ANO X - N°
284, em 20 de outubro de 2011.
Opinião
CONTESTANDO O
SENSO COMUM
O senso comum que alguns pretensiosos chamam de bom senso é formado
aqui no Brasil pelos formadores de opinião da mídia conservadora
nacional. O senso comum também é conhecido por opinião pública
quando me parece mais opinião publicada. Bom senso é o senso de cada
um, aquilo que o indivíduo acha melhor para si. Cada qual tem o seu
bom senso particular, da mesma forma que o seu bom gosto. Não
existem bom senso nem bom gosto no sentido lato. Os grandes veículos
de informação e opinião brasileiros (televisão, jornais e revistas)
fazem parte daquela porção conservadora da sociedade brasileira. A
rigor, praticamente não existe alternativa midiática. A exceção fica
com algumas publicações que não têm o grande poder de penetração
daqueles dinossauros. Também com alguns artigos esparsos de
acadêmicos reconhecidos recebidos pela Internet.
Observo também que,
mesmo através dessas grandes mídias conservadoras, existem alguns
momentos de melhor reflexão fora da corrente principal de
pensamento, que, ao impregnar o jornalismo convencional, contamina a
população. É quando são entrevistados alguns acadêmicos,
especialistas em sua área de atuação ou mesmo, políticos e
empresários mais esclarecidos. Embora induzidos pelas perguntas a se
perfilar ao pensamento do entrevistador, alguns vão contra a maré
apresentando excelentes considerações contrárias ao senso comum
jornalístico. Isso acontece, às vezes, em programas de entrevistas
na Globo News. Justiça seja feita.
Um dos problemas do
nosso jornalismo é que suas principais figuras não têm conhecimentos
profundos das áreas em que se especializaram para comentar.
Principalmente os jornalistas econômicos. Eles têm uma casquinha de
conhecimento sobre a ciência econômica, que na realidade é bem mais
do isso: trata-se de economia política e nunca se aprofundaram nem
praticaram nada nesta área. Geralmente seus conhecimentos são
epidérmicos e se baseiam nas cartilhas do pensamento conservador
(Consenso de Washington, neoliberalismo), que eu chamo aqui,
traduzindo literalmente, de “corrente principal” (main stream
na língua inglesa). Esses personagens são sempre regiamente
agraciados com prêmios nas capitais desse pensamento. Alguns até se
tornam imortais.
Mas, deixemos de lado
este blá-blá-blá inicial e vamos direto aos finalmentes.
Cito, a seguir, alguns exemplos do pensamento conservador-liberal
que eu contesto fortemente.
1) Acho
correta a atuação da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres,
com as ações comandadas pela ministra Iriny Lopes, ao criticar o
comercial com uma conhecida modelo, onde a mulher é diminuída
perante o marido, num ato de subordinação explícita representando um
“sexismo atrasado”, como define a ministra. Como também
concordo com o seu procedimento sobre o que se passou na novela
“Fina Estampa” no qual uma personagem feminina foi espancada pelo
marido sem apresentar queixas ou denunciar o companheiro. No
primeiro caso, a ministra simplesmente sugeriu ao Conselho Nacional
de Autorregulamentação Publicitária (Conar) para retirar aquele
comercial do ar. Tanto é assim que o Conar rejeitou a proposta e
ficou por isso mesmo. Quanto à novela, a Rede Globo respondeu que
“tomou boa nota” e ficou também por isso mesmo. Tudo foi feito
dentro da mais restrita observância das leis em vigor. Milhares de
mulheres são vítimas de agressões domésticas, no Brasil, a cada ano.
A impunidade, também nesses casos, não deve ser incentivada. Não se
trata de cercear a livre expressão artística e sim evitar a
divulgação dessas peças em cadeia nacional livre de televisão em
emissoras que são concessionárias de um serviço público.
2) A
reação dos principais veículos de nossa mídia chega a ser paranoica,
quando se comenta a possibilidade de criar marcos institucionais
para disciplinar o papel da imprensa, principalmente agora quando
novos veículos estão sendo introduzidos, com sucesso, na atividade.
Refiro-me à mídia eletrônica. Recorrem sempre, para expor sua
paranoia, ao medo da censura e da repressão à livre expressão, para
defender seus ricos interesses e os ridículos (e muito rentáveis)
programas exibidos em cadeia nacional livre, consumidos avidamente
por grande parte da sociedade brasileira. É bom lembrar que os
canais de televisão são uma concessão pública e deveriam primar pela
boa educação do povo. Os comentaristas críticos têm sempre uma
posição corporativista (a voz do dono) e espalham o pânico para
defenderem suas atuais posições monopolistas.
