. Era domingo quando
chegamos e minha mala extraviara-se na única conexão. Recuperei-a uma semana
depois. Ficamos por lá quinze dias.
O contrato foi assinado
posteriormente e deu margem à descoberta de um grande campo de petróleo, Majnoon,
que foi oportunamente negociado com aquele país, às vésperas de uma longa guerra
com o Irã, o que nos dispensou de investir vultosos recursos no desenvolvimento
da produção, sem a necessária segurança. Em contrapartida, importamos petróleo a
preços favorecidos, durante um bom tempo.
Nossa visita se deu antes do
primeiro choque do petróleo. Desde seu advento na região, o petróleo vinha sendo
explorado e produzido pelas Sete Irmãs a preço vil. A estatal italiana (ENI) já
oferecera melhores condições ao Irã e uma estatal francesa (ERAP) também o
fizera com o Iraque. Interessados em melhorar seus benefícios neste último
contrato, os iraquianos cortejavam a Petrobras para cotejar seu contrato com os
franceses. O negócio do petróleo era (e é) tão bom que por mais favoráveis
fossem as condições oferecidas aos países da região ainda se constituía em
grande vantagem para o investidor.
Depois dos choques do petróleo, a
despeito de ter melhorado muito o ingresso das exportações desses países, eles
não se libertaram do jugo dos grandes interesses internacionais. O grande fluxo
de dinheiro provocado pelo aumento do preço do produto foi terminar nos cofres
dos países desenvolvidos. A guerra que ora se propõe contra o Iraque visa o
domínio da segunda maior reserva do mundo. A crise israelense-palestina, como é
notório, faz parte deste contexto de dominação. A venezuelana não tem outro
motivo.
A primeira impressão de um país
tão distante e um povo tão diferente foi de perplexidade. A milenar Bagdá era
ainda uma cidade atrasada. Modernizava-se. Uma parte tinha belas construções,
outra era paupérrima. Espetacular era a beleza de suas mesquitas. Não sei
explicar como conseguira tal façanha, visitei a maior mesquita de Bagdá. Eu, um
“infiel”! Um companheiro petroleiro fora barrado em viagem anterior.
Deslumbramento total pela beleza interior da mesquita e pela devoção dos fiéis
prostrados sobre tapetes na direção de um, digamos, altar central, onde por
certo, uma relíquia deveria estar guardada.
Da janela do edifício da empresa estatal iraquiana de petróleo, em pleno
centro de Bagdá, via-se uma vila de casas pobres. Construções fechadas para
resguardar as mulheres do contato com o mundo exterior e um quintal no meio,
onde crianças e animais domésticos se divertiam.
Numa sexta-feira - o dia santo
dos mulçumanos - fomos visitar as ruínas da Babilônia, a cerca de cem
quilômetros da capital. Uma região então desértica e povoada por uma rala
população rural habitando casas muito parecidas com as aqui descritas. Tufos de
vegetação seca rolavam pela areia levados pelo vento. Um colega, conhecedor dos
costumes locais porque descendente de árabes, contava que o interior dessas
casas era dividido em duas partes: a social, destinada aos homens, e o espaço
destinado às mulheres, crianças e animais. Imaginava ele que Jesus não tivesse
nascido em uma manjedoura, mas numa casa desse tipo, no segundo departamento.
As mulheres eram quase completamente
discriminadas. Havia secretárias trajando roupas ocidentais na empresa
iraquiana, mas o grosso da população feminina usava aqueles mantos pretos,
algumas cobrindo a metade do rosto. Nos bares e restaurantes mais populares
existiam balcões reservados para mulheres e crianças. As partes nobres eram
destinadas aos homens. Fomos a um restaurante às margens do rio Tigre comer um
“masguf” (será assim que se escreve?), um peixe escolhido vivo em pequenas
piscinas e banheiras rudimentares e churrasqueado numa pequena fogueira
improvisada. Era servido como se fosse uma pizza aberta e comido com a ajuda do
pão árabe, com as mãos, retirando-se a carne saborosa, separando-a da pele que
restava no prato. Da mesma forma, numa espécie de cabaré onde fomos apreciar uma
dança do ventre, só havia homens. A exceção era a bailarina.
