ANO X - N°
283, em 10 de outubro de 2011.
Memórias
OS SOBREVIVENTES
Outro dia, numa
cerimônia de casamento, encontrei Marlene e contei-lhe um fato
do qual ela não mais se lembrava, ocorrido ao final de sua
festinha de aniversário de quinze anos, realizada, anos atrás,
com pompa e circunstância num clube da capital. Eu e meus amigos
não fomos convidados, não fazíamos parte de sua turma. Embora
jovens, éramos mais velhos. Eu, particularmente, continuo sendo.
Ainda bem! A alternativa que resta à velhice é bem pior.
Estávamos saindo de
uma farra com os amigos, no retorno às nossas casas ou
procurando novas aventuras noturnas. Como eram inocentes tais
aventuras! Ao passarmos, entulhados num carrão americano
anterior ao primeiro choque do petróleo, apelidado de Queen
Elizabeth, como o transatlântico xará, deparamos com a
Marlene, ao final de sua festinha, na porta do clube, a se
despedir dos convidados.
Um de nós, protegido
pelo anonimato do escurinho no interior do veículo, gritou em
falsete: “Marlene, a sua festinha foi ótima!” e prosseguimos.
Pela graça provocada, esse bordão passou a ser consagrado pela
turma e comumente usado ao final de nossos encontros, festas de
aniversário ou que tais. Reproduzíamos integralmente a frase, ao
nos despedirmos do anfitrião de plantão, também em falsete:
“Marlene, a sua festinha foi ótima!”
Éramos seis: Zé
Augusto, Maneco, Marquinhos, Rogério (meu irmão), Carlos Victor
e eu.
Meio século
transcorreu (desculpe-me Marlene, mas parece que para você o
tempo não passou). Nesse período, os quatro primeiros
transferiram-se para a nossa memória e aí vão ficar para nunca
mais voltar. Carlos Victor e eu somos os sobreviventes dessa
historinha.
Coube-nos, ao final
da festa de cada um desses retirantes, ao nos despedir do
companheiro que nos deixava simbolicamente exclamar: “Marlene,
sua festinha foi ótima!”
Quando o fogo apagar e a
nossa festa acabar de vez, competirá a quem continuar por
aqui repetir o bordão tradicional para quem se apressar a
partir. Aquele que sobrar e vier a fechar a casa e a apagar a
luz talvez receba, nessa ocasião, a visita da própria personagem
do célebre refrão, que não se furtará em repetir: “Marlene, a
sua festinha foi ótima!” Fechando assim a crônica do nosso
tempo.