3) Sobre o
aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os
carros importados houve uma grita dos comentaristas econômicos
qualificando tais procedimentos como “protecionistas”. Mas lógico
que são protecionistas; mas qual é o pecado que se incorreu nisso:
proteger a indústria nacional e seus empregos da concorrência
estrangeira, que geralmente utiliza tais artifícios (e outros
camuflados) para baratear seus produtos ou prejudicar a concorrência
(por exemplo: salários vis, inexistência de justiça trabalhista,
previdência social e serviços públicos de saúde)? Que mal tem
proteger nossa economia da crise que grassa no mundo oriunda da
incompetência e ganância dos grandes centros financeiros? O nosso
etanol não entra nos EUA porque sua importação é fortemente taxada
por lá, na defesa do deles. Outro dia, numa entrevista a um grande
empresário internacional, a entrevistadora ficou perplexa quando ele
aprovou a taxação: Mas isso não é “protecionismo”, perguntou ela. É,
e daí? Por acaso não se pode proteger a nossa família e o nosso
país? Pergunto eu. A palavra “protecionismo” está no índex dos
palavrões neoliberais e não deve ser pronunciada pelos ortodoxos.
4) Não sei
também porque se cultiva esse dogma de que o mercado é que deve
regular as cotações, os preços etc. sem a intervenção governamental
quando isso for necessário ou de interesse nacional! Afinal, em todo
o mundo são os governos que estão a limpar a sujeira do mercado
financeiro com polpudas injeções de recursos. Vale dizer: dinheiro
público. Eu não sei por que aceitar o jogo do mercado e permitir a
taxa de câmbio baixa, valorizando o Real e minando as nossas contas
externas (desincentivando exportações, incentivando importações e
gastos no exterior). A China, por exemplo, campeã das exportações no
mundo, não age dessa forma. Compreendo que essas medidas
protecionistas e intervencionistas (p.ex.: no mercado de câmbio) não
devam extrapolar certos limites para evitar a guerra predatória
entre concorrentes, mas, dentro desses limites, são recomendáveis.
5) A
renovação do ímpeto inflacionário é outro ponto que está
constantemente em pauta no noticiário jornalístico, como se
estivéssemos no limiar do apocalipse. Será que esses comentaristas
não veem que o Governo está, de certa forma, permitindo uma pequena
inflação, para se defender do outro dragão: da crise que está
assolando o mundo quase todo, para não afetar muito o crescimento da
renda e do emprego nacionais. Isso fica claro quando não corta seus
programas de cunho social, ao contrário, cria novos, ou quando baixa
a taxa de juros do governo (taxa Selic). Veja as manifestações
populares nos EUA, Grécia, Itália, Portugal, Espanha, sem falar nos
países árabes, que estão sofrendo com desemprego alto.
6) Agora a
Líbia. Sem absolutamente tentar defender a atuação mais recente do
Muamar Kadafi, é absurda a invasão da OTAN àquele país num butim
descarado por petróleo e novos negócios ali e nos países árabes. Com
a bandeira de defender o povo, mata-se o povo e invadem-se os
países. Outras nobres bandeiras são usadas para tais invasões: a
defesa da democracia, a defesa ambiental, o combate ao narcotráfico
e outras iniciativas caridosas e hipócritas. A nossa imprensa,
sente-se no ar, torce descaradamente para a vitória final e total
dos rebeldes na Líbia, fazendo suspense na espera do linchamento de
seu líder, com a providencial ajuda das tropas da OTAN.
7)
Finalmente, embora outros pontos devam existir para serem criticados
dentro do princípio deste texto, está a sempre recorrente carga
contra a Constituição Brasileira vigente. A tão criticada Carta
Magna de 1988, sobre a qual o então Presidente Sarney disse que era
impossível governar um país com ela, já sobreviveu a vários governos
(sem entrar no mérito deles: o do próprio Sarney, Collor-Itamar, FHC
e Lula). A Constituição de 88 é por mim e alguns conhecedores de
Direito Constitucional considerada como a melhor Carta que o país já
teve. Aquela que, elaborada depois dos Governos Autoritários, é
chamada de a Constituição Cidadã e que mudou a face do país ainda
recendendo à escravidão e que incentivou a criação, nos anos
recentes, de tantos benefícios à sua população desprotegida.
Agora, para terminar mesmo, eu vivo
a criticar se não explicitamente, mas no meu íntimo, alguns dos meus
interlocutores que têm o péssimo costume de viver criticando nosso
país. Quanta coisa ainda por fazer, principalmente na área de
educação, saúde, segurança, ciência e tecnologia, política, justiça,
infraestrutura, qualificação profissional etc.! Como se vê, eu
também sei elencar a todas as principais mazelas. Mas não há como
negar que vivemos um momento impar na nossa história e antevejo, se
os monstros sagrados do desenvolvimento capitalista não provocarem
novas crises, nem guerras e outras trapalhadas deste tipo, um país e
um povo maravilhosos aos quais tenho muito orgulho de pertencer.
Se a mídia pudesse ajudar um
bocadinho, sem atrapalhar muito, seria ótimo. Não precisa elogiar os
governos, nem se ufanar do país, mas que não torça pelo circo pegar
fogo. Ninguém discute a importância de uma imprensa livre. Por
exemplo, com esses contínuos resmungos ela coopera para ajustar as
coisas e colocar o trem nos eixos quando por vezes a composição
descarrila. Detesto a imprensa quando se especializa simplesmente em
veicular crimes e violências e se transforma em denuncista. Mas até
que ela tem prestado um bom serviço ao denunciar a corrupção!’
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Boa sorte! A Redação.