ANO X - N°
285, em 10 de novembro de 2011.
Memórias
DESPOJAMENTO

Nada possui nada.
Desde a verdade até a um lenço,
tudo é impossuível.
A propriedade não é um roubo:
não é nada.
Fernando Pessoa,
em O Livro do Desassossego.
Estivemos pensando, um dos meus
irmãos e eu, sobre a vida de alguns dos nossos antepassados, com
quem convivemos intimamente durante anos até suas mortes: vô
Dangremon e tio Nicolau. Eram cunhados. O avô, casado com a irmã do
tio, teve seis filhos. Nosso tio e a irmã, nossa avó, eram
espanhóis, ele, originalmente Nicolas, aportuguesou o seu nome
quando por aqui aportou. Nossos dois velhos já eram viúvos quando
nossos pais se casaram. O tio, na realidade tio-avô, não deixou
descendente.
Inicialmente, nossos pais moravam
com meu avô na Rua 13 de Maio onde nasci. Depois, ele é que foi
morar com os meus pais, primeiro na Cidade Alta e a seguir na
Avenida da República. Nosso tio vivia num quarto alugado na Vila
Rubim, numa casa de família. O avô, desde quando o conheci, já era
funcionário estadual aposentado. O tio era sócio ou funcionário
importante, operante ainda, da Casa Samuel, uma loja de armarinhos,
na rua principal de Vitória, no térreo do antigo Hotel Tabajara.
Este jantava diariamente conosco e almoçava aos sábados. Nos
jantares trazia-nos balas; nos almoços goiabada, marmelada ou
pessegada. Acredito que ambos participavam de alguma forma no
orçamento familiar, pois a família crescia aceleradamente desde que
nasci, até o sétimo filho, 15 anos depois.
Vovô tinha tez branca, de um branco
moreno luso-brasileiro, esguio, magro e alto, usava roupas escuras e
um topete juvenil numa cabeleira bem penteada. Titio era baixo,
careca, gordinho, rubicundo e usava geralmente roupas claras. O
vô fazia um gênero sério. O tio, mais bonachão, alegre.
Meu avô, além de comprar peixes e
jogar bilhar, tinha uma marcenaria em casa e nela fazia excelentes
trabalhos artesanais, inclusive brinquedos para nós (copiou em ponto
menor, toda a nova mobília da parte social da nova casa, para
brincadeira de boneca de nossa irmã) e geniais gaiolas para sua
criação de pássaros canoros. Depois que ele ficou doente e
impossibilitado de praticar seu hobby, nós detonamos a
pequena oficina.
Titio Nicolau era cego de um olho.
Contava-se que perdera a visão ainda jovem com a administração de um
colírio inadequado. Ele nos chamava de cornetas quando diante
de alguma peraltice praticada por seus sobrinhos. Nunca soube por
que ele nos apelidava com o nome de um instrumento musical. Na
realidade, corneta no seu linguajar ibérico, era um pequeno
corno, um chifrudo, um capetinha.
Quando morreram, primeiro o tio e
depois o avô, ambos pouco antes ou pouco depois dos oitenta anos de
idade, não deixaram nada, o que não é atualmente comum, mesmo em
membros da classe média de mais baixa renda.
Meu tio tinha uma cama de viúvo (que
passou a ser usada por meu avô), um relógio de bolso e uma parca
poupança que foi dividida entre as sobrinhas. Nos seus últimos dias
morou conosco para melhor ser cuidado.
Meu avô possuía um imenso rádio de
válvulas e uma escarradeira, que ficava ao lado da cama, de uso tão
comum em vários ambientes nos tempos idos e a que a modernidade (e a
medicina), por bem e oportunamente, deu fim.
Causou-nos surpresa ao pensarmos
sobre o assunto, enchendo-nos de admiração pela vida vivida por
eles, de parcimônia e despojamento. Lembro-me de meu pai dizer: “seu
avô é um homem realizado!” Só bem mais tarde eu entendi
completamente o que isso queria dizer.
Nota:
Mais sobre o meu avô, se estiverem interessados, sugiro a releitura
do Jornalego nº 46 (Meu Tipo Inesquecível) e o nº 221 (Da Caderneta
Preta). É só clicar sobre o número citado, na relação à esquerda.
Na foto acima, tio Nicoláu está
sentado, vô Dangremon está em pé.