Depois dos choques do petróleo,
quando este produto se valorizou bem, Bagdá deve ter se renovado bastante.
Afinal são trinta anos desde que lá estivemos! Naquele tempo o governo era
militar, do partido nacionalista Baath, que tinha se alçado ao poder depois de
derrubar a monarquia em 1958, dominada pelos britânicos. Saddam Hussein, do
mesmo partido, construía a sua liderança e a despótica ditadura.
Depois, na viagem de volta para o Brasil,
paramos em Beirute, ainda não destruída pela guerra civil, a cidade mais
européia do Oriente Médio. A diferença era grande em relação a Bagdá. Beirute
era muito mais requintada e ocidentalizada. A Paris do oriente, com justiça. No
caminho do aeroporto vimos, àquela época, um grande acampamento de refugiados
palestinos, escorraçados de suas terras pela guerra com Israel. O lindo hotel no
qual nos hospedamos, da cadeia Intercontinental e o outro à sua frente, da Holiday Inn, foram destruídos na guerra entre as facções para dominar o país,
poucos anos após nossa passagem por lá. Uma lembrança: poucos dias antes de
nosso desembarque em Beirute, caças israelenses tinham bombardeado, estacionada
na pista do aeroporto, uma esquadrilha da Síria.
A viagem, além dos objetivos
profissionais, foi bastante proveitosa. Observei muito. Conversei e li a
respeito daqueles povos. Conclusão: é outro mundo, outra civilização, outra
mentalidade e como tal devem ser considerados, respeitados e compreendidos.
Povos recentemente dominados por sua riqueza natural e que vêm tentando sua
independência, caem na esparrela de toda sorte de agressões externas e são
vítimas de ferozes ditaduras internas, estas geralmente sob o manto protetor de
uma superpotência econômica ou militar.
O que será de Bagdá e do país
após os bombardeios americanos que parecem inevitáveis? O que prever para
depois, com a dominação americana e um governo “laranja” que a viabilize.
Num primeiro momento a
destruição. Ruínas, mortes, feridos e fome! Por sinal, fome e doença a
persistirem nas camadas mais pobres da população, em decorrência do famigerado
embargo econômico que os Estados Unidos impõem ao Iraque há mais de dez anos.
Tudo a ser devidamente assistido de nossas poltronas pela televisão, em tempo
real. Os campos dos refugiados e dos sem-teto!
Depois virá a “caridade” dos vencedores. As
tendas já estão armadas para acolher os vencidos sem-teto, sem-comida e
sem-saúde. Recuperar não só os vencidos da guerra como os vencidos do boicote
que vêm desde a guerra do Golfo. Imagino as indefectíveis declarações da pobre
população enaltecendo os libertadores e criticando o governo caído. Imagens dos
monumentais palácios do governante deposto e se puderem, a cabeça de Saddam
exposta à execração mundial. Isso, se não se repetir o fracasso americano no
Afeganistão, com Osama Bin Laden escapando ileso e ainda atuante.
Imediatamente depois, a “reconstrução”.
Grande oportunidade de investimento dos vencedores aliados, em tempo de recessão
em seus territórios! O petróleo estará devidamente garantido para as sedentas
economias industriais e motorizadas do ocidente e ocidentalizadas. O mercado
daquela população fornido de toda sorte de badulaques, de calças jeans a
sanduíches do Mac Donald. Vai ser uma farra!
É muito triste o que esta transição de século
vem testemunhando, especialmente pelo desvario de certas políticas vigentes por
esse mundo afora que levam a chancela de Bush, Saddam Hussein, Sharon, Blair
(que surpresa!) e outros. Nós brasileiros precisamos nos precaver, com uma visão
estratégica mais ampla, se não latino-americana pelo menos sul-americana, para
não sermos surpreendidos mais adiante como a Venezuela, que se enreda com um
olho grande por um lado e com trapalhadas por outro.
O comunismo acabou, agora o inimigo é o
terrorismo. Depois será o narcotráfico e o meio-ambiente. Sempre haverá uma
bandeira “nobre” para justificar objetivos torpes de dominação.
Delenda
Bagdá! É o mote da vez.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha - ES
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