ANO X - N°
288, em 10 de dezembro de 2011.
Artigo
BORGES, SWEDENBORG E EU
Os nomes deste título
respeitam a ordem de entrada em cena neste texto.
Leio ao longo dos
últimos anos as obras completas, traduzidas para o português, de
Jorge Luis Borges, o brilhante escritor argentino que escrevia
excelentes contos, artigos, ensaios, poemas..., mas que nunca
escreveu um romance. De alguns deles me valho como inspiração para
me estender sobre temas que julgo mais interessantes. Assim foi, por
exemplo, no número 250 deste Jornalego, com o Tema do Traidor e
do Herói. Recomendo a leitura; você pode se surpreender.
Nesta oportunidade,
retiro de Prólogo com um Prólogo de Prólogos, de 1975, a
idéia destes comentários, onde o autor se refere à figura de Emanuel
Swendenborg, que nasceu em Estocolmo, no ano de 1688 e que morreu em
Londres em 1772.
Além de intelectual o
sueco foi homem de ação, como comprovam várias de suas iniciativas e
atividades. Interessou-se pelo artesanato, exercitando-se nas artes
manuais da encadernação, da óptica, da relojoaria, da fabricação de
instrumentos científicos e da marcenaria. Gravou mapas do globo
terrestre. Estudou álgebra e astronomia. Projetou uma nave que
pudesse voar e navegar sob o mar. Criou um método para fixar as
longitudes e um tratado sobre o diâmetro da Lua. Atuou como
engenheiro militar e assessorou governos. A anatomia, a física, a
álgebra e a química inspiraram-lhe algumas obras.
Isso é uma introdução ao
cerne do a que queremos chegar neste artigo. Em 1745, teve um
encontro em Londres com um desconhecido que se apresentou como o
Senhor, sim o Todo-Poderoso, que lhe encomendou a missão de revelar
aos homens a verdadeira fé. Anunciou-lhe que poderia percorrer em
espírito os céus e os infernos, conversar com os mortos, com os
demônios e com os anjos. Como Dante fez através da poesia.
Assim começa a fase
mística de Swendenborg, aos cinquenta e sete anos de idade, sem
valer-se de metáforas e hipérboles, tão usadas nesse tipo de
trabalho. Ia direto ao assunto.
Borges levanta uma série
de especulações sobre a honestidade e a lucidez do nosso personagem,
terminando por nada constatar que o desabone.
O que me tocou como
leitor de Borges, iniciando-me no conhecimento do sueco, é o seu
conceito originalíssimo de céu e de inferno. Em sua doutrina, esses
destinos não são lugares, são condições das almas, determinadas por
sua vida anterior aqui na Terra. “A ninguém está proibido o paraíso,
a ninguém está imposto o inferno”. “Se o morto é um malvado,
agradam-lhe o aspecto e a convivência com os demônios, e não demora
a se unir a eles; se é um justo, escolhe os anjos”. O livre arbítrio
seria, portanto, garantido às almas no além.
A doutrina de Swedenborg
é basicamente de fundo moral. Representa exatamente como a vida se
passa entre os viventes. Implicitamente prega uma vida virtuosa. O
que viria a acontecer depois da morte não diferiria muito da vida
vivida por aqui. Não seria um arrependimento tardio, à beira do
desenlace, que levaria as almas, compulsoriamente dependentes da
justiça divina, às delícias do céu ou às aflições do inferno. “Nem a
riqueza, nem a felicidade, nem o luxo, nem a vida mundana são
barreiras para se entrar no céu”. Por outro lado, “ser pobre não é
uma virtude”.
Com ele surge uma
novidade na nova doutrina. “Para os Evangelhos, a salvação é um
processo ético. Ser justo é o fundamental; também se exaltam a
humildade, a miséria e a desventura. Ao requisito de ser justo
Swedenborg acrescenta outro, antes não mencionado por nenhum
teólogo: o de ser inteligente”. “Despojai-vos de santidade e
cobri-vos de inteligência” já dizia Blake (citado por Borges).
A idéia mística de
Swedenborg, da qual eu não comungo – não aceito nada sobrenatural,
idealizado, fantasioso – pode muito bem ser aceita no mundo tido
como real. Geralmente, em nossas sociedades, as pessoas são
agrupadas da maneira que ele idealizou para o paraíso e para o
inferno. O “céu” congrega as pessoas com algum princípio sadio de
vida. Os que têm, no mínimo, algo de altruísmo. São os que tentam
ser justos, honestos, intelectualmente honestos, e, principalmente,
os inteligentes. No “inferno” se agrupam, por livre e espontânea
vontade, aqueles a quem faltam tais princípios, sem respeito aos
seus contemporâneos. Basicamente os egoístas. Ainda acrescentaria
aqui os pios, porém ingênuos e incultos. Os indivíduos com essas
características tendem a procurar naturalmente o seu espaço vital
mais confortável.
Os grupamentos das pessoas, na vida
real, são formados basicamente assim. Por um lado, os que têm um
mínimo de caráter e combinam com os caracteres dos outros
componentes do grupo, nem que entre eles exista divergência de
opiniões de várias ordens. Por outro lado, os que carecem de falta
de respeito às condições básicas de ética para com o outro, de
cidadania etc. Tais grupos tendem a se excluir, um do outro. Pelo
menos no convívio social.
Não se trata de uma
divisão entre os “do bem” e os “do mal” (abomino tais expressões).
Essa distinção decorre de considerações moralistas e religiosas com
as quais eu não compactuo. As pessoas (e as almas, segundo
Swedenborg) se dividem por comportamentos éticos diferentes; eu
diria mais: por caracteres diferentes.
Isso se dá, aqui na
Terra, sem a propalada corte e justiça divina. Swedenborg
simplesmente extrapolou para a esfera mística o que aqui sentiu.
Ora direis ouvir os
místicos! Quem diria que eu fosse buscar no mundo místico o que eu
entendo por como classificar o ser humano; numa esdrúxula concepção
do que seja o céu e o inferno, aliás, tão esdrúxula como qualquer
concepção sobre o mesmo assunto. Talvez a diferença entre o real e o
imaginário reside que, por aqui, a classificação não aconteça da
maneira maniqueísta apresentada: isso ou aquilo, “céu” ou “inferno”.
Há, no convívio entre as pessoas, zonas cinzentas entre essas fortes
colorações expostas pelo extravagante nórdico, embora as pessoas com
caracteres diferentes sejam simplesmente aturadas.
Todo esse raciocínio, aqui entre
nós, por razões politicamente corretas e humanísticas, não deva
justificar a formação de castas excludentes. Quem pensa assim
deveria continuar no inferno. Cá e lá, se lá houver.
Nota:
Os trechos citados entre aspas foram copiados do texto do Jorge Luis
Borges.