JORNALEGO
Nº
29, em 10 de Fevereiro de 2003.
Ensaio
LITERATURA
Ao comentar um texto de minha autoria, a generosidade de um Professor de
Lingüística assim se expressou: “... a última página é o antiilusionismo,
é a metaliteratura, é a subversão da própria ficção”. Fiquei feliz por
acreditar tratar-se de um elogio!
Sem entrar no mérito desses conceitos, presumo que eles rotulem o que às
vezes pretendo fazer, definem um aspecto da literatura e expliquem alguns dos
melhores momentos da minha atual atividade, pela ordem, ler e escrever. Imagino
o que isso possa significar pelo que sinto, não por conhecimentos técnicos
adquiridos sobre a matéria.
De leituras superficiais sobre a física quântica aprendi que o
observador de um fenômeno ou evento subatômico não só o valida, como, ao
observá-lo, o modifica. A alusão à física quântica é uma tentativa de
compará-la à literatura. Na minha visão, esta é a grande observadora dos fenômenos
humanos e, portanto, em assim fazendo, eles “acontecem” e podem ser
modificados. A literatura é o prisma através do qual se observam os
acontecimentos. Com ela podemos modificar as realidades aparentes e, conseqüentemente,
criar novas. Literatura não é informação, é criação.
Ela nos leva a viajar por realidades diferentes das percebidas pelos
nossos limitados sentidos vitais; viagem nada idêntica às propiciadas por
psicotrópicos ou drogas em geral. Nada a ver também com delírios alucinatórios,
alienados ou alienantes, metafísica e coisas afins, mas a descoberta de uma
outra dimensão, realíssima, só que diferente do nosso dia-a-dia.
Nesta altura cabe a pergunta: que realidade é esta na qual vivemos?
Existe uma ou elas são inúmeras? Ela é mutável no tempo e no espaço? Lógico
que sim, são múltiplas; elas se criam por uma série de condicionantes,
inclusive civilizatórios, que nos induzem a proceder de certas maneiras, dentro
de padrões pré-estabelecidos.
Por exemplo, como são
diferentes a civilização judaico-cristã e helênica do ocidente e a filosofia
oriental! Outro exemplo: quão diferentes são as realidades em uma única
pessoa, nos seus vários estágios de vida - do bebê, da criança, do
adolescente, do adulto e do velho? A realidade de uma pessoa pode não ter nada
a ver com a de outra.
Voltando à física, os princípios
newtonianos são diferentes dos da física quântica. As verdades do macro e do
micro cosmos discrepam das vigentes na nossa dimensão terrena, cosmética, se
me permitem o trocadilho.
Retornemos ao comentário inicial do Professor. Um texto totalmente fictício,
como o do conto analisado, ao ser classificado de antiilusionismo e de subversão
da ficção, conclui-se que, se antiilusionista então a história apresentada
no conto não tem nada de ilusão, se, por outro lado, é a subversão da ficção
ela não tem nada de ficcional. A ilusão e a ficção são alternadamente
verdade e realidade, fazendo-nos embarcar numa rota elíptica sem fim, centrífuga,
a se abrir indefinidamente, ou, num buraco negro, numa trajetória centrípeta.
Temendo descambar para a esquizofrenia com os meus textos ficcionais,
comentei isso com um homem de teatro, pessoa mais afeita ao simbolismo, à arte
da representação e às metáforas. Contestou-me ele que o mundo da criação
é o que representa o verdadeiro mundo; a peça artística ao desvendar,
observar, analisar, criticar, desfigurar e poetizar a vida e seu contexto,
permite a nossa melhor convivência com a grande “ficção” de nossas vidas.
A arte está muito próxima do misticismo, embora quando me refira aos místicos
não me atenha àquelas pessoas que têm explicações prontas para tudo como os
religiosos de nossas igrejas, mas aos homens sábios, meditabundos e pensadores,
perscrutadores e atônitos, por isso tranqüilos, ao se debruçarem sobre o mistério
universal, do qual o fenômeno da vida é um pequeno detalhe.
Em minha amadorista atividade literária procuro desvendar novas
fronteiras da percepção, assim como conhecer a culinária japonesa foi
descobrir novas dimensões do paladar.
Como leitor, depois de passar
bem por Proust, meu maior desejo seria poder ler e sentir o Ulisses, de James
Joyce que, segundo os entendidos, são os melhores romances do século passado.
Ainda não consegui encarar Joyce, apesar de ter me preparado convenientemente,
lendo críticas, abordagens esquemáticas, romances anteriores do autor e a
Odisséia de Homero. Ultrapassei duzentas páginas da tradução do Antônio
Houaiss e desisti. As barreiras da linguagem e da língua possivelmente criam
impedimentos à compreensão deste, assim chamado, “monumento” da literatura
contemporânea que, a não ser, só restaria ser qualificado de grande blefe
literário, o que não acredito.
Por enquanto ainda navego águas
plácidas desviando-me de monstros ciclópicos ou alheio aos sonoros apelos das
sereias, neste périplo homérico em busca de uma percepção mais apurada.
Antes de Joyce, talvez Borges três vezes ao dia me permita aportar a Ítaca.
Sobre outro texto de minha
lavra, perguntaram-me da veracidade do que ali vai narrado. Eu mesmo já não
sei situá-lo, se no plano da ficção ou da realidade. Mas confesso, é tudo
verdade, mesmo que a realidade seja fictícia.
Complicado, não é mesmo? As explicações globais têm-nas os
tecnicistas, os racionalistas e os arautos da fé. À literatura, aos cientistas
de vanguarda e aos artistas cabem os registros das perplexidades e a reinvenção
continuada da realidade mutante. A mim, por ora, proponho-me, corajosa e
disciplinadamente, escrever estes textos periodicamente, temendo as besteiras
que possa estar cometendo sobre assunto já muito bem tratado por gente
competente.
Para dar um fecho a essas considerações, transcrevo para o leitor dois
trechos colhidos de suplementos literários recentes. O primeiro, da poeta Cora
Coralina (Caderno Idéias, Jornal do Brasil, 01.02.2003): “Melhor do que a
criatura,/ fez o criador a criação./A criatura é limitada./ O tempo, o espaço,/
normas e costumes./ A criação é ilimitada./ Excede o tempo e o meio./
Projeta-se no Cosmos”. O segundo, de autoria de Wilson Martins (Caderno Prosa
& Verso, O Globo, 01.02.2003): “Sem “Os Sertões”, Canudos teria
ficado apenas como mais uma das numerosas eclosões de fanatismo que entre nós
ocorreram - e que não tiveram o seu Euclides da Cunha: na memória coletiva,
Canudos é uma realidade mental, não factual, é o triunfo do estilo literário
que lhe conferiu realidade”.
E que dirão, senhores e senhoras, a Bíblia, com suas ficções a se
constituir realidade para milhões e milhões de pessoas!