ANO X - N°
282, em 30 de setembro de 2011.
Crônica
ODE ÀS PRIMAVERAS
Para Marilena Soneghet
Diz a cronista que está
empenhada na reconstrução do jardim de sua casa. Pois bem, vou
dar uma mostra do meu, para incentivá-la a ir em frente com o
seu. Meu jardim, por certo, servirá de modelo para ela e causará
na bela poeta uma invejável disposição para o florido trabalho.
Meu jardim, a beira-mar
plantado, fica numa ampla varanda debruçada sobre a linda costa
capixaba. Aprendi com o conterrâneo Rubem Braga, que tinha mais
que um jardim: uma horta e um pomar nas alturas de uma cobertura
em Ipanema, por onde voejava linda, leve e solta, uma borboleta
amarela. Não só no Braga, mas também me inspirei em outros
poetas, que são doutores no assunto. Os botânicos e jardineiros
nada sabem sobre jardins suspensos. Nem tampouco os babilônios.
Num canteiro encontram-se as
assim chamadas flores de Drummond. Lá estão minha prímula, meu
pelargônio, meu gladíodo e meu botão-de-ouro. Minha peônia.
Minha cinerária, minha calêndula, minha boca-de-leão. Minha
gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Floramarílis, floranêmona,
florazálea, clematite minhas. Catléia, delfínio e estrelítzia.
Minha hortensegerânea. Meu nenúfar, rododendro, crisântemo e
junquilho meus. Meu ciclâmen. Macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha. Daliabegônia minha. Forsitiaíris tuliparrosa
minhas. Violeta... amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu
cravo-pessoal-de-defunto.
Além das flores do
poeta, cultivo outras flores e mais: borboletas, beija-flores e
vaga-lumes noturnos. Esse pequeno espaço é de minha lavra.
Depois de muito revolver a terra, fertilizá-la e regá-la, podar
o supérfluo, foi ali, que num dia de Sol suave, testemunhei
eventos raros: uma larva, lagarta, crisálida, enfim, diáfana
borboleta, da espécie dos lepidópteros, o mais belo dos
espécimes, ao flanar voando pelos arredores, enamorou-se por uma
orquídea, sorveu-lhe o perfume e todo o ser e nessa flor se
transformou. A orquídea, Florboleta brasiliensis, assim
batizada, prendia-a em estufa, até que, cedo, definhou.
Outra flor, por seu turno,
apaixonou-se por uma das borboletas que voava pelas ramas das
plantas baixas: as pitangueiras, as pimenteiras e as árvores da
felicidade. Atraiu suas coloridas asinhas, incorporou-se no belo
inseto e assim curtiu vida efêmera a pousar de galho em galho.
Nesse jardim também tenho
margaridas infantis, tulipas batavas, dálias paternas, rosas
púrpuras do Cairo, magnólias mulatas, bromélias insinuantes,
lírios angelicais, rainha-da-noite embriagadoras, onze-horas
pontuais, girassóis da Rússia, blue gardênias,
lindíssimas amapolas, violetas imperiais, cravos
revolucionários, camélias adamadas, flores do cerrado central e
a fina flor silvestre da Amazônia: uma vitória-régia! Pela
varanda flores tristes e baldias. Ah! Tem também uma planta
carnívora que devora os aedes aegyptis da dengue
defendendo-nos da epidemia.
Tenho que confessar, eu não
tenho tanta experiência quanto aparento na construção e
manutenção de jardins! Acho que me excedi. O que eu sei fazer
mesmo é, de vez em quando, cometer umas insólitas escrituras. Só
me restava esta maneira para impressionar a cronista: causar-lhe
ciúmes com os meus jardins “suspensos” na passagem de novo
equinócio, já que tanto invejo os belos e singelos textos como
os que ela cultiva tão bem.
Créditos:
1) O terceiro parágrafo reproduz, com pequenas alterações, o
poema de Carlos Drummond de Andrade: Declaração de Amor.
2) A frase em itálico no penúltimo parágrafo é um verso de
Gente Humilde, de Chico Buarque