JORNALEGO
Nº 28, em 30
de Janeiro de 2003.
Crônica
ESTAÇÕES
Em idade provecta, volto à pequena estação
ferroviária, incrustada no meio da serra, onde meu pai nos levou, ainda
crianças, a mim e a um irmão mais novo, numa primeira viagem de trem.
A
“maria-fumaça” puxava um comboio de poucos carros de madeira para passageiros,
com poltronas forradas de palhinha, da empresa inglesa de nome composto - o
primeiro, soube depois, aristocrático; o outro, à época, impronunciável:
Leopoldina Railways! Lerdo, o trem subia a serra, cortando morros,
contornando encostas, descortinando vales. Rompendo o silêncio de pastos,
plantações e matas, apitava nas tantas curvas do percurso. De tempos em tempos,
parava nas estações intermediárias, marcadas no alto das paredes frontais com os
nomes das localidades. Decifrá-los era um exercício encantador para mim.
-
Estamos na estação tal ou qual, informava a meu pai, que me elogiava ao
constatar os progressos das lições de leitura.
A
cada parada, pastéis, doces e bolos eram oferecidos pela janela do carro por
meninos e meninas mal vestidos, de minha idade - pouco mais, pouco menos - pés
descalços, em bandejas rasas de madeira, penduradas ao pescoço por tiras de
tecidos ou de borracha reaproveitada, cobertas com panos de prato trabalhados e
asseados. As tangerinas vinham artisticamente agrupadas num amarrado vertical a
um galho cortado, exalando perfumes e provocando salivações. Jovens e gordas
matronas, provavelmente as mães dos guris vendedores, sentadas em bancos ao
fundo das plataformas, estocavam os produtos à venda, guarnecendo a retaguarda
daquele pequeno comércio.
Os
cenários se repetiam com muita fumaça, chiados da locomotiva - suspiros longos
provocados pelo esforço da subida - e vozerio. A máquina se reabastecia através
de uma mangueira, espécie de tromba que baixava da caixa-d’água redonda,
sustentada no alto sobre pernas finas e longas de madeira.
A
chegada do trem a uma dessas cidadezinhas era um acontecimento social da maior
importância, marcando o tempo e a coreografia dos seus poucos habitantes,
trazendo pessoas, mercadorias e notícias. A estrada de ferro, traçada para
escoar o café, plantado naquelas altas regiões, criou pequenos núcleos urbanos
por onde passava.
Nosso destino era um desses núcleos. Ao desembarcar deparávamos com um “grande”
espaço entre duas montanhas. Ao pé da primeira corriam os trilhos, tendo ao lado
a plataforma e a estação. O trem surgia apitando neste espaço, de uma curva
entre a montanha e o rio, e, ao partir, desaparecia numa outra curva. Como se
entrasse num palco por uma das coxias e saísse por outra.
A
estação dava para um descampado barrento, que servia de rua e praça para o
povoado. Do outro lado, uma fileira banguela de casas baixas, voltadas para a
estação. Mais além, nos fundos das casinhas, corria o rio pedregoso e caudaloso,
que se alcançava por entre as casas e que se transpunha por uma perigosa
pinguela. A seguir, a outra montanha, fechando o espaço. Um morro alto que se
escalava por um caminho íngreme e escorregadio levava-nos ao sítio do amigo do
meu pai, a quem íamos visitar; com casa, galinheiro e chiqueiro acoplados,
situados num mesmo patamar.
Meu
pai nasceu e viveu seus primeiros anos à margem de outro rio, encachoeirado até
sua cidade natal. A partir daí, a jusante, até desaguar no mar, era navegável. A
cidade, também montanhosa, um pouco mais ao norte desta que ora visitávamos, era
um grande empório, para onde convergia e se comerciava toda a produção da
região. Havia fartura, que chegava em tropas de burros e daí descia transportada
em canoas, pelo rio, para a capital, no litoral. Com o advento dos transportes
rodoviários, o fluxo comercial deslocou-se, em direção à estrada de barro
recentemente construída. A cidade estagnou, pior, retrocedeu, ainda esta lá, mas
ignora que morreu. Hoje é um triste fantasma do que foi outrora. Meu pai
emigrou, foi p’ra capital, tentar a vida. Todos da família deixaram-na. Muitos
voltaram, mortos, para serem enterrados na terra em que nasceram.
Depois veio a indústria automobilística nacional, o asfalto, a auto-estrada.
Agora quem cedeu seu lugar foi a ferrovia e com ela, a estação da minha
infância. Novas zonas urbanas próximas às estradas de rodagem vicejaram,
prosperaram, desenvolveram-se. A ciranda do progresso, ao gerar novas riquezas,
deixou seu rastro implacável. Como um animal à procura de caça, largando
carcaças e defecando pelo caminho.
Depois de mais de meio século descobri, após várias tentativas, a estaçãozinha
da minha infância, perdida num grotão entre montanhas, distante do asfalto liso,
por onde eu costumava passar, lépido e fagueiro, para outras capitais ou
pousadas de lazer na serra.
Cheguei por uma
estradinha de terra batida, que descia se contorcendo na direção do leito do rio
e da estação, guiado mais pela curiosidade do que pela saudade.
O
prédio da estação ainda está lá de pé, transformado em alguma coisa como museu
ou centro de artesanato. Estava fechado. O “grande” espaço diminuiu, hoje é uma
ruela estreita. A fileira de casas se completou, vedando completamente a visão e
fechando o acesso ao rio. Da montanha do lado contrário à estação, vê-se somente
o seu cume, por cima das casas. A ruela não tem continuidade. Fim do caminho. A
saída é voltar.
Não saltei do carro. Fiz uma manobra trabalhosa no espaço exíguo e voltei. Sem
tristeza nem nostalgia. Lúcido e tranqüilo diante das inevitáveis e implacáveis
mutações que o tempo impõe a todos e a tudo. Voltei para casa, ao cair da tarde,
fugindo de um ventinho sul, frio, que antecipava ameaçador a chegada da
derradeira estação.
Genserico
Encarnação Júnior
Itapoã, Vila
Velha.